Nicholas Sparks 
O Caderno de Noah


Ttulo original: The Notebook
Copyright (c) 1996 by Nicholas Sparks
Edio publicada por acordo com Warner Books, Inc., Nova Iorque, N.Y., U.S.A.
Traduo (c) Editorial Presena, Lisboa, 1999
Traduo: Helena Barbas
1.a edio, Lisboa, Janeiro, 1999
2.a edio, Lisboa, Setembro, 1999
3.a edio, Lisboa, Fevereiro, 2000
4.a edio, Lisboa, Julho, 2000
Depsito legal n. 153 263/00

Com amor, dedico este livro a Cathy,
minha mulher e minha amiga

AGRADECIMENTOS

Esta histria tornou-se o que hoje  devido a duas pessoas muito especiais, e gostaria de lhes agradecer por tudo o que fizeram. A Teresa Park, a agente que me arrancou
 obscuridade: obrigado pela amabilidade, pacincia, e pelas muitas horas que gastaste a trabalhar comigo - ficarei grato para sempre por tudo o que fizeste. A Jamie
Raab, o meu editor: obrigado pela sabedoria, humor e bom corao. Tornaste esta experincia maravilhosa para mim, e fico feliz por te poder chamar meu amigo.

MILAGRES

Quem sou eu? E como acabar esta histria?
O Sol j se levantou e sento-me junto a uma janela que se embaciou com o bafo de uma vida passada. Estou uma figura digna de ser vista, esta manh: duas camisas,
calas grossas, um cachecol enrolado com duas voltas em torno do pescoo e enfiado dentro de uma camisola grossa tricotada pela minha filha h uns trinta aniversrios.
O termstato no meu quarto est no mais alto que pode aguentar, e um outro aquecedor mais pequeno senta-se directamente atrs de mim. Estala e geme e vomita ar quente
como um drago de conto de fadas, mas o corpo continua a tremer-me com um frio que nunca partir, um frio que se foi fabricando durante oitenta anos. Oitenta anos,
penso s vezes, e apesar da minha prpria aceitao desta minha idade, ainda me surpreende que no tenha conseguido sentir-me quente desde que George Bush foi presidente.
E pergunto-me se ser assim com toda a gente da minha idade.
A minha vida? No  fcil de explicar. No tem sido o percurso naturalmente esplndido que eu imaginava que pudesse ser, mas tambm no andei a lurar com os fura-vidas.
Calculo que tenha acabado por se parecer mais com um ttulo do tesouro: honestamente estvel, mais altas que baixas, e gradualmente tendendo a subir com o tempo.
Uma boa compra, uma aquisio sortuda, e aprendi que nem toda a gente pode dizer o mesmo da sua vida. Mas no se iludam. No sou nada de especial e disto estou certo.
Sou um homem vulgar, com pensamentos vulgares, e vivi uma vida vulgar. No h monumentos dedicados a mim e o meu nome em breve ser esquecido, mas amei outra pessoa
com toda a minha alma e corao e, para mim, bastou-me sempre.
Os romnticos chamar-lhe-iam uma histria de amor, os cnicos antes uma tragdia. Para mim tem um bocadinho de ambas, e qualquer que seja o modo como se escolha 
olh-la aqui do fim, no se altera o facto de que se trata de uma grande quantidade da minha vida e do caminho que escolhi percorrer. No tenho queixas a fazer quanto 
ao meu percurso, nem quanto aos lugares aonde me levou. Talvez que sobre outras coisas pudesse arranjar lamentaes suficientes para encher uma tenda de circo, mas 
o caminho que escolhi tem sido sempre o correcto, e no quereria que tivesse sido de outra maneira.
O tempo, infelizmente, no torna fcil o manter do curso. O caminho continua recto como sempre, mas est agora juncado com as pedras e o cascalho que se vo acumulando 
ao longo de uma vida. At h trs anos teriam sido fceis de ignorar, mas agora  impossvel. Uma doena rola atravs do meu corpo; j no sou forte nem saudvel, 
e os meus dias vo-se gastando como um velho balo de festa: inerte, esponjoso, e a tornar-se cada vez mais mole com o tempo.
Tusso, e atravs das plpebras franzidas espreito o relgio de pulso. Apercebo-me de que  tempo de partir. Levanto-me do meu assento junto  janela e arrasto os 
ps a atravessar o quarto, parando junto  escrivaninha para apanhar o livro de apontamentos que j li centenas de vezes. Nem sequer lhe dou uma vista de olhos. 
Em vez disso, enfio-o debaixo do brao e continuo o meu caminho em direco ao lugar aonde tenho que ir.

Caminho sobre um cho de tijoleira de cor branca salpicada de cinzento. Como o meu cabelo, e o cabelo da maioria das pessoas de aqui, embora esta manh seja eu o 
nico no trio da entrada. Os outros ainda esto nos seus quartos, sozinhos a no ser pela televiso mas, como eu, j esto acostumados a isso. Se lhe derem tempo 
suficiente, uma pessoa habitua-se a tudo.
Oio sons abafados de choro  distncia, e sei exactamente quem os est a fazer. As enfermeiras vem-me ento, sorrimos uns para os outros e trocamos cumprimentos. 
So minhas amigas e conversamos muitas vezes, mas tenho a certeza de que ficam a magicar a meu respeito e sobre coisas que sofro todos os dias. Oio-as quando comeam 
a murmurar entre si ao verem-me passar. "L vai ele outra vez," escuto, "Espero que corra bem." Mas no me dizem nada directamente sobre o assunto. Tenho a certeza 
que pensam que me incomodam a falar disto logo de manh to cedo, e conhecendo-me como me conheo, acho que so capazes de ter razo.
Chego ao quarto um minuto mais tarde. A porta foi escorada, aberta para mim, como acontece usualmente. H mais duas outras pessoas l dentro, e tambm me sorriem 
quando entro. "Bom Dia", dizem com vozes alegres, e gasto um momento a perguntar-lhes pelas crianas, as escolas, as frias que esto para chegar. Falamos por cima 
do som do choro durante um minuto ou mais. Parecem no dar por ele. Ficaram-lhe insensveis. Tambm eu me estou a tornar insensvel, mas por outros motivos.
Depois sento-me na cadeira que acabou por adquirir a minha forma. J esto a acabar. Ela j tem as roupas vestidas, mas continua o choro. Tornar-se- mais mansinho 
depois de elas partirem, eu sei. A excitao da manh perturba-a sempre, e hoje no  excepo. Por fim, a cortina  aberta e saem as enfermeiras. Tocam-me ambas 
e sorriem-me ao passar por mim. Gostaria de saber o que significa isto.
Sento-me s por um segundo e fico a observ-la, mas ela no devolve o olhar. Compreendo. No sabe quem sou. Para ela sou um estranho. Depois, desviando-me, baixo 
a cabea e rezo silenciosamente para que me sejam dadas as foras de que sei irei precisar. Fui sempre um crente convicto em Deus e no poder da orao embora, para 
ser honesto, a minha f tenha acabado por me suscitar uma lista de perguntas que, definitivamente, s quero que sejam respondidas depois de eu partir.
Agora estou pronto. De culos postos, tiro do bolso uma lente de aumentar. Poiso-a sobre a mesa por um instante enquanto abro o livro de apontamentos. So precisas 
duas lambidelas no meu dedo lenhoso para conseguir que a capa muito usada se abra na primeira pgina. Depois ponho a lente de aumentar no stio.
H sempre um momento, imediatamente antes de comear a ler a histria, em que a mente se me perturba, e pergunto-me, "Ir acontecer hoje?" No sei. Porque nunca 
sei com antecedncia. E, l no fundo, nem sequer  importante.  a possibilidade que me faz continuar e no a certeza. Uma espcie de aposta da minha parte. E embora 
me possam chamar sonhador, louco ou qualquer outra coisa, acredito que tudo  possvel.

Tenho conscincia de que as probabilidades e a cincia esto contra mim. Mas a cincia nunca tem uma resposta definitiva. Isto eu sei, aprendi-o durante a minha 
vida. E tal deixa-me com a crena de que os milagres, por mais inexplicveis ou incrveis, so reais e podem ocorrer sem se preocuparem com a ordem natural das coisas. 
Assim, uma vez mais, tal como fao todos os dias, comeo a ler o livro de apontamentos em voz alta, de maneira que ela o possa ouvir, na esperana de que o milagre 
que veio a dominar a minha vida possa prevalecer de novo.
E por hiptese, s por hiptese, talvez acontea.

Fantasmas

Estava-se no princpio de Outubro de 1946, e Noah Calhoun observava o Sol desvanecente a mergulhar mais a partir do prtico que circundava a sua casa ao estilo de 
plantao sulista. Gostava de se sentar ali nos fins de tarde, especialmente depois de trabalhar duramente o dia todo, e deixar os pensamentos deambular sem um propsito 
consciente. Era assim que se descontraa, um truque que aprendera com o pai.
Gostava especialmente de olhar as rvores e os reflexos delas no rio. As rvores da Carolina do Norte so muito belas em pleno Outono: verdes, amarelos, vermelhos, 
laranjas e todas as tonalidades intermdias. As cores assombrosas brilham com o sol e, pela centsima vez, Noah Calhoun imaginou se os primeiros proprietrios da 
casa teriam passado assim as tardes a pensar nas mesmas coisas.
Fora construda em 1772, o que a tornava numa das mais antigas e maiores habitaes de Nova Berna. Originalmente tinha sido a casa principal da plantao. Comprara-a 
logo a seguir  Guerra ter terminado, e nos ltimos onze meses havia gasto uma pequena fortuna a consert-la. O reprter do jornal de Raleigh tinha feito um artigo 
sobre ela algumas semanas atrs onde dissera que era um dos melhores restauros que alguma vez vira. Pelo menos a casa era. O resto da propriedade seria outra histria, 
e fora nela que passara a maior parte do dia.
A casa assentava sobre uns doze acres adjacentes ao ribeiro de Brices, e estivera a trabalhar na vedao de madeira que cercava os outros trs lados da propriedade, 
procurando caruncho ou trmitas, substituindo os postes quando era preciso. Ainda tinha muito trabalho para fazer ali, em particular no lado oeste, e enquanto arrumava 
as ferramentas um pouco antes, tomara nota mentalmente para telefonar a pedir que lhe enviassem mais madeira. Entrou em casa, bebeu um copo de ch doce, e foi para 
o duche. Tomava sempre duche ao fim do dia, com a gua a lavar a sujidade e o cansao.
Depois penteara o cabelo para trs, vestiu umas calas de ganga coadas e uma camisa azul de mangas compridas, encheu outro copo com ch adoado, e foi para o alpendre, 
onde se sentava agora, onde se sentava todos os dias por esta hora.
Esticou os braos acima da cabea e depois para os lados, fazendo rolar os ombros enquanto acabava o exerccio. Sentia-se bem e limpo, fresco. Tinha os msculos 
cansados e sabia que no dia seguinte lhe iriam ficar um pouco doridos, mas sentia-se feliz por ter conseguido acabar quase tudo o que se propusera fazer.
Noah esticou-se para apanhar a viola, lembrando-se do pai ao faz-lo, pensando como sentia tanto a falta dele. Experimentou um acorde, ajustou a tenso em duas das 
cordas, depois dedilhou de novo. Desta vez at lhe soava afinado e principiou a tocar. Msica doce, msica calma. Trauteou primeiro durante algum tempo, depois comeou 
a cantar enquanto a noite caa em torno de si. Tocou e cantou at o sol desaparecer e o cu se tornar escuro.

Passava pouco das sete quando desistiu, se instalou melhor na cadeira e comeou a balanar-se. Por hbito, olhou para cima e viu Oron e a Ursa Maior, Gmeos e a 
Estrela Polar a tremeluzirem no cu outonal.
Comeou a fazer contas de cabea e depois parou. Sabia que tinha gasto as suas poupanas quase todas com a casa, e que muito em breve teria que arranjar de novo 
um emprego, mas afastou o pensamento e decidiu gozar os meses de restauro que ainda lhe faltavam sem se preocupar com o assunto. Seria melhor para si, e ele sabia-o; 
funcionava assim. Alm disso, pensar em dinheiro aborrecia-o sempre. No princpio, habituara-se a gozar as coisas simples, coisas que no podiam ser compradas, e 
era-lhe muito difcil perceber as pessoas que pensavam de outra maneira. Era um outro trao que tinha herdado do pai.
Clem, a sua cadela de caa, chegou-se at ele e encostou-lhe o focinho  mo antes de se lhe deitar aos ps. "Ol rapariga, como ests?" perguntou-lhe, dando-lhe 
palmadinhas na cabea, e ela rosnou docemente, lanando-lhe os olhos redondos e inquisidores. Um acidente de automvel fizera-a perder uma perna, mas ainda conseguia 
mexer-se bastante bem e fazia-lhe companhia nas noites calmas como esta.
J tinha feito os trinta e um anos, no era muito velho, mas o suficiente para se sentir s. No sara com ningum desde que regressara ali, nem tinha encontrado 
ningum que lhe interessasse mesmo remotamente. A culpa era sua, sabia bem. Havia algo que mantinha uma distncia entre ele e qualquer mulher que comeasse a aproximar-se, 
algo que ele no tinha a certeza de conseguir mudar ainda que tentasse. E s vezes, nos momentos imediatamente anteriores  chegada do sono, perguntava-se se estaria 
destinado a ficar s para sempre.
O crepsculo passou, continuando quente, agradvel. Noah ficou-se a ouvir os grilos e o roagar das folhas, pensando que os sons da natureza eram mais reais e suscitavam-lhe 
mais emoo do que objectos como carros e avies. As coisas naturais davam mais do que tiravam, e os seus sons levavam-no sempre de volta para aquilo que era suposto 
ser real. Havia alturas, durante a Guerra, especialmente depois de uma misso mais importante, em que pensava muitas vezes nestes sons simples. "Vo impedir-te de 
ficares louco", dissera-lhe o pai no dia em que embarcara. " a msica de Deus, e vai trazer-te de volta a casa."
Acabou o ch e foi para dentro. Pegou num livro e, ao sair de novo, acendeu a luz do alpendre. Depois de se sentar outra vez, olhou para o livro. Estava velho, tinha 
a capa rasgada e as pginas sujas de lama e gua. Era As Folhas de Erva de Walt Whitman, que trouxera sempre consigo durante toda a Guerra. Uma vez at recebera 
uma bala por ele.
Esfregou a capa, limpando-a s um pouco. Depois deixou que o livro se abrisse ao acaso, e leu as palavras diante de si:

Esta  a tua hora,  alma, o teu voo livre adentro do indizvel, longe dos livros, da arte, o dia apagado, as lies feitas,
Emerges e avanas totalmente, silenciosa, observando, ponderando nos temas de que mais gostas,
A noite, o sono, a morte e as estrelas


Sorriu para si. Por um motivo qualquer, Whitman recordava-lhe sempre Nova Berna, e sentia-se contente por ter regressado. Embora tivesse estado longe por catorze 
anos, aqui era o seu lar, aqui conhecia uma srie de gente, a maioria dela do tempo da sua juventude. No era de admirar. Como tantas outras pequenas cidades sulistas, 
as pessoas que nela viviam nunca mudavam, apenas ficavam um pouco mais velhas.
O seu melhor amigo nestes tempos era Gus, um negro de setenta anos de idade que vivia ao fim da estrada. Tinham-se conhecido umas duas semanas depois de Noah comprar 
a casa, quando Gus lhe aparecera com um pouco de licor caseiro e um guisado. Haviam passado os dois a primeira noite juntos a embebedar-se e contar histrias.
Agora Gus visitava-o umas duas noites por semana, normalmente por volta das oito. Com quatro filhos e onze netos em casa, sentia necessidade de sair de vez em quando, 
e Noah no o podia criticar. Normalmente Gus trazia a harmnica, e depois de conversarem durante um bocado, tocavam algumas canes juntos. s vezes ficavam a tocar 
horas sem fim.
Acabara por considerar Gus como uma pessoa de famlia. De facto, no tinha mais ningum, pelo menos, desde que o pai lhe falecera no ano anterior. Era filho nico. 
A me morrera de gripe quando ele tinha dois anos e, embora a dada altura o tivesse querido, o pai nunca voltara a casar.
Que ele soubesse, tinha estado apaixonado uma vez. Uma e nica vez, e h imenso tempo. E mudara-o para sempre. O perfeito amor fazia isso a uma pessoa, e aquele 
fora perfeito.
Nuvens vindas da costa comearam a rolar lentamente atravs do cu nocturno, mudando-se em prateadas com o reflexo da lua. A v-las engrossar, inclinou a cabea 
para trs e descansou-a de encontro  cadeira de balano. As pernas moviam-se-lhe automaticamente, mantendo um ritmo constante e, como acontecia todos os dias, sentiu 
o pensamento recuar-lhe at uma noite quente como esta, catorze anos atrs.
Foi logo a seguir a acabar o liceu em 1932, na abertura do Festival do Rio Neuse. A cidade sara toda para a rua, a gozar um churrasco e jogos de azar. Estava hmido 
nessa noite - por um motivo qualquer, recordava-se claramente disso. Chegou sozinho e passeou-se por entre a multido, procurando os amigos. Viu Fin e Sarah, duas 
pessoas com quem tinha crescido, a falarem com uma rapariga que nunca tinha visto antes. Era bonita, lembrou-se de ter pensado, e quando finalmente se juntou a eles, 
ela olhou na sua direco com um par de olhos desfocados que continuavam a aproximar-se. "Ol", disse simplesmente enquanto estendia a mo, "Finley j me falou imenso 
sobre ti."
Um comeo vulgar, algo que seria esquecido se tivesse vindo de outra pessoa qualquer que no ela. Mas quando lhe apertou a mo, e cruzou aqueles espantosos olhos 
esmeralda, soube antes de respirar de novo que ela era aquela por quem poderia passar o resto da vida  procura e nunca mais voltar a encontrar. Assim lhe parecera, 
to boa, to perfeita, enquanto uma brisa de Vero soprava entre as rvores.

A partir dali foi como um vento tornado. Fin disse-lhe que ela estava a passar o Vero em Nova Berna com a famlia porque o pai trabalhava para R. J. Reynolds, e 
embora apenas tivesse acenado, a maneira como ela o olhava fazia com que o silncio parecesse correcto. Fin ento riu-se, porque percebeu o que estava a acontecer, 
e Sarah sugeriu que fossem tomar uns refrigerantes de cereja, e os quatro ficaram pela Festa at a multido se desvanecer e tudo fechar para a noite.
Encontraram-se no dia seguinte, e no dia depois desse, e em breve se tornaram inseparveis. Todas as manhs, com a excepo do domingo, em que tinha que ir  igreja, 
ele acabava as suas tarefas o mais depressa possvel, depois ia directo para o parque do Forte Totten, onde ela o esperava. Porque era recm-chegada e nunca estivera 
antes numa cidade pequena, passavam o dia a fazer coisas que lhe eram completamente novas. Ele ensinou-a a iscar a linha e pescar nos baixios a perca de boca larga, 
e levou-a a explorar os bosques interiores da floresta de Croatan. Navegaram em canoas e observaram as tempestades de Vero, e a ele parecia-lhe que sempre se haviam 
conhecido.
Mas tambm ele aprendeu coisas. No baile da cidade, no celeiro de tabaco, foi ela quem o ensinou a danar a valsa e o charleston, e embora tropeassem durante as 
primeiras canes, a pacincia dela para com ele acabou recompensada, e danaram juntos at a msica acabar. Depois levou-a a casa, e quando pararam no alpendre 
aps se despedirem, beijou-a pela primeira vez e ficou a pensar porque  que havia esperado tanto tempo como esperara para o fazer. Mais para o fim do Vero, levou-a 
a sua casa, olhou para alm da degradao. Disse-lhe que um dia lhe iria pertencer e ento lhe faria obras. Passaram horas juntos a falar sobre os seus sonhos - 
o dele de ver o mundo, o dela de ser uma artista - e numa hmida noite de Agosto perderam ambos a virgindade. Quando ela partiu trs semanas mais tarde, levou consigo 
uma parte dele e o resto do Vero. Ficou a v-la a abandonar a cidade, cedo numa manh chuvosa, observando-a atravs de olhos que no haviam dormido na noite anterior, 
depois foi para casa e fez a mala. Passou a semana seguinte sozinho na ilha de Harkers.
Noah passou as mos pelo cabelo e olhou o relgio. Oito e doze. Levantou-se e foi at  entrada da casa e lanou os olhos estrada acima. No se avistava Gus, e Noah 
calculou que no viria. Regressou  cadeira de balano e voltou a sentar-se.
Lembrava-se de ter falado dela a Gus. A primeira vez que a mencionou Gus comeou a abanar a cabea e rir. "Ento  esse o fantasma de que tens andado a fugir?" Quando 
lhe perguntou o que  que ele queria dizer com aquilo, Gus respondeu: "Tu sabes, o fantasma, a memria. Tenho estado a observar-te, trabalhas que nem um escravo 
noite e dia, esforas-te tanto que nem tens tempo para parar e respirar. As pessoas fazem isso por trs motivos. Por serem loucos, ou estpidos, ou para tentarem 
esquecer. E contigo eu sabia que era para tentar esquecer. S no sabia o qu."
Pensou no que Gus tinha dito. Gus tinha razo,  claro. Nova Berna agora estava assombrada. Assombrada pelo fantasma da memria dela. Via-a diante do parque do Forte 
Totten, o stio deles, de cada vez que por l passava. Fosse sentada no banco ou de p junto ao porto, sempre a sorrir, o cabelo loiro a rasar-lhe suavemente os 
ombros, os olhos da cor das esmeraldas. Quando se sentava no alpendre  noite com a sua viola, via-a a seu lado, ouvindo silenciosamente enquanto ele ia tocando 
a msica da sua infncia.

Sentia o mesmo quando ia ao supermercado de Gaston, ou ao teatro Masonic, ou at quando passeava na baixa da cidade. Para qualquer lado que olhasse via a imagem 
dela, via coisas que a traziam de volta  vida.
Era estranho e sabia-o. Tinha crescido em Nova Berna, e parecia lembrar-se apenas do ltimo Vero, o Vero que tinham passado juntos. Outras memrias eram apenas 
fragmentos, peas aqui e ali, do crescer, e poucas, se algumas, evocavam qualquer emoo.
Tinha contado isto a Gus uma noite, e Gus no apenas percebera tudo, como fora o primeiro a explicar-lhe porqu. Disse simplesmente: "O meu pai costumava contar-me 
que a primeira vez que nos apaixonamos muda a nossa vida para sempre, e por mais que se tente, a emoo nunca desaparece. Essa rapariga de quem me tens falado foi 
o teu primeiro amor. E o que quer que faas, ela ficar contigo para sempre."
Noah abanou a cabea, e quando a imagem dela comeou a desaparecer, regressou a Whitman. Leu durante uma hora, olhando para cima de vez em quando para ver os guaxinins 
e as sarigueias em correria junto ao regato. s nove e meia fechou o livro, subiu para o quarto, e ficou a escrever no seu dirio tanto as observaes pessoais quanto 
o trabalho que tinha feito na casa. Quarenta minutos mais tarde estava a dormir. Clem vagabundeou escadas acima, farejou-o, depois deu umas voltas sobre si prpria 
at por fim se lhe enrolar aos ps da cama.

No princpio da noite e a cem milhas de distncia, sentava-se ela sozinha na cadeira de balano do alpendre da casa dos seus pais, com uma perna cruzada debaixo 
de si. O assento estava ligeiramente hmido quando se sentara. Havia chovido antes, gotas fortes e afiadas, mas agora as nuvens estavam a desaparecer e ela olhou 
para l delas, em direco s estrelas, perguntando-se se tomara a deciso certa. Andava em conflito consigo prpria h dias - e lutara um pouco mais esta noite 
- e no fim, sabia que nunca mais se perdoaria a si prpria se deixasse passar aquela oportunidade.
Lon no soubera a verdadeira razo pela qual ela resolvera partir naquela manh. Na semana anterior insinuara que quereria visitar alguns antiqurios junto  costa. 
" s um par de dias", disse, "e alm disso, preciso de umas frias dos preparativos do casamento." Sentiu-se mal com a mentira, mas sabia que no haveria maneira 
de lhe contar a verdade. A partida dela no tinha nada a ver com ele, e no seria correcto da sua parte pedir-lhe que compreendesse.
Foi uma conduo fcil a partir de Raleigh, pouco mais de duas horas, e chegou um pouco antes das onze. Registou-se numa pequena estalagem na parte baixa da cidade, 
foi para o quarto, desfez a mala, pendurou os vestidos no roupeiro e ps o resto das coisas nas gavetas. Almoou depressa, pediu  criada os endereos dos antiqurios 
mais prximos, e passou as poucas horas seguintes a fazer compras. Pelas quatro e meia estava de volta ao quarto.
Sentou-se  beira da cama, pegou no telefone e ligou para Lon. Ele no podia falar durante muito tempo, esperavam-no no tribunal, mas antes que desligasse ela deu-lhe 
o nmero de telefone do local onde estava e prometeu ligar no dia seguinte. ptimo, pensou ela enquanto pousava o auscultador. A conversa do costume, nada fora do 
normal. Nada que o deixasse desconfiado.

J o conhecia fazia agora quase quatro anos. Haviam-se encontrado em 1942, quando o mundo ainda estava em Guerra e a Amrica h um ano metida nela. Todos participavam 
de alguma maneira, e ela trabalhava como voluntria no hospital da cidade. Ali era necessria e apreciada, mas fora mais difcil do que esperara. Chegavam as primeiras 
vagas de jovens soldados feridos de regresso a casa, e passava os dias com homens deprimidos e corpos esfrangalhados. Quando Lon, com todo o seu encanto fcil, se 
apresentou numa festa de Natal, viu nele exactamente aquilo que lhe fazia falta: algum com confiana no futuro e um sentido de humor que afastava todos os seus 
receios.
Era belo, inteligente e ambicioso. Um advogado de sucesso oito anos mais velho do que ela. Levava a cabo o seu trabalho com paixo, no apenas para ganhar causas, 
mas tambm para fazer um nome para si. Ela compreendia aquela vigorosa perseguio do xito, pois o pai e a maioria dos homens que encontrara no seu crculo social 
eram assim. Como eles, ele fora educado daquela maneira. Depois, no sistema de castas do Sul, o nome da famlia e as realizaes pessoais eram quase sempre as coisas 
mais importantes a ter em considerao num casamento. Nalguns casos, as nicas.
Embora desde a infncia se tivesse revoltado silenciosamente contra esta ideia, e tivesse sado com alguns homens melhor descritos como estouvados, sentiu-se facilmente 
atrada pelo -vontade de Lon e, a pouco e pouco, tinha dado por si a am-lo. Apesar das longas horas que dedicava ao trabalho, era bom para ela. Era um cavalheiro, 
igualmente amadurecido como responsvel, e durante aqueles perodos terrveis da Guerra quando precisava de algum para a abraar, estava sempre disponvel quando 
era necessrio. Sentia-se segura com ele, sabia que ele tambm a amava, e foi Por isso que aceitou o pedido de casamento.
Pensar nestas coisas fazia-a sentir-se culpada por estar ali. Sabia que devia era fazer as malas e partir antes que mudasse de ideias. J lhe acontecera uma vez 
antes, h muito tempo. Se partisse agora, tinha a certeza de que nunca mais teria foras para regressar aqui de novo. Pegou no livro de apontamentos, hesitou, e 
quase foi at  porta. Mas a coincidncia tinha-a empurrado at aqui. Pousou o livro de apontamentos, de novo tomando conscincia de que, se desistisse agora, ficaria 
para sempre a pensar no que poderia ter acontecido. E achava que no podia viver com isso.
Foi at  casa de banho e ps a gua a correr. Depois de verificar a temperatura, virou-se a caminho da cmoda, a tirar os brincos de ouro enquanto atravessava o 
quarto. Procurou a bolsa da maquilhagem, abriu-a, e tirou uma gilete e um sabonete, depois despiu-se diante da escrivaninha.
Desde que era menina que todos a achavam muito bela, e assim que ficou nua, olhou-se no espelho. Tinha o corpo firme e bem proporcionado, os seios docemente arredondados, 
o estmago musculado, as pernas elegantes. Herdara os malares altos da me, como a pele macia, e o cabelo loiro, mas a melhor caracterstica era mesmo sua. Os "olhos 
como as ondas do mar", como Lon gostava de dizer.

Pegando na gilete e no sabonete, foi de novo para a casa de banho. Fechou a torneira, ps uma toalha ao alcance da mo, e entrou cautelosamente. Gostava do modo 
como o banho a descontraa, e deixou-se escorregar mais adentro da gua. O dia fora longo e as costas estavam tensas, mas sentia-se satisfeita por ter acabado as 
compras to depressa. Era preciso regressar a Raleigh com algo de tangvel, e as coisas que escolhera serviriam na perfeio. Mentalmente, tomara nota para no se 
esquecer de procurar os nomes de mais algumas lojas na rea de Beaufort, e depois, subitamente, calculou que no seria preciso. Lon no era do tipo de ir verificar 
o que ela dissesse.
Pegou no sabonete, ensaboou-se e comeou a rapar as pernas. Enquanto o fazia, pensou nos pais e no que poderiam pensar do seu comportamento. No havia dvidas de 
que a iriam reprovar, em particular a me. A me nunca tinha conseguido realmente aceitar o que acontecera no Vero que aqui haviam passado, e no o iria aceitar 
agora, qualquer que fosse a razo que lhe apresentasse.
Deixou-se ficar um pouco mais de molho na banheira antes de se levantar e enxugar com a toalha. Foi at ao roupeiro e procurou um vestido, por fim escolhendo um 
amarelo longo, com um ligeiro decote  frente, o tipo de vestido vulgar no Sul. Enfiou-o e olhou-se no espelho, virando-se de um lado e outro. Caa-lhe bem e dava-lhe 
um ar muito feminino, mas acabou por se decidir tir-lo e p-lo de novo no roupeiro.
Em vez daquele escolheu outro mais prtico, menos revelador, e enfiou-o. Azul-claro com um toque de renda, abotoava na frente at acima, e embora no lhe ficasse 
to bem como o outro, dava uma imagem que ela achou ser mais apropriada.
Pintou-se muito pouco, s um toque de sombra nas plpebras e rimmel para acentuar os olhos. Depois perfume, no muito. Encontrou um par de brincos pequenos, umas 
argolas, e p-los. Depois enfiou as sandlias acastanhadas que usara antes. Escovou o cabelo louro, amarrou-o em cima, e olhou-se no espelho. No. Era demais, pensou, 
e soltou o cabelo. Fica melhor.
Quando acabou deu um passo atrs e ficou a avaliar-se. Tinha bom aspecto: nem demasiado elegante, nem demasiado prtica. No queria exagerar. Apesar de tudo, no 
sabia o que a esperava. Passara muito tempo - provavelmente demasiado tempo - e muitas coisas diferentes podiam ter acontecido, at mesmo coisas que ela no queria 
ter em considerao,
Olhou para baixo, viu que as mos lhe tremiam e riu-se para si. Era estranho. Normalmente no ficava assim nervosa. Como Lon, tinha tido sempre confiana em si, 
mesmo quando criana. Recordava-se que s vezes isso at havia sido um problema, especialmente quando saa com algum, porque intimidava a maioria dos rapazes da 
sua idade.
Agarrou no livro de apontamentos e nas chaves do carro, depois pegou na do quarto. Deu-lhe a volta na mo um par de vezes, a pensar, "Chegaste at aqui, no desistas 
agora" e quase saiu nesse momento, mas em vez disso sentou-se na cama outra vez. Olhou para o relgio. Quase seis da tarde. Sabia que tinha que sair dentro de alguns 
minutos - no queria chegar depois de anoitecer, mas precisava de um pouco mais de tempo.

"Raios", murmurou "o que  que estou aqui a fazer? No devia estar aqui. No h motivo para isso", mas assim que o disse, sabia que no era verdade. Havia alguma 
coisa aqui. Se nada mais, pelo menos ela encontraria uma resposta.
Abriu o livro de apontamentos e folheou-o at que encontrou um bocado de jornal dobrado. Depois de o retirar lentamente, quase com reverncia, cuidadosa para no 
o rasgar, desdobrou-o, e ficou a olh-lo por um momento. " este o motivo," disse por fim para si prpria, " disto que se trata."

Noah levantou-se s cinco da manh e foi andar de caiaque durante uma hora pelo regato de Brices acima, como costumava fazer. Quando acabou, mudou-se para as roupas 
de trabalho, aqueceu alguns pezinhos do dia anterior, agarrou num par de maas, e empurrou o pequeno-almoo para baixo com duas chvenas de caf.
Foi outra vez trabalhar na vedao, reparando a maioria dos postes que precisavam. Era no Vero de S. Martinho, com a temperatura acima dos trinta e sete graus e 
pela hora do almoo estava com calor, cansado e sentiu-se feliz por fazer um intervalo.
Comeu junto ao regato porque os ruivos estavam a saltar. Gostava de os ver a saltar trs ou quatro vezes e deslizar no ar antes de desaparecerem na gua salobra. 
Por um motivo qualquer, agradara-lhe sempre o facto de o instinto deles no ter mudado em milhares, talvez milhes de anos.
s vezes interrogava-se se tambm os instintos do homem haveriam mudado durante todo esse tempo, e conclua sempre que no. Pelo menos nas questes bsicas, mais 
primitivas. At quanto se podia dizer, o homem sempre fora agressivo, lutara sempre para dominar, a tentar controlar o mundo e tudo o que nele havia. A Guerra na 
Europa e no Japo eram prova disso.
Parou de trabalhar um pouco depois das trs e foi at um pequeno barraco que ficava junto  sua doca. Entrou, tirou uma cana de pesca, um par de iscas, e alguns 
grilos vivos que guardava  mo, depois saiu para o ponto, iscou o anzol, e lanou a linha.
Pescar fazia-o sempre reflectir na sua vida, e f-lo tambm agora. Depois de a me morrer, lembrava-se de ter passado os dias numa dzia de casas diferentes e, por 
um motivo qualquer, de gaguejar muito quando era mido e ser gozado por isso. Comeou a calar-se cada vez mais, e chegado aos cinco anos j no falava de todo. Quando 
comeou a ir  escola, os professores pensavam que era atrasado e aconselharam a que desistisse.
Em vez disso, o pai tomou o assunto nas suas prprias mos. Manteve-o na escola, e depois fazia-o vir para o depsito de madeiras onde trabalhava, para arrastar 
e empilhar os toros. " bom que passemos algum tempo juntos", dizia, enquanto trabalhavam lado a lado, "tal como o meu pai e eu fazamos."

Durante este tempo que passavam juntos, o pai falava-lhe de pssaros e de animais, ou contava-lhe histrias e lendas vulgares na Carolina do Norte. Em poucos meses 
Noah estava a falar de novo, embora no muito bem, e o pai decidiu ensinar-lhe a ler em livros de poesia. "Aprende a ler isto em voz alta, e sers capaz de dizer 
tudo o que quiseres." Mais uma vez o pai tivera razo e, no ano seguinte, Noah havia perdido a gaguez. Mas continuava a ir para o depsito de madeiras todos os dias 
apenas porque o pai estava ali, e pelo fim das tardes lia as obras de Whitman e Tennyson em voz alta enquanto o pai se balanava a seu lado. Desde ento nunca mais 
deixara de ler poesia.
Quando ficou um pouco mais velho, passava a maior parte dos fins-de-semana e frias sozinho. Explorava a floresta de Croatan na sua primeira canoa, seguindo pelo 
regato de Brices acima umas vinte milhas at no poder avanar mais, depois caminhava a p os quilmetros que faltavam at  costa. Acampar e explorar haviam-se 
tornado a sua paixo, e passava horas na floresta, sentado debaixo dos carvalhos negros, a assobiar baixinho e a tocar a sua viola para os castores e gansos e as 
garas reais azuis selvagens. Os poetas sabiam que o isolamento na natureza, longe das pessoas e das coisas feitas pelos homens, era bom para a alma, e ele sempre 
se identificara com os poetas.
Embora fosse uma pessoa quieta, anos a levantar os pesos no depsito de madeiras ajudaram-no a tornar-se bom nos desportos, e os seus sucessos atlticos conduziram-no 
 popularidade. Gostava dos jogos de futebol, das corridas, e embora a maioria dos seus colegas de equipa tambm passassem os tempos livres juntos, raramente se 
juntava a eles. Uma pessoa por outra achava-o arrogante, a maioria achava simplesmente que crescera um pouco mais depressa que os outros todos. Tinha algumas amigas 
na escola, mas nenhuma o conseguira impressionar. Excepto uma. E essa foi depois do liceu.
Allie, a sua Allie.         
Lembrava-se de ter conversado com Fin acerca de Allie aps terem abandonado o festival naquela primeira noite, e de Fin se rir. Depois fez duas predies: primeiro, 
que ele ia ficar apaixonado, e segundo, que no ia correr bem.
Noah sentiu um pequeno estico na linha, e esperou que fosse uma perca de boca grande, mas os puxes acabaram por parar, e depois de rebobinar e verificar a isca, 
lanou outra vez.
Fin acabou por estar certo nas duas coisas. Na maior parte do Vero, ela vira-se forada a dar uma desculpa aos pais de cada vez que se queria encontrar com ele. 
No que no gostassem dele - s que vinha de uma classe social diferente, era demasiado pobre, e nunca aprovariam que a filha estabelecesse uma relao sria com 
algum como ele. "No me interessa o que os meus pais pensam, eu amo-te e sempre te amarei", costumava ela dizer. "Descobriremos uma maneira de ficarmos juntos."
Mas no fim no puderam. No princpio de Setembro o tabaco j havia sido ceifado e ela no tivera outra alternativa seno regressar com a famlia a Winston-Salem. 
"S o Vero  que acabou, Allie, ns no" dissera-lhe na manh em que ela partiu. "Ns nunca acabaremos." Mas acabaram. Por um motivo que ele nunca chegou bem a 
entender, as cartas que lhe escreveu no foram respondidas.
Por fim, decidiu partir de Nova Berna para ver se a conseguia arrancar do pensamento, mas tambm porque a depresso tornava quase impossvel ganhar a vida ali. Primeiro 
foi para Norfolk e trabalhou num estaleiro durante uns seis meses antes de ser despedido, depois mudou-se para Nova Jersey porque tinha ouvido que ali a situao 
econmica no estava to m.

Acabou por encontrar trabalho num depsito de sucata, a separar fragmentos de metal do resto. O proprietrio, um judeu chamado Morris Goldman, tinha por objectivo 
recolher a maior quantidade de sucata possvel, convencido de que iria comear uma Guerra na Europa para a qual a Amrica seria de novo arrastada. Noah, porm, no 
se preocupava com os motivos. Sentia-se apenas feliz por ter um trabalho.
Os anos que passara no depsito de madeiras haviam-no endurecido para este tipo de tarefa, e trabalhava duramente. Isso no apenas o ajudava a manter Allie fora 
do pensamento durante o dia, mas tambm porque era uma coisa que achava que tinha que fazer.
O pai sempre lhe dissera: "D um dia de trabalho por um dia de ordenado. Menos que isso  roubar." A atitude agradava ao patro. " uma pena que no sejas judeu," 
costumava dizer Goldman, "s um ptimo rapaz em todos os outros aspectos." Era o maior elogio que sabia fazer.
Ele continuava a pensar em Allie, especialmente de noite. Escrevia-lhe uma vez por ms, mas nunca recebia resposta. Por fim escreveu-lhe uma ltima carta, e obrigou-se 
a aceitar o facto de que o Vero que haviam passado juntos seria a nica coisa que alguma vez poderiam partilhar.
Porm, apesar disso, ela continuava com ele. Trs anos depois da ltima carta, foi at Winston-Salem na esperana de a encontrar. Foi at  casa dela, descobriu 
que se tinha mudado, e depois de ter falado com alguns dos vizinhos, acabou a telefonar para a firma R. J. R. A rapariga que atendeu o telefone era nova e no reconheceu 
o nome, mas foi procurar nos ficheiros de pessoal. Descobriu que o pai de Allie tinha abandonado a empresa e no tinha deixado endereo algum. Essa viagem foi a 
primeira e ltima vez que procurou por ela.
Durante os oito anos seguintes continuou a trabalhar para Goldman. A principio era um dos doze empregados, mas  medida que os anos passavam, a empresa cresceu e 
foi promovido. Por volta de 1940 j dominava o negcio e geria todos os movimentos, fazendo a corretagem das transaces e gerindo uma equipe de trinta pessoas. 
O depsito tinha-se tornado o maior negcio de sucata na costa leste.
Durante esse tempo, saiu com uma srie de mulheres diferentes. Teve um caso mais srio com uma delas, uma empregada de mesa da cantina local de olhos azuis e cabelo 
negro sedoso. E embora sassem juntos durante dois anos, e tivessem passado bons momentos juntos, nunca chegou a sentir em relao a ela o que sentira por Allie.
Mas tambm no se esqueceria dela. Era poucos anos mais velha do que ele, e foi ela quem lhe ensinou os modos de dar prazer a uma mulher, os locais a beijar e tocar, 
onde demorar-se, as coisas a murmurar. Por vezes passavam um dia inteiro na cama, abraando-se e fazendo o tipo de amor que satisfazia a ambos.
Ela sabia que no ficariam juntos para sempre. Perto do fim da relao disse-lhe uma vez: "Gostaria de te poder dar aquilo que procuras, mas no sei o que . H 
uma parte de ti que mantns fechada para todos, at para mim.  como se no estivesses realmente comigo. Tens na cabea algum diferente de mim."

Tentou negar, mas ela no acreditou. "Sou uma mulher - sei destas coisas. s vezes, quando olhas para mim, sei que ests a ver outra.  como se estivesses  espera 
de que ela surgisse do nada para te levar para longe de tudo isto..." Um ms mais tarde foi visit-lo ao emprego e disse-lhe que tinha encontrado outra pessoa. Ele 
compreendeu. Separaram-se como amigos, e no ano seguinte recebeu um postal dela a dizer que tinha casado. Desde ento nunca mais ouvira falar dela.
Enquanto estava em Nova Jersey, visitava o pai uma vez por ano, perto do Natal. Passavam algum tempo a pescar, a conversar, e uma vez por outra faziam uma viagem 
at  costa para acampar nos bancos de areia mais remotos, perto de Ocracoke.
Em Dezembro de 1941, quando tinha vinte e seis anos, comeou a Guerra, tal como Goldman havia predito. Noah entrou-lhe no escritrio no ms seguinte e informou-o 
da sua inteno de se alistar. Depois regressou a Nova Berna para se despedir do pai. Cinco semanas mais tarde descobriu-se na caserna. Uma vez a, recebeu uma carta 
de Golgman agradecendo-lhe pelo trabalho, junto com uma cpia de um certificado dando-lhe direito a uma percentagem do depsito de sucata se alguma vez fosse vendido. 
"Nunca o teria conseguido sem ti," dizia a carta. "s o melhor jovem que alguma vez trabalhou para mim, mesmo sem seres judeu."
Passou os trs anos seguintes com o Terceiro Exrcito de Patton, marchando atravs dos desertos do Norte de frica e das florestas da Europa com quinze quilos s 
costas, a sua unidade de infantaria nunca muito longe da aco. Observava os amigos a morrer  sua volta; via como alguns deles ficavam enterrados a milhares de 
quilmetros de casa. Uma vez, ao esconder-se numa toca de raposa junto ao Reno, imaginou que via Allie a tomar conta dele.
Recordava-se de a Guerra acabar na Europa e depois, alguns meses mais tarde, no Japo. Imediatamente antes de passar  disponibilidade, recebeu uma carta de um advogado 
em Nova Jersey, representando Morris Goldman. No encontro que teve com o advogado, descobriu que Goldman havia morrido um ano antes e que as suas propriedades tinham 
sido liquidadas. O negcio fora vendido, e a Noah era dado um cheque de quase setenta mil dlares. Estranhamente, por um motivo qualquer, no ficou nada entusiasmado 
com o assunto.
Na semana seguinte regressou a Nova Berna e comprou a casa. Recordava-se de mais tarde ter trazido o pai para a ver, de lhe mostrar o que ia reconstruir, apontando 
as mudanas que tencionava fazer. O pai parecia-lhe fraco enquanto via a casa, a tossir e espirrar. Noah ficou inquieto, mas o pai disse-lhe que no se preocupasse, 
assegurando-lhe que era apenas uma gripe.
Menos de um ms mais tarde o pai morreu de pneumonia e foi enterrado junto  mulher no cemitrio local. Noah tentou passar por l regularmente para deixar flores. 
Uma vez por outra deixava uma nota. E todas as noites sem falta guardava um momento para o recordar, depois dizia uma orao pelo homem que lhe tinha ensinado tudo 
o que era importante.

Depois de enrolar a linha, arrumou as ferramentas e regressou  casa. A sua vizinha, Martha Shaw, esperava-o ali para lhe agradecer, trazendo-lhe trs pes caseiros 
e alguns biscoitos em paga do que ele fizera. O marido morrera-lhe na Guerra, deixando-a com trs crianas e um estafado tugrio como casa para os criar. O Inverno 
estava  porta e, na semana anterior, ele gastara uns dias na casa dela a reparar-lhe o telhado, a substituir as janelas quebradas e a vedar as outras, a arranjar-lhe 
o fogo a lenha. Com sorte, seria o suficiente para que sobrevivessem.
Assim que ela partiu, meteu-se no seu velho camio Dodge e resolveu visitar Gus. Parava sempre ali quando ia  loja porque a famlia de Gus no tinha carro. Uma 
das filhas saltou para a cabina e foi com ele. Fizeram as compras no supermercado de Capers. Quando regressou a casa no desempacotou logo as mercearias. Em vez 
disso, tomou um duche, pegou numa cerveja Budweiser e num livro de Dylan Thomas, e foi-se sentar no alpendre.

A ela ainda lhe custava a acreditar, mesmo com a prova nas mos. Havia-o, descoberto no Jornal, em casa dos pais h trs domingos atrs. Tinha ido  cozinha buscar 
uma chvena de caf, e quando regressou  mesa, o pai sorrira e mostrara-lhe uma pequena foto. "Lembras-te disto?"
Passou-lhe o jornal, e depois de um primeiro olhar desinteressado, algo na foto lhe chamou a ateno, e focou mais de perto. "No pode ser" murmurou, e quando o 
pai a observava com curiosidade, ignorou-o, sentou-se, e leu o artigo sem falar. Lembrava-se vagamente de a me se ter vindo sentar  mesa no lado oposto e de, quando 
por fim ps o jornal de lado, a me a fixar com a mesma expresso que o pai mostrara momentos antes.
"Sentes-te bem?" perguntou a me por cima da chvena de caf. "Pareces um pouco plida." No respondeu logo de seguida. No podia. E foi ento que percebeu que tinha 
as mos a tremer. Fora nessa altura que isto comeara.
"E aqui ir acabar, de uma maneira ou de outra" murmurou outra vez. Voltou a dobrar o recorte do jornal e guardou-o, recordando-se de que, mais tarde nesse dia, 
tinha deixado a casa dos pais com o jornal a fim de recortar o artigo e o voltar a ler. Leu-o outra vez antes de ir para a cama nessa noite, tentando aprofundar 
a coincidncia, e leu-o outra vez na manh seguinte como que para ter a certeza de que aquilo tudo no fora um sonho. E agora, depois de trs semanas de longos passeios 
a ss, depois de trs semanas de distraco, era este o motivo pelo qual tinha vindo.
Quando lhe faziam perguntas, dizia que o seu comportamento instvel se devia  tenso. Era a desculpa perfeita - toda a gente compreendia, incluindo Lon, e fora 
por isso que ele no protestara quando ela quisera desaparecer por um par de dias. Os preparativos para o casamento eram desgastantes para todos neles envolvidos. 
Haviam sido convidadas quase quinhentas pessoas, incluindo o governador, um senador, e o embaixador do Peru. Era gente a mais, na opinio dela, mas o noivado deles 
era notcia e dominara as pginas sociais desde que tinham anunciado os seus planos seis meses antes. Ocasionalmente, a ela apetecia-lhe fugir com Lon e casar-se 
sem aquela confuso. Mas sabia que ele no iria concordar - como bom aspirante a poltico que era, adorava ser o centro das atenes.
Inspirou fundo e levantou-se outra vez. " agora ou nunca," murmurou, depois pegou nas suas coisas e foi at  porta. Fez apenas uma ligeira pausa antes de a abrir 
e descer as escadas.

O gerente sorriu enquanto ela passava, e pde sentir-lhe os olhos dele a seguirem-na enquanto saa e ia at ao carro. Deslizou para trs do volante, olhou para si 
prpria uma ltima vez, depois ps o motor a trabalhar e virou  direita em direco a Front Street.
No se surpreendeu de ainda se saber movimentar to bem na cidade. Apesar de no vir aqui h anos, no era muito grande e orientou-se facilmente pelas ruas. Depois 
de atravessar o rio Trent passando uma antiquada ponte mvel, virou para uma estrada de cascalho e iniciou a ltima parte da sua jornada.
Aqui a plancie era muito bela, como sempre fora. Ao contrrio da rea de Piedmont onde ela tinha crescido, a terra era plana, mas tinha o mesmo solo frtil e sedimentoso, 
ideal para o algodo e para o tabaco. Estas duas culturas, alm da madeira, mantinham as cidades vivas nesta parte do Estado, e enquanto conduzia ao longo da estrada 
j fora da cidade, viu a beleza que em primeiro lugar tinha atrado as pessoas a esta regio.
Para ela, nada tinha mudado. Raios de sol espordicos passavam atravs dos salgueiros e nogueiras amargas de dez metros de altura, iluminando as cores do Outono. 
 esquerda, um rio cor de ferro desviava-se direito  estrada e depois afastava-se antes de dar a sua vida a um outro rio diferente, uns dois quilmetros mais adiante. 
A prpria estrada de cascalho desenrolava o seu caminho entre quintas antebellum, e ela sabia que, para alguns dos agricultores, a vida no mudara desde antes do 
tempo em que os seus avs tinham nascido. A constncia do lugar trouxe-lhe de volta uma inundao de recordaes, e sentiu o corao a apertar-se-lhe  medida que, 
um a um, reconhecia os pontos de referncia que h muito tempo esquecera.
O sol pendurava-se directo sobre as rvores  esquerda e, ao fazer uma curva, passou uma velha igreja abandonada h anos, mas ainda de p. Tinha-a explorado naquele 
Vero,  procura de recordaes do tempo da Guerra entre os Estados, e quando o carro a passou, as memrias desse dia tornaram-se mais fortes, como se tudo tivesse 
acontecido apenas na vspera.
Um carvalho majestoso nas margens do rio mostrou-se  vista a seguir, e as memrias tornaram-se mais intensas. Parecia exactamente igual ao que fora antes, os ramos 
baixos e grossos a estenderem-se horizontalmente ao longo do cho, com musgo e esparto drapejado sobre os membros como um vu. Lembrava-se de se ter sentado debaixo 
da rvore num quente dia de Julho com algum que a olhava com uma nostalgia que fazia esquecer tudo o resto. E havia sido naquele momento que se tinha apaixonado 
pela primeira vez.
Ele era dois anos mais velho do que ela, e enquanto conduzia por esta estrada do tempo, tambm ele lentamente se foi focando de novo. Parecia sempre mais velho do 
que era de facto, lembrava-se de ter pensado isso. A aparncia dele era a de algum ligeiramente desgastado, quase como um agricultor a chegar a casa depois de horas 
a trabalhar no campo. Tinha as mos calosas e os ombros largos que se desenvolvem naqueles que trabalham duramente para viver, e as primeiras rugas suaves comeavam 
a formar-se-lhe junto aos olhos escuros que pareciam ler-lhe o mais pequeno pensamento.

Era alto e forte, com cabelo castanho claro, e belo  sua maneira, mas era da voz dele do que ela melhor se recordava. Tinha lido para ela naquele dia; lido para 
ela enquanto estavam deitados na relva debaixo da rvore, com uma entoao doce e fluente, quase musical. Era o tipo de voz que pertencia  rdio, e parecia ficar 
no ar quando lia para ela. Lembrava-se de fechar os olhos, ouvir atentamente, e deixar as palavras que ele ia lendo tocarem-lhe a alma:

Alicia-me para a nvoa e para o crepsculo.         
Parto como o ar, agito as madeixas brancas ao sol fugitivo...

Folheava velhos livros, as pginas com os cantos dobrados, livros que ele lera centenas de vezes. Ficava a ler durante um certo tempo, depois parava e os dois conversavam. 
Ela contava-lhe o que queria fazer na vida - as suas esperanas e sonhos para o futuro - e ele ouvia atentamente e depois prometia-lhe que faria tudo tornar-se realidade. 
A maneira como o dizia fazia-a acreditar nele, e ento sabia quanto ele significava para si. Ocasionalmente, quando lhe pedia, ele falava de si, ou explicava-lhe 
porque  que tinha escolhido um poema em particular e o que pensava dele. Outras vezes limitava-se apenas a olh-la daquele seu modo intenso.
Ficavam a ver o Sol a pr-se e comiam juntos debaixo das estrelas. J se estava a fazer tarde na altura, e ela sabia que os pais iriam ficar furiosos se soubessem 
onde estava. Nesse momento, porm, isso no lhe importava. Tudo o que podia fazer era pensar como aquele dia tinha sido especial, como ele era especial, e quando 
iniciaram o caminho de regresso a casa minutos mais tarde, e ele lhe pegou a mo na sua, ela sentiu o modo como a aquecia por todo o caminho de volta.
Uma outra curva da estrada e por fim viu-a  distncia. A casa tinha mudado drasticamente em relao ao que ela se recordava. Abrandou o carro ao aproximar-se, virando 
para o longo caminho de terra delimitado pelas rvores que conduzia ao farol que a convocava desde Raleigh.
Guiou devagarinho, olhando para a casa, e inspirou fundo quando o viu no alpendre, a observar-lhe o carro. Estava vestido informalmente.  distncia, parecia igual 
ao que fora antes. Durante um momento, quando a luz do Sol ficou por detrs dele, quase pareceu que tinha sido absorvido pelo cenrio.
O carro dela avanou em frente, rolando devagar, depois por fim parou junto a um carvalho que dava sombra  frente da casa. Deu a volta  chave nunca desviando os 
olhos dele, e o motor espirrou at parar.
Ele desceu do alpendre e comeou a aproximar-se, andando com facilidade, depois parou gelado quando a viu sair do carro. Durante um longo tempo tudo o que conseguiam 
fazer era olharem-se fixamente especados.
Allison Nelson, vinte e nove anos de idade e noiva, uma pessoa da alta sociedade,  procura de respostas que precisava de conhecer, e Noah Calhoun, o sonhador, trinta 
e um anos, visitado pelo fantasma que acabara por dominar a sua vida.

REUNIO

Nenhum deles se moveu enquanto se enfrentavam.         
Ele no havia dito nada, os msculos pareciam hirtos, e durante um segundo ela achou que no a tinha reconhecido. Subitamente sentiu-se culpada por aparecer assim 
desta maneira, sem aviso, o que tornava tudo mais difcil. De algum modo achara que ia ser fcil, que saberia o que dizer. Mas no sabia. Tudo o que lhe vinha  
cabea parecia pouco apropriado, insuficiente.
Vieram-lhe  memria pensamentos do Vero que tinham partilhado, e, enquanto o fixava, reparou quo pouco tinha mudado desde que o vira da ltima vez. Estava com 
bom aspecto, pensou. Com a camisa displicentemente enfiada numas calas de ganga desbotadas, podia ver os mesmos ombros largos de que se recordava, adelgaando-se 
para as ancas estreitas e um estmago liso. Tambm estava bronzeado, como se tivesse trabalhado ao sol todo o Vero, e embora o cabelo estivesse um pouco mais fino 
e mais claro do que ela se lembrava, parecia igual ao que fora da primeira vez que o vira.
Quando finalmente se sentiu pronta, inspirou fundo e sorriu.
- Ol Noah.  bom ver-te de novo.
O comentrio dela surpreendeu-o, e lanou-lhe um olhar divertido. Ento, depois de abanar ligeiramente a cabea, comeou lentamente a sorrir.
- A ti tambm... - gaguejou. Levou a mo ao queixo, e ela reparou que no tinha feito a barba. - s mesmo tu, no s? Nem consigo acreditar...
Ouviu o choque na voz dele enquanto falava e, surpreendendo-a, veio-lhe tudo duma vez - estar aqui, a v-lo. Sentiu qualquer coisa a mexer-se dentro de si, algo 
de profundo e antigo, algo que a deixou tonta s por um momento.
Recomps-se e lutou para se controlar. No esperava que isto acontecesse, no queria que acontecesse. Agora estava noiva. No tinha vindo aqui para isto... No entanto...
No entanto...         
No entanto a emoo continuava apesar dos seus esforos, e por um breve momento sentiu-se de novo com quinze anos. Sentiu-se como no se sentia h muito tempo, como 
se todos os seus sonhos se pudessem ainda tornar realidade.
Sentiu-se como se finalmente tivesse chegado a casa.         
Sem outra palavra, aproximaram-se, como se fosse a coisa mais natural do mundo, e ele passou os braos  volta dela, puxando-a para si. Abraaram-se com fora, tornando 
aquilo real, ambos a deixar que os catorze anos de separao se dissolvessem no crepsculo que escurecia.
Ficaram assim durante um longo tempo antes que ela finalmente o empurrasse para o poder olhar. Assim de perto, podia ver as mudanas em que primeiro no tinha reparado. 
Agora era um homem, e a cara perdera a doura da juventude. As rugas suaves  volta dos olhos tinham-se aprofundado, e havia uma cicatriz no queixo que antes no 
estava ali. Havia nele uma nova dureza - parecia menos inocente, mais cauteloso - e no entanto, a maneira como a abraava, f-la tomar conscincia de quantas saudades 
dele tivera desde a ltima vez que o vira.

Ela ficou com os olhos rasos de gua quando finalmente se separaram. Riu nervosamente para dentro enquanto enxugava as lgrimas pelo canto do olho.
- Ests bem? - perguntou ele, com um milhar de outras Perguntas na cara.
- Desculpa, no queria chorar...         
- No faz mal - disse ele a sorrir -, ainda no consigo acreditar que sejas tu. Como  que me encontraste?
Ela deu um passo atrs, tentando recompor-se, limpando o resto das lgrimas.
- Vi a histria sobre a casa no jornal de Raleigh h umas duas semanas, e tinha que vir ver-te outra vez.
Noah abriu um sorriso largo.
- Estou contente que tenhas vindo. - Recuou apenas um pouco. - Meu Deus, ests fantstica. Ainda ests mais bonita agora do que antes.
Ela sentiu o sangue subir-lhe  cara. Exactamente como h catorze anos.
- Obrigada. Tu tambm ests com ptimo aspecto. - E estava, sem dvidas. Os anos tinham sido generosos para com ele.
- Ento que tens feito? O que te trouxe aqui?         
As perguntas trouxeram-na para o presente, fazendo-a tomar conscincia do que poderia acontecer se no fosse cuidadosa. No deixes que isto fique sem controle, disse 
a si prpria. Quanto mais tempo durar, mais difcil vai ser. E no queria que ficasse ainda mais difcil.
Mas, meu Deus, aqueles olhos, aqueles olhos castanhos to doces.
Desviou-se e inspirou fundo, calculando como o poderia dizer e, por fim, quando comeou, tinha a voz calma.
- Noah, antes que fiques com ideias erradas, eu queria ver-te outra vez, mas h mais do que isso. - Fez uma pausa de um segundo. - Vim aqui por um motivo. Tenho 
que te dizer uma coisa.
- Que coisa?        
Desviou o olhar e no respondeu por uns instantes, surpreendida por no conseguir dizer-lhe ainda. Em silncio, Noah sentiu uma emoo a afundar-se-lhe no estmago. 
O que quer que fosse, era mau.
- No sei como o dizer. No princpio pensava que sabia, mas agora no tenho bem a certeza...
A atmosfera foi subitamente matraqueada pelo grito agudo de um guaxinim, e Clem saiu de debaixo do alpendre, a ladrar bruscamente. Ambos se viraram com o atropelo 
e Allie agradeceu a distraco.
-  teu? - perguntou.         
Noah acenou afirmativamente, sentindo o aperto no estmago.
- Na verdade,  uma ela. Chama-se Clementina. E  toda minha.         
Ficaram os dois a olhar enquanto Clem agitava a cabea, se espreguiava, e depois saiu a cambalear em direco aos rudos. Os olhos de Allie espantaram-se apenas 
um pouco ao v-la a coxear.
- O que  que lhe aconteceu  perna? - perguntou, tentando ganhar tempo.

- Um carro bateu-lhe aqui h uns meses. O doutor Harrison, o veterinrio, chamou-me para ver se eu tomava conta dela porque o dono j no a queria. Depois de ter 
visto o que aconteceu, acho que no fui capaz de deixar que a abatesse.
- Sempre foste assim muito bom - disse ela, tentando descontrair-se. Fez uma pausa, e olhou para l dele para a casa. - Fizeste um trabalho magnfico a restaur-la. 
Est perfeita, exactamente como sempre soube que viria a ficar.
Ele virou a cabea na mesma direco da dela enquanto se questionava sobre a conversa fiada e o que estaria a reter.
- Obrigado.  muito simptico. Foi um projecto e tanto. No sei se seria capaz de o fazer outra vez.
- Claro que serias - disse. Sabia exactamente o que ele sentia em relao quela casa. Mas alm disso, sabia o que ele sentia em relao a tudo - ou pelo menos, 
soubera h muito tempo.
E com este pensamento, apercebeu-se de quanto tinha mudado desde ento. Agora eram estranhos. Podia diz-lo apenas por olhar para ele. Podia dizer que catorze anos 
de separao era muito tempo. Tempo demais.
- Que se passa, Allie? - Virou-se para ela, obrigando-a a encar-lo, mas ela continuava a fixar a casa.
- Estou a ser um bocado tonta, no estou? - perguntou, tentando sorrir.
- O que  que isso quer dizer?
- Isto tudo. Aparecer assim vinda do nada, no saber o que quero dizer. Deves pensar que sou maluca.
- No s maluca - disse ele docemente. Tentou alcanar-lhe a mo, e ela deixou que lhe pegasse enquanto estavam assim um junto ao outro. Ele continuou:
- Mesmo sem saber porqu, vejo que est a ser difcil para ti. Vamos dar um passeio?
- Como costumvamos dantes?
- Por que no? Acho que nos faria bem aos dois.         
Ela hesitou e olhou para a porta da frente.
- No tens que avisar ningum?         
Ele abanou a cabea.
- No. No h ningum para ser avisado. S eu e Clem.
Mesmo apesar de ter perguntado, ela suspeitara que no haveria ningum e l por dentro no sabia como se sentir relativamente ao assunto. Mas tornou o que ela tinha 
para dizer um pouco mais difcil. Teria sido mais fcil se existisse outra pessoa.
Comearam a andar em direco ao rio e entraram por um carreiro junto  margem. Ela soltou a mo dele, surpreendendo-o, econtinuou a andar deixando uma distncia 
mnima entre ambos de modo a que no se pudessem tocar.
Ele olhou para ela. Ainda era muito bonita, com o cabelo espesso e os olhos doces, e andava com tanta elegncia que parecia que deslizava. Todavia, j tinha visto 
mulheres bonitas antes, mulheres que lhe captavam o olhar, mas na sua mente por norma faltavam-lhe os traos que achava mais atraentes. Traos como inteligncia, 
fora de esprito, paixo, traos que inspiravam grandeza aos outros, traos que aspirava para si prprio.
Allie tinha esses traos, ele sabia, e agora enquanto andavam, mais uma vez se apercebeu deles latentes sob a superfcie. "Um poema vivo" tinham sido sempre as palavras 
que lhe vinham  mente quando tentava descrev-la aos outros.
- H quanto tempo regressaste aqui? - perguntou quando o carreiro deu lugar a uma pequena elevao coberta de erva.

- Estou c desde Dezembro passado. Andei a trabalhar no Norte durante algum tempo, depois passei os ltimos trs anos na Europa.
Virou-se para ele com olhos interrogadores.
- A Guerra?         
Ele assentiu com a cabea e ela continuou.
- Pensei que pudesses ter andado por l. Fico contente por saber que regressaste a salvo.
- Eu tambm - disse ele.
- Ests contente por ter voltado para casa?        
- Sim. As minhas razes esto aqui.  aqui que tenho que estar. - Fez uma pausa. - Mas, ento e tu? - Perguntou baixinho,  espera do pior.
Passou um longo momento antes que ela respondesse.
- Estou noiva.
Ele baixou os olhos quando ela o disse, sentindo-se subitamente s um pouco mais fraco. Ento era isso. Era isto que ela tinha para lhe dizer.
- Parabns - disse por fim, duvidando de ter soado convincente. - E quando  o grande dia?
- De domingo a trs semanas. Lon queria casar em Novembro.
- Lon?
- Lon Hammond Jr., o meu noivo.
Ele acenou, sem surpresa. Os Hammonds eram uma das famlias mais poderosas e influentes do Estado. Dinheiro do algodo. Ao contrrio da do seu prprio pai, a morte 
de Lon Hammond Sr. tinha sido noticiada na primeira pgina do jornal.
- J ouvi falar deles. O pai dele montou um negcio e tanto. Lon ficou a substitu-lo?
Ela negou com a cabea.
- No,  advogado. Tem o seu prprio escritrio no centro da cidade.
- Com um nome desses, deve andar muito ocupado.
- Anda. Trabalha muito.         
Pareceu-lhe ter ouvido qualquer coisa no tom de voz dela, e a pergunta seguinte saiu automaticamente.
- Trata-te bem? - Ela no respondeu logo, como se estivesse a ponderar o assunto pela primeira vez. E depois:
- Sim.  um bom homem, Noah. Tu havias de gostar dele. - A voz ficou-lhe distante quando respondeu, ou pelo menos ele achou que tinha ficado. Noah imaginou se seria 
apenas a sua cabea a pregar-lhe partidas.
- E o teu pai, como vai? - perguntou ela.         
Noah deu uns dois passos antes de responder.
- Morreu no princpio deste ano, logo a seguir a eu ter regressado.
- Lamento - disse ela docemente, sabendo quanto ele significara para Noah.
Ele assentiu, e os dois caminharam em silncio durante um momento.
Chegaram ao topo do monte e pararam. O carvalho via-se  distncia, com o Sol a resplandecer, laranja, por detrs. Allie conseguia sentir os olhos dele sobre ela 
enquanto focava  distncia.
- Muitas recordaes por aqui, Allie.         
Sorriu. 

- Eu sei. Vi-o, quando cheguei. Lembras-te do dia que ali passmos?
- Sim - respondeu, sem adiantar mais nada.
- Costumas pensar no assunto?
- s vezes - disse ele. - Normalmente quando ando a trabalhar por aqueles lados. Agora fica na minha propriedade.
- Compraste-o?
- No conseguiria suportar que fosse transformado em armrios de cozinha.
Riu de mansinho, sentindo-se estranhamente agradada com isso.
- Ainda ls poesia?         
Ele acenou afirmativamente.
- Sim. Nunca parei. Acho que me est no sangue.
- Sabes, s o nico poeta que conheci.
- No sou poeta. Leio, mas sou incapaz de escrever um verso. J tentei.
- Mesmo assim continuas a ser um poeta, Noah Taylor Calhoun.         
A voz adoou-se-lhe.
- Ainda penso muito nisso. Foi a primeira vez que algum me leu poesia. De facto, foi a nica vez.
O comentrio dela f-los a ambos deslizar para o passado e recordar enquanto completavam o crculo em direco  casa, seguindo um novo carreiro que passava junto 
 doca.  medida que o Sol ia descaindo e o cu se tornava mais alaranjado, ele perguntou:
- Ento, por quanto tempo vais ficar?
- No sei. No muito. Talvez at amanh ou depois.
- O teu noivo veio c em negcios?         
Ela abanou a cabea numa negativa.
- No, ele ainda est em Raleigh.         
Noah ergueu as sobrancelhas.
- E ele sabe que ests aqui?         
Ela abanou a cabea de novo e respondeu devagar.
- No. Disse-lhe que vinha  procura de antiguidades. Ele no iria compreender a minha vinda at aqui.
Noah ficou um pouco surpreendido com a resposta. Uma coisa era vir visit-lo, mas outra completamente diferente esconder a verdade ao noivo.
- No tinhas que vir at aqui para me dizer que estavas noiva. Podias ter-me escrito, ou mesmo telefonado.
- Eu sei, mas por um motivo qualquer, tinha que o fazer pessoalmente.
- Porqu?         
Ela hesitou.         
- No sei... - disse, deixando-se ficar para trs, e o modo como o disse f-lo acreditar nela. O cascalho estalava-lhes sob os ps enquanto caminhavam em silncio 
por alguns passos. Depois ele perguntou.
- Allie, tu ama-lo?         
Ela respondeu automaticamente.
- Sim, amo-o.
As palavras fizeram doer. Mas de novo pensou ter ouvido qualquer coisa no tom dela, como se o estivesse a dizer para se convencer a si prpria. Parou e suavemente 
ps-lhe as mos sobre os ombros, obrigando-a a enfrent-lo. A luz do Sol a desvanecer-se reflectia-se nos olhos dele enquanto falava.

- Se ests feliz, Allie, e se o amas, no tentarei impedir que voltes para ele. Mas se h uma parte de ti que no tem a certeza, ento no o faas. Isto no  o 
tipo de coisa para que se v a meio termo.
A resposta dela saiu quase depressa de mais.
- Estou a tomar a deciso certa, Noah.         
Ficou a olh-la fixamente por um segundo, a pensar se acreditava nela. Depois assentiu com a cabea e os dois recomearam a andar. Aps um momento ele disse:
- Eu no te estou a facilitar a vida, pois no?         
Ela sorriu um pouco.
- Est tudo certo. De facto no te posso acusar de nada.
- Lamento-o na mesma.
- No lamentes. No h razo para isso. Eu sou a nica que deveria pedir desculpas. Talvez devesse ter escrito.
Ele abanou a cabea.
- Para ser sincero, continuo muito Contente que tenhas vindo. Apesar de tudo.  bom ver-te outra vez.
- Obrigada, Noah.
- Pensas que seria possvel recomearmos outra vez?
Ela olhou para ele com curiosidade.
- Tu foste a melhor amiga que alguma vez tive, Allie. Gostava que continussemos a ser amigos, mesmo estando tu noiva, e mesmo que seja s por um par de dias. E 
se tentssemos assim outra vez apenas conhecermo-nos melhor um ao outro?
Ela ficou a pensar no assunto, a pensar se haveria de ficar ou partir, e decidiu que uma vez que ele sabia do noivado, provavelmente estaria tudo certo. Ou pelo 
menos no seria errado. Sorriu ao de leve e assentiu com a cabea.
- Gostaria muito.
- ptimo. E se fssemos jantar? Conheo um stio onde servem os melhores caranguejos da cidade.
- Parece-me bem. Onde?
- Em minha casa. Deixei as armadilhas montadas a semana toda, e vi que tinha alguns muito bons h um par de dias. Importas-te?         
- No. Parece ptimo.
Ele sorriu e apontou por cima do ombro com o polegar.
- ptimo. Esto na doca. No demoro mais que uns dois minutos.
Allie ficou a observ-lo enquanto se afastava e reparou que a tenso que tinha sentido quando lhe contara do seu noivado comeava a desaparecer. Fechando os olhos, 
passou as mos pelos cabelos e deixou que a brisa lhe afagasse as faces. Inspirou fundo, e reteve o ar por um momento, sentindo os msculos dos ombros a descontrarem-se 
um pouco mais enquanto expirava. Por fim, abriu os olhos, ficou a observar a beleza que a rodeava.
Tinha sempre gostado de tardes como esta, tardes em que o suave aroma das folhas de Outono cavalgava no lombo dos doces ventos do Sul. Gostava das rvores e dos 
sons que faziam. Escut-los ajudava-a ainda mais a descontrair-se. Aps um momento, virou-se para Noah e olhou para ele quase como o poderia fazer a um estranho.
Meu Deus, ele tinha bom aspecto. Mesmo depois deste tempo todo.

Observava-o enquanto ele tentava alcanar uma corda mergulhada na gua. Comeou a pux-la, e apesar do cu que escurecia, viu-lhe os msculos dos braos a flectirem-se 
enquanto retirava a jaula do rio. Manteve-a suspensa sobre ele durante um momento e abanou-a, deixando escapar a maior parte da gua. Depois de pousar a armadilha 
no ponto, abriu-a e comeou a retirar os caranguejos um a um, colocando-os num balde.
Ento ela principiou a andar em direco a ele, ouvindo os grilos a cantar, e recordou-se de uma brincadeira de infncia. Contou o nmero de cricris durante um minuto 
e somou-lhes vinte e nove. Sessenta e sete, pensou enquanto sorria para si prpria. No sabia se estava certo, mas parecia-lhe que sim.         
Enquanto ia caminhando, olhava em volta e apercebeu-se de que se tinha esquecido de como tudo aqui parecia fresco e maravilhoso. Por cima do ombro viu a casa  distncia. 
Ele tinha deixado um par de luzes acesas, e parecia ser a nica casa nas redondezas. Pelo menos a nica com electricidade. Ali fora, longe dos limites da cidade, 
nada parecia certo. A milhares de casas de campo ainda faltava o luxo da iluminao interior. Chegou ao ponto e a madeira estalou-lhe debaixo do p. O som recordava-lhe 
o de uma caixinha enferrujada. Noah ergueu a cabea e piscou-lhe o olho, depois voltou a tratar dos caranguejos, verificando se tinham o tamanho correcto. Ela foi 
at  cadeira de balano que estava na doca e tocou-lhe, passando-lhe as mos pelas costas. Podia imagin-lo sentado nela, a pescar, a pensar, a ler. Era velha e 
estava carcomida pelas estaes, spera. Ficou a pensar quanto tempo passaria ele ali a ss, e imaginou quais seriam os seus pensamentos em alturas como essas.
- Era a cadeira do meu pai - disse ele sem olhar para cima, e ela acenou com a cabea. Viu morcegos no cu, e as rs tinham-se juntado aos grilos na harmonia do 
anoitecer.
Foi at ao outro lado da doca, sentindo uma impresso de fechamento. Um impulso tinha-a trazido at aqui, e pela primeira vez em trs semanas a sensao desaparecera. 
De alguma maneira precisara que Noah soubesse do seu noivado, que compreendesse, que o aceitasse - estava certa disso agora - e enquanto pensava nele veio-lhe a 
recordao de algo que tinham partilhado durante o Vero que haviam passado juntos. De cabea baixa, comeou a andar para trs e para diante devagarinho,  procura 
de algo at que o encontrou - algo gravado na madeira. Noah ama Allie, dentro de um corao. Gravado na doca poucos dias antes de ela se ter ido embora.
Uma brisa quebrou a quietude do ar e gelou-a, fazendo-a cruzar os braos. Ficou assim, olhando alternadamente para as palavras gravadas e depois para o rio, at 
que o ouviu chegar ao seu lado. Podia sentir a proximidade, o calor dele, enquanto falava.
- Isto aqui  cheio de paz - disse ela com voz sonhadora.
- Eu sei. Venho aqui muitas vezes s para estar junto da gua. Faz-me sentir bem.
- A mim tambm faria, se fosse como tu.
- Anda, vamos. Os mosquitos esto a ficar violentos e estou cheio de fome.


O cu j se tornara negro, e Noah comeou a andar em direco  casa com Allie mesmo a seu lado. Os pensamentos dela deambulavam pelo silncio, e sentiu a cabea 
leve assim a caminhar pelo carreiro. Imaginava o que ele poderia estar a pensar sobre o facto de estar aqui e no tinha bem a certeza se ela prpria o sabia. Quando 
chegaram  casa uns minutos mais tarde, Clem saudou-os com um focinho molhado nos stios errados. Noah enxotou-a, e foi-se embora, com o rabo entre as pernas.
Apontou para o carro dela.
- Deixaste ali alguma coisa que precises de tirar?
- No, cheguei mais cedo e j desfiz a mala. - A voz soava-lhe diferente, como se de sbito os anos se tivessem desfeito.
- Muito bem - disse ele enquanto chegava ao alpendre traseiro e comeava a subir as escadas. Ps o balde  porta e depois mostrou-lhe o caminho para o interior, 
dirigindo-se para a cozinha. Era logo  direita, grande e a cheirar a madeira nova. Os armrios tinham sido feitos de carvalho, tal como o cho, e as janelas eram 
largas e viradas a nascente, permitindo a entrada  luz do Sol matinal. Um restauro feito com gosto, sem exageros como era costume acontecer quando casas como esta 
eram reconstrudas.
- Importas-te que d uma olhadela por aqui?
- No, faz favor. J tinha feito algumas compras hoje, e ainda tenho que arrumar as mercearias, - os olhos de ambos encontraram-se por um segundo, e Allie sabia 
quando lhe virou as costas, que ele continuava a observ-la enquanto deixava a habitao. Sentiu outra vez aquele pequeno aperto l dentro.
Deu a volta  casa durante os minutos seguintes, andando pelos quartos, reparando como tudo parecia to bonito. Quando acabou, tornou-se-lhe difcil recordar quo 
arruinada tinha estado. Desceu as escadas, virou para a cozinha, e viu-o de perfil. Por um momento parecia de novo o rapaz de dezassete anos, e isso f-la parar 
pela fraco de um segundo antes de avanar. Diabo, pensou, controla-te. Lembra-te de que agora ests noiva.
Ele estava de p junto ao balco, com as portas dos armrios escancaradas, sacos de mercearia vazios no cho, a assobiar de mansinho. Sorriu-lhe antes de pr mais 
umas latas num dos armrios. Ela parou a alguns centmetros dele e encostou-se ao balco, cruzando as pernas. Abanou a cabea, espantada por tudo o que ele fizera.
- Est incrvel, Noah. Quanto tempo  que demorou o restauro? Ele levantou os olhos do ltimo saco que estava a esvaziar.
- Quase um ano.
- Fizeste tudo sozinho? - Ele riu para si.
- No. Sempre pensei que o faria quando era novo, e comecei assim. Mas era demais. Iria demorar anos, e por isso acabei por contratar umas pessoas... de facto, uma 
data de pessoas. Mas mesmo com elas, ainda era uma quantidade de trabalho muito grande, e na Maior parte das vezes no conseguia parar antes da meia-noite.
- Porque  que trabalhaste tanto?         
"Fantasmas", queria dizer, mas no disse.         
- No sei. Apenas queria acabar depressa, acho eu. Queres beber alguma coisa antes de eu comear a fazer o jantar?
- O que  que tens?         
- No muita coisa, na verdade. Cerveja, ch, caf.         
- Pode ser ch.         

Ele apanhou os sacos da mercearia e guardou-os, depois foi at uma despensa lateral  cozinha e regressou com uma lata de ch. Pegou em dois sacos de ch que ps 
junto ao fogo, e encheu a chaleira. Depois de a pousar sobre o bico, acendeu um fsforo, e ela ouviu o som das chamas a ganharem vida.
-  s um minuto - disse. - Este fogo aquece muito depressa.
- Tudo bem.         
Quando a chaleira assobiou, ele deitou a gua em duas chvenas e passou-lhe uma a ela.
Ela sorriu e deu um golinho, depois dirigiu-se para a janela.                
- Aposto que a cozinha fica lindssima quando a luz da manh brilha por aqui adentro.
Ele assentiu.
- Fica. Mandei pr janelas maiores neste lado da casa por causa disso. At mesmo nos quartos l em cima.
- Tenho a certeza que os teus hspedes ho-de apreciar isso. A no ser,  claro, que queiram ficar a dormir at tarde.
- Na verdade ainda no tive hspedes por c. Desde que o meu pai morreu no sei de facto a quem convidar.
Pelo tom dele, percebeu que estava apenas a fazer conversa. Porm, por alguma razo, f-la sentir... a solido. Ele pareceu perceber o que ela sentia, mas antes 
que pudesse debruar-se sobre a questo, ele mudou de assunto.
- Vou buscar os caranguejos para os deixar marinar durante alguns minutos antes de os cozer - disse ele, pousando a chvena sobre o balco. Foi at ao armrio e 
tirou uma panela grande com rede e tampa. Levou a panela at ao lava-loias, deitou-lhe gua, depois pousou-a no fogo.
- Posso ajudar-te em alguma coisa?         
Respondeu-lhe por cima do ombro.
- Podes. Que tal cortar alguns legumes para a frigideira? H muitos na gaveta do frigorfico, e podes encontrar uma tigela daquele lado.
Ele aproximou-se do armrio junto ao lava-loias, e ela bebeu mais um gole de ch antes de pousar a chvena sobre o balco para ir buscar a tigela. Levou-a at ao 
frigorfico e encontrou alguns quiabos, zucchini, cebolas e cenouras no fundo da gaveta. Noah juntou-se-lhe diante da porta aberta, e desviou-se para lhe dar lugar. 
Podia sentir o cheiro dele ali junto dela - limpo, familiar, diferente - e sentiu o brao dele roar no dela quando se inclinou para chegar ao fundo. Retirou uma 
cerveja e uma garrafa de molho picante, depois regressou ao fogo.
Noah abriu a cerveja, despejou-a na gua, e acrescentou-lhe o picante junto com outros temperos. Depois de mexer o lquido para ter a certeza de que os ps se dissolviam, 
foi at  porta dos fundos buscar os caranguejos.
Parou durante um momento antes de regressar ao interior e ficou a olhar para Allie, observando-a a cortar as cenouras. Enquanto o fazia, ficou-se a imaginar porque 
 que ela teria vindo, especialmente agora que estava comprometida. Nada disto parecia fazer muito sentido.
Mas, por outro lado, Allie fora sempre de surpresas.         

Sorriu para consigo, recordando-se de como ela costumava ser dantes. Fogosa, espontnea, apaixonada - como ele calculava que deveriam ser todos os artistas. E ela 
era definitivamente um deles. Um talento artstico como o dela era um dom. Lembrava-se de ver algumas pinturas em museus de Nova Iorque e pensar que o trabalho dela 
era to bom como os que ali tinha visto.
Tinha-lhe dado um quadro antes de se ir embora naquele Vero. Havia-o pendurado por cima da lareira na sala de estar. Ela tinha-lhe chamado a pintura dos seus sonhos, 
e a ele parecera-lhe extremamente sensual. Quando olhava o quadro, e fazia-o muitas vezes tarde na noite, podia ver o desejo nas cores e nas linhas, e se focasse 
cuidadosamente, conseguia imaginar o que ela tinha estado a pensar em cada pincelada.
Um co ladrou  distncia, e Noah apercebeu-se de que tinha ficado ali junto  porta aberta durante tempo demais. Fechou-a depressa, virando para a cozinha. Enquanto 
andava, interrogou-se se ela teria dado pelo tempo em que estivera ausente.
- Como vai isso? - perguntou, vendo que ela tinha quase acabado.
- Vai bem. J estou quase no fim. Temos mais alguma coisa para o jantar?
- Estava a pensar tambm em po caseiro que tenho por a.                 - Caseiro?
- De um vizinho - disse enquanto pousava o balde no lava-loias. Abriu a torneira e comeou a lavar os caranguejos, segurando-os debaixo de gua, depois deixando-os 
a correr de um lado para o outro dentro da pia enquanto lavava o seguinte. Allie pegou na chvena e aproximou-se para o observar.
- No tens medo que te mordam quando lhes pegas?
- No. Basta agarrar-lhes assim - disse demonstrando, e ela sorriu.
- Esqueo-me que fizeste isto a vida toda.
- Nova Bern  pequena, mas ensina-nos a fazer as coisas importantes.
Ela inclinou-se contra o balco, ficando perto dele, e esvaziou a chvena. Quando os caranguejos estavam prontos ele p-los na panela sobre o fogo. Lavou as mos, 
virando-se para falar enquanto o fazia.
- Queres ir sentar-te no alpendre durante uns minutos? Gostava de os deixar de molho uma meia hora.
- Claro - disse ela.         
Enxugou as mos, e foram juntos para o prtico. Noah acendeu a luz  sada, e sentou-se na cadeira de balano mais velha, oferecendo-lhe a ela a mais nova. Quando 
viu que a chvena dela estava vazia, entrou por um momento e regressou com outra cheia e uma cerveja para si. Passou-lha e ela agarrou-a, bebendo um pouco antes 
de a pousar na mesa entre as cadeiras.
- Estavas aqui sentado quando eu cheguei, no estavas?
Respondeu enquanto se ajeitava mais confortavelmente.
- Estava. Sento-me aqui fora todas as noites. j se tornou um hbito.
- Posso ver porqu - disse ela olhando em volta. - Ento o que  que tens feito nestes dias?
- Na verdade, no fao mais nada seno trabalhar na casa por agora. Satisfaz os meus instintos criativos.

- Como  que podes... quer dizer...
- Morris Goldman.
- Perdo?
Ele sorriu.
- O meu antigo patro l do Norte. O nome dele era Morris Goldman. Ofereceu-me uma cota no negcio na altura em que me alistei e morreu antes de eu voltar para casa. 
Quando regressei aos Estados Unidos, os advogados dele deram-me um cheque suficientemente grande para comprar esta casa e arranj-la.
Ela riu baixinho.
- Sempre me disseste que irias descobrir uma maneira de o fazer. - Ficaram ambos sentados em silncio por um momento, pensando de novo no passado. Allie bebeu mais 
um pouco de ch.
- Lembras-te de como nos escapulimos para aqui na noite em que primeiro me falaste deste lugar?
Ele acenou, e ela continuou:
- Cheguei a casa um pouco tarde nessa noite, e os meus pais estavam furiosos quando por fim entrei. Ainda consigo ver o meu pai de p na sala a fumar um cigarro, 
e a minha me sentada no sof a olhar fixamente em frente. juro, parecia que tinha morrido um membro da famlia. Foi a primeira vez que os meus pais perceberam que 
eu tinha intenes srias a teu respeito, e a minha me teve uma grande conversa comigo mais tarde, nessa noite. Ela disse-me, "Tenho a certeza que pensas que eu 
no compreendo o que ests a passar, mas compreendo. Acontece que s vezes o nosso futuro  ditado por aquilo que somos, e no por aquilo que queremos". Lembro-me 
de ter ficado muito ferida quando ela disse aquilo.
- Tu contaste-me no dia seguinte. Tambm me feriu os sentimentos. Gostava dos teus pais, e no fazia ideia de que no gostassem de mim.
- No era que no gostassem de ti. Eles achavam que tu no me merecias.
- No faz muita diferena.         
Havia uma certa tristeza na voz dele quando respondeu, e ela soube que ele tinha motivos para se sentir assim. Olhou na direco das estrelas enquanto passava a 
mo pelo cabelo, puxando para trs as madeixas que lhe caam sobre a cara.
- Eu sei. Sempre soube. Talvez seja por isso que parece existir sempre uma distncia entre a minha me e eu quando falamos.
- E como  que te sentes em relao ao assunto agora?
- Da mesma maneira que me senti antes. No est certo, no  Justo. Foi uma coisa terrvel para uma rapariga aprender. Que o estatuto  mais importante que os sentimentos.
Noah sorriu docemente  resposta dela, mas no disse nada.
- Tenho pensado sempre em ti desde esse Vero - disse ela.
- Tens?
- Porque acharias que no? - Parecia genuinamente surpreendida.
- Nunca respondeste s minhas cartas.
- Escreveste-me?
- Dzias de cartas. Escrevi-te durante dois anos sem receber uma nica resposta.
Ela abanou lentamente a cabea antes de baixar os olhos.

- Eu no sabia... - disse por fim mansamente, e ele soube que devia ter sido a me dela, verificando o correio, retirando as cartas sem o conhecimento dela. Era 
o que sempre suspeitara, e ficou a olhar enquanto Allie chegava  mesma concluso.
- Foi errado da parte dela fazer isso, Noah, e eu lamento que o tenha feito. Mas tenta compreender. Uma vez que eu parti, provavelmente pensou que seria mais fcil 
para mim esquecer o assunto. Nunca compreendeu quanto tu significavas para mim, e para ser sincera, nem sequer sei se ela amou o meu pai da mesma maneira que eu 
te amei. Na cabea dela, estava s a tentar proteger os meus sentimentos, e provavelmente pensou que a melhor maneira de o fazer era esconder as cartas que enviaste.
- Isso no era uma deciso a ser tomada por ela - disse mansamente.
- Eu sei.
- Teria feito alguma diferena mesmo que as tivesses recebido?
- Claro. Fiquei sempre a pensar no que poderias andar a fazer.
- No, em relao a ns os dois. Achas que teramos conseguido ficar juntos?
Demorou um momento at que ela respondesse.
- No sei, Noah. Na verdade no sei, e tu tambm no. No somos as mesmas pessoas que ramos ento. Mudmos, crescemos. Os dois.
Fez uma pausa. Ele no respondeu, e durante o silncio ela olhou em direco ao regato. Continuou:
- Mas sim, Noah, acho que teramos. Pelo menos gostava de acreditar que teramos ficado juntos.
Ele acenou com a cabea, olhou para baixo e depois desviou os olhos.
- Como  que  o Lon?         
Ela hesitou, no esperava a pergunta. O invocar do nome de Lon trouxe-lhe um ligeiro sentimento de culpa  superfcie, e por um momento no sabia como responder. 
Pegou na chvena, deu outro gole de ch, e ficou a ouvir enquanto um pica-pau martelava  distncia. Falou devagar.
- Lon  bonito, encantador, um homem de sucesso, e a maioria das minhas amigas esto rodas de cimes. Acham que ele  perfeito, e em muitos aspectos at .  carinhoso 
comigo, faz-me rir, e eu sei que me ama  sua maneira. - Fez uma pausa durante um momento, reunindo os pensamentos. - Mas ir sempre faltar qualquer coisa na nossa 
relao.
Surpreendeu-se a si prpria com aquela sada, mas sabia que apesar de tudo era verdade. E tambm sabia, por olhar para ele que, Noah j tinha suspeitado de qual 
seria a resposta.
- Porqu?         
Ela fez um sorriso dbil e encolheu os ombros quando voltou a responder. A voz saiu-lhe pouco mais alta que um sussurro.
- Acho que ainda procuro pelo tipo de amor que tivemos naquele Vero.
Noah ficou a pensar no que ela tinha dito durante um largo momento, pensando nas relaes que tivera desde a ltima vez que a vira.

- E quanto a ti? - perguntou ela. - Voltaste a pensar em ns?
- Pensava em ns o tempo todo. Ainda penso.
- Andas com algum?         
- No - respondeu ele, abanando a cabea.                 
Ambos pareciam estar a considerar o assunto, tentando mas achando impossvel desvi-lo das suas mentes. Noah acabou a cerveja, ficando surpreendido por t-la esvaziado 
to depressa.
- Vou acender o lume para a gua. Queres alguma coisa?                 Ela recusou com um aceno de cabea. Noah foi at  cozinha, Ps os caranguejos na panela e 
o po no forno. Pegou num pouco de farinha e fcula de milho para os legumes, panou-os, e deitou um pouco de gordura na frigideira. Depois de baixar o lume, ligou 
o temporizador e tirou outra cerveja do frigorfico antes de regressar ao alpendre. E enquanto fazia estas coisas, pensava em Allie e no amor que andava ausente 
das suas duas vidas.
Tambm Allie tinha ficado a pensar. Em Noah, em si prpria, numa quantidade de coisas. Por um momento desejou no estar noiva, mas depois rapidamente se amaldioou. 
No era Noah quem ela amava - ela amava o que eles tinham sido uma vez. Alm disso, era normal sentir-se assim. Fora o seu primeiro amor verdadeiro, o nico homem 
com quem alguma vez estivera - como podia esperar esquec-lo?
Porm, era normal sentir as tripas a contrarem-se de cada vez que ele chegava perto de si? Era normal confessar-lhe coisas que nunca poderia dizer a mais ningum? 
Era normal vir aqui a trs semanas do dia do seu casamento?
"No, no ", murmurou enfim para si prpria enquanto olhava o cu nocturno. "No h nada de normal em tudo isto."
Noah saiu naquele exacto momento e ela sorriu-lhe, contente que tivesse regressado para no ter que continuar a pensar mais naquilo tudo.
- Ainda vai demorar uns minutos - disse enquanto voltava a sentar-se.
- No faz mal. Ainda no estou com fome.
Ento olhou-a, e ela viu-lhe a ternura nos olhos.
- Fico contente por teres vindo, Allie - disse.
- Eu tambm. E estive quase para no vir.
- Porque vieste?         
Fui obrigada a isso, queria ela dizer, mas calou-se.
- S para te ver, para descobrir o que tens andado a fazer. Para ver como ests.
Ele ficou na dvida se seria apenas isto, mas no quis aprofundar a questo. Em vez disso, mudou de assunto.
-  verdade, tenho andado para te perguntar, ainda pintas?
Ela abanou a cabea.
- J no. - Ficou espantado.
- Por que no? Tens tanto talento.
- No sei...
- Claro que tens. Paraste por um motivo qualquer.         
Estava certo. Ela tinha um motivo.
-  uma histria muito comprida.
- Tenho a noite toda - respondeu.
- Acreditavas mesmo que eu tinha talento?
- Anda - disse ele, pegando-lhe na mo, quero mostrar-te uma coisa.

Levantou-se e seguiu-o atravs da porta at  sala. Ele parou diante da lareira e apontou para a pintura que estava pendurada por cima dela. Ela arquejou, surpreendida 
por no ter reparado nela antes, mais surpreendida ainda por estar ali.
- Guardaste-a?
- Claro que a guardei.  maravilhosa.         
Ela lanou-lhe um olhar cptico, e ele explicou.
- Faz-me sentir vivo quando olho para ela. s vezes tenho que me levantar para lhe tocar.  demasiado real - as formas, as sombras, as cores. Outras vezes at sonho 
com ela.  incrvel, Allie - consigo ficar a olhar para ela horas sem fim.
- Mas ests a falar a srio! - disse espantada.
- O mais srio que alguma vez falei.
Ela no disse nada.
- Queres dizer que nunca ningum te disse isto antes?         
- O meu professor disse-me - respondeu por fim , mas acho que no acreditei nele.
Ele sabia que havia outras coisas por detrs disso. Allie olhou para o lado antes de continuar.
- Eu desenhava e pintava desde criana. Acho que quando fiquei um bocadinho mais crescida comecei a pensar que era boa naquilo. Tambm me dava gozo. Lembro-me de 
trabalhar nesse quadro naquele Vero acrescentando-o um bocadinho todos os dias, transformando-o  medida que a nossa relao evolua. Nem sequer me lembro de como 
comeou, ou do que  que eu queria fazer, mas de alguma maneira evoluiu at se tornar nisto. Recordo-me de ser incapaz de parar de pintar depois de ter regressado 
a casa nesse Vero. Penso que era a minha maneira de evitar a dor que estava a sofrer. De qualquer modo, acabei por me formar em Arte na faculdade porque era uma 
coisa que eu tinha que fazer - lembro-me de passar horas no atelier sozinha e a gostar de cada minuto. Adorava a liberdade que sentia quando criava, o modo como 
me fazia sentir por dentro fazer qualquer coisa de belo. Logo antes de me formar, o meu professor, que tambm era crtico no jornal, disse-me que eu tinha muito 
talento. Disse que eu devia tentar a sorte como artista. mas no lhe dei ouvidos.
Parou aqui, reunindo os pensamentos.
- Os meus pais no achavam que fosse adequado para algum como eu pintar para viver. Parei pouco depois. H anos que no toco num pincel.
Ela olhou especada a pintura.
- Achas que podes voltar a pintar.
- No tenho a certeza se ainda sou capaz. Passou muito tempo.
- Ainda o podes fazer, Allie. Sei que podes. Tens um talento que vem de dentro de ti, do teu corao, no dos dedos. O que tu tens nunca poder desaparecer.  aquilo 
que os outros apenas sonham alguma vez vir a ter. s uma artista Allie.
As palavras foram ditas com tanta sinceridade que ela sabia que no as estava a dizer apenas para ser simptico. Acreditava realmente nas capacidades dela, e por 
um motivo qualquer que era mais importante para ela do que esperava. Mas outra coisa aconteceu ento, algo de ainda mais poderoso.

Porque  que aconteceu, nunca o soube, mas foi aqui que o abismo se comeou a fechar para Allie, o abismo que ela tinha aberto na sua vida a separar a dor do prazer. 
E ento suspeitou, talvez no conscientemente, que nisto estavam envolvidas mais coisas do que alguma vez pudera admitir.
Mas nesse momento ainda no tomara completamente conscincia do assunto, e virou-se para o encarar. Estendeu o brao e tocou na mo dele, hesitante, suavemente, 
encantada por ao fim de todos estes anos, de alguma maneira, ele saber exactamente o que ela precisava de ouvir. Quando os olhos de ambos se encontraram, ela apercebeu-se 
de novo de como ele era to especial.
E, pela fraco de um segundo apenas, uma falha pequenina do tempo que se suspende no ar como pirilampos nos cus de Vero, ela perguntou-se se no estaria outra 
vez apaixonada por ele.
O temporizador soou na cozinha, um pequeno ding, e Noah virou-se, quebrando o momento, estranhamente afectado por aquilo que tinha acabado de acontecer entre eles. 
Os olhos dela tinham-lhe falado e murmurado qualquer coisa que ele ansiava por ouvir, porm no conseguia fazer calar a voz que lhe soava dentro da cabea, a voz 
dela, que lhe tinha falado do amor dela por outro homem. Silenciosamente, amaldioou o temporizador enquanto se dirigia  cozinha e retirava o po do forno. Quase 
queimou os dedos, deixou cair o po no balco, e viu que a frigideira estava pronta. Adicionou-lhe os legumes e ouviu-os comearem a estalar. Depois, murmurando 
para consigo, retirou a manteiga do frigorfico, espalhou alguma sobre o po, e derreteu um pouco mais para os caranguejos.
Allie tinha-o seguido at  cozinha e pigarreou.
- Posso pr a mesa?         
Noah usou a faca do po como um ponteiro.
- Claro, os pratos esto ali. Pe bastantes - os caranguejos fazem muito lixo, por isso vamos precisar deles. - No conseguia olhar para ela enquanto falava. No 
queria tomar conscincia de que se tinha enganado quanto ao que acabara de acontecer entre eles. No queria que tivesse sido um equvoco.
Tambm Allie estava a matutar naquele momento e a sentir o calor da emoo enquanto pensava nele. As palavras que ele dissera repetiam-se-lhe na cabea enquanto 
procurava tudo o que precisava para pr a mesa: pratos, individuais, sal e pimenta. Noah passou-lhe o po quando estava a acabar, e os dedos tocaram-se brevemente.
Ele reconduziu a ateno para a frigideira e virou os legumes. Levantou a tampa da panela, viu que os caranguejos ainda precisavam de um minuto, e deixou-os cozer 
um pouco mais. Agora j estava mais recomposto e regressou  tagarelice superficial, conversa fcil.
- J comeste caranguejos antes?
- Um par de vezes. Mas s em salada.         
Ele riu.
- Ento prepara-te para uma aventura. Espera um segundo. - Desapareceu escadas acima por um momento, depois regressou com uma camisa azul marinho de botes. Ergueu-a 
aberta para ela.
- Toma, veste isto. No quero que sujes o teu vestido.
Allie vestiu-a e cheirou o perfume que se evolava da camisa - o cheiro dele, particular, natural. 

- No te preocupes - disse ele, vendo a expresso dela. - Est limpa.
Ela riu.
- Eu sei. S que me recorda do nosso primeiro encontro. Nessa noite deste-me o teu casaco, lembras-te?
Acenou com a cabea. 
- Sim, lembro-me. Fin e Sarah estavam connosco. O Fin passou o caminho todo de regresso a casa dos teus pais a dar-me cotoveladas, para ver se eu te pegava na mo.
- Mas tu no pegaste.        
- No - respondeu ele, abanando a cabea.
- No porqu? 
- Tmido, talvez, ou estava com medo. No sei. No me pareceu que fosse a coisa certa a fazer naquele momento.
- Pensando bem nisso, eras um pouco tmido, no eras?
- Prefiro as palavras calma e confiante - respondeu com uma piscadela, e ela sorriu.
Os legumes e os caranguejos ficaram prontos quase ao mesmo tempo.
- Tem cuidado que esto quentes - disse ele enquanto lhos passava, e sentaram-se em frente um do outro na pequena mesa de madeira. Em seguida, apercebendo-se de 
que o ch ainda estava no balco, Allie levantou-se e trouxe-o para a mesa. Depois de porem alguns legumes e po nos pratos, Noah adicionou-lhes um caranguejo, e 
Allie ficou um momento sentada a olh-lo.
- Parece um escaravelho.
- Mas  um bom escaravelho - disse. - Espera, deixa-me mostrar-te como se come.
Fez a demonstrao rapidamente, fazendo-o parecer fcil, retirando-lhe a carne e pondo-a no prato dela.
Na primeira e na segunda vez, Allie esmagou as pernas com fora de mais, e teve que usar os dedos para remover as cascas da carne. De incio sentia-se desajeitada, 
preocupada por ele estar a observar cada um dos seus erros, mas depois apercebeu-se da sua prpria insegurana. Ele no se preocupava com coisas como esta. Nunca 
se preocupara.
- Ento o que aconteceu a Fin? - perguntou ela.         
Ele levou um segundo a responder.
- Fin morreu na Guerra. O contratorpedeiro dele foi torpedeado em 43.
- Lamento - disse ela -, sei que era um bom amigo teu. - A voz dele mudou, um pouco mais grave agora.
- E era. Penso muito nele nestes dias. Lembro-me em particular da ltima vez que o vi. Eu tinha vindo despedir-me antes de me alistar, e encontrmo-nos outra vez. 
Era banqueiro aqui, como o fora o pai dele, e passmos muito tempo juntos durante a semana seguinte. s vezes acho que fui eu quem o convenci a alistar-se. No penso 
que o teria feito, a no ser porque eu tambm ia.
- Isso no  justo - disse ela, triste por ter tocado no assunto.
- Tens razo. S que sinto a falta dele, e  tudo.
- Eu tambm gostava dele. Fazia-me rir.
- Sempre foi bom nisso.
Ela olhou-o de soslaio.
- Ele tinha um fraquinho por mim, sabias?
- Sabia. Ele contou-me.
- Contou? O que  que ele disse?

Noah encolheu os ombros.
- O que era habitual nele. Que tinha tido que te afastar com um pau. Que tu andavas sempre atrs dele, esse tipo de coisas.
Ela riu de mansinho.
- Acreditaste nele?         
- Claro - respondeu -, porque no havia de acreditar?
- Vocs os homens protegem-se sempre uns aos outros - disse ela enquanto esticava o brao por cima da mesa, espetando-lhe um dedo no brao. Continuou:
- Ento, conta-me tudo o que andaste a fazer desde que te vi da ltima vez.
Comearam ento a falar, a tentar compensar o tempo perdido. Noah falou da sua sada de Nova Berna, sobre o trabalho no estaleiro e no depsito de ferro-velho em 
Nova Jersey. Falou com amizade de Morris Goldman e tocou ao de leve na Guerra, evitando a maioria dos pormenores, e contou-lhe sobre o pai e quanto sentia saudades 
dele. Allie contou-lhe sobre a ida para a faculdade, a pintura, e as horas que passara como voluntria no hospital. Falou da famlia e dos amigos e das obras de 
caridade em que se envolvera. Nenhum deles trouxe  baila algum com quem tivesse sado desde a ltima vez em que se tinham visto. At Lon foi ignorado, e embora 
ambos tivessem dado pela omisso, nenhum o mencionou.
Depois Allie tentou recordar-se da ltima vez que ela e Lon tinham conversado desta maneira. Embora ele fosse um bom ouvinte e raramente discutissem, no era o tipo 
de homem com quem se falasse assim. Tal como o pai dela, no se sentia  vontade para partilhar os seus pensamentos e sentimentos. Ela tentara explicar-lhe que precisava 
de se sentir mais prxima dele, mas nunca parecera fazer qualquer diferena.
Mas sentada aqui, agora, ela apercebia-se do que lhe tinha andado a fazer falta.
O cu ficou mais escuro e a Lua ergueu-se mais alto  medida que a noite avanava. E sem que nenhum dos dois tivesse dado por isso, comearam a reconquistar a intimidade, 
o lao de familiaridade que antes tinham partilhado.

Acabaram o jantar, ambos satisfeitos com a refeio, e nenhum falando muito agora. Noah olhou para o relgio e viu que se estava a fazer tarde. As estrelas brilhavam 
no seu esplendor, os grilos estavam um pouco mais calados. Gostara de falar com Allie e perguntava-se se no teria falado demais, interrogava-se sobre o que pensaria 
da sua vida, esperando que de alguma maneira tivesse feito uma pequena diferena, se fosse possvel.
Noah levantou-se e voltou a encher a chaleira. Trouxeram ambos os pratos para o lava-loias e levantaram a mesa. Ele deitou gua em mais duas chvenas, e ps um 
pacote de ch em cada uma.
- E que tal voltarmos para o alpendre? - perguntou, passando-lhe a chvena, e ela concordou, mostrando o caminho. Ele agarrou numa manta para o caso de ela ficar 
com frio, e em breve tinham retomado de novo os seus lugares, ela com a manta sobre as pernas, as cadeiras a balanar. Noah observava-a pelo canto do olho. Meu Deus, 
ela  lindssima, pensou. E por dentro, ficou a doer.
Porque algo tinha acontecido durante o jantar.         

Muito simplesmente, tinha-se apaixonado outra vez. Soube isso naquele momento, enquanto estavam sentados um junto ao outro. Ficara apaixonado pela nova Allie, no 
apenas pela recordao dela.
Mas de facto, nunca deixara de estar apaixonado e isto, ele apercebera-se, era o seu destino.
- Foi uma noite e tanto - disse, com a voz agora mais doce.
- Sim, foi - confirmou ela -, uma noite maravilhosa.        
Noah virou-se para as estrelas, as luzes a tremeluzir recordando-lhe que em breve ela partiria, e sentiu-se quase vazio por dentro. Esta era uma noite que ele queria 
que nunca terminasse. Como  que lho poderia dizer? O que  que ele poderia dizer que a fizesse ficar?
No sabia. E assim foi tomada a deciso de no dizer nada. E apercebeu-se ento de que tinha falhado.
As cadeiras de balano moviam-se a um ritmo calmo. De novo os morcegos, sobre o rio. Traas a beijar a luz do alpendre. Algures, ele sabia, havia pessoas a fazer 
amor.
- Fala comigo - disse ela por fim, com um tom de voz sensual. Ou era a cabea dele a pregar-lhe partidas?
- O que queres que diga?
- Fala como costumavas falar comigo debaixo do carvalho.         
E ele falou, a recitar passagens antigas, celebrando a noite. Whitman e Thomas, porque gostava muito das imagens. Tennyson e Browning, porque os temas lhe pareciam 
to familiares.
Ela descansou a cabea de encontro s costas da cadeira, fechando os olhos, ficando apenas um pouco mais emocionada na altura em que ele acabava. No eram apenas 
os poemas, ou a voz dele que a emocionavam. Era tudo aquilo, a totalidade maior que a soma das partes. Nem tentava interpret-la, no queria, porque no tinha sido 
feita para ser ouvida daquela maneira. Poesia, pensou ela, no fora escrita para ser analisada - fora feita para inspirar sem motivo, para emocionar sem entendimento.
Por causa dele, fora assistir a alguma sesses de leitura de poesia organizadas pelo departamento de ingls enquanto estava na faculdade. Tinha ficado sentada a 
ouvir pessoas diferentes, poemas diferentes, mas depressa desistira, desencorajada porque nenhuma a inspirava ou parecia to inspirada como os verdadeiros amantes 
de poesia deveriam ser.
Ficaram a balanar-se durante algum tempo, a beber ch, sentados em silncio, deixando os pensamentos divagar. O impulso que a trouxera at aqui j tinha desaparecido 
- e ela estava contente por isso - mas preocupava-se com os sentimentos que o tinham substitudo, a agitao que tinha comeado a cirandar e redemoinhar nos seus 
poros como poeira de ouro nas vasilhas dos rios. Ela tinha tentado neg-los, esconder-se deles, mas agora apercebia-se que no queria que parassem. H anos que no 
se sentia assim.        

Lon no era capaz de evocar nela aqueles sentimentos. Nunca o conseguira e provavelmente nunca o conseguiria. Talvez fosse por isso que ela nunca tinha ido para 
a cama com ele. Ele j havia tentado antes, muitas vezes, usando tudo das flores  culpabilizao, e ela usara sempre a desculpa de que queria esperar at ao casamento. 
Ele aceitava-a bem, normalmente, e ela por vezes perguntava-se at que ponto ficaria ferido se alguma vez descobrisse o que se passara com Noah.
Mas havia outra coisa que a fazia querer esperar, e tinha que ver com o prprio Lon. Ele era motivado pelo seu trabalho, que sempre ocupara a maior parte da sua 
ateno. O trabalho vinha em primeiro lugar, e para ele no havia tempo para poemas ou noites perdidas em cadeiras de baloio nos alpendres. Ela sabia que era por 
este motivo que tinha tanto sucesso, e parte dela respeitava-o por isso. Mas tambm tinha a sensao de que no lhe bastava. Ela queria outra coisa, algo de diferente, 
algo mais. Paixo e romance, talvez, ou talvez conversas calmas em salas iluminadas  luz das velas, ou talvez qualquer coisa to simples como no vir em segundo 
lugar.
Noah, igualmente, andava a cirandar pelos seus pensamentos. Para ele, a noite seria recordada como um dos momentos mais especiais que alguma vez vivera. Enquanto 
se balanava, lembrava-se de tudo em pormenor, depois recordava tudo outra vez. Tudo o que ela tinha feito parecia-lhe de alguma maneira elctrico, carregado.
Agora, sentado ao lado dela, perguntava-se se ela alguma vez teria sonhado as mesmas coisas que ele sonhara nos anos em que tinham estado separados. Alguma vez ela 
sonhara com eles de novo abraados e a beijarem-se sob o luar doce? Ou teria ela ido mais longe e sonhado com os seus corpos nus, que tinham sido mantidos separados 
tempo demais...
Olhou para as estrelas e recordou-se dos milhares de noites vazias que tinha passado desde que se tinham visto pela ltima vez.
V-la de novo trouxera-lhe todos aqueles sentimentos  superfcie, e descobriu que era impossvel reprimi-los de novo. Soube ento que queria outra vez fazer amor 
com ela e ter o amor dela em paga. Era do que mais precisava no mundo.
Mas tambm se apercebeu que nunca mais poderia ser assim. Agora que ela estava noiva.
Allie percebeu pelo silncio dele que estava a pensar nela e descobriu que isso lhe dava imenso prazer. No sabia exactamente quais eram os pensamentos dele, nem 
sequer lhe interessava, s sabia que eram sobre si, e isso bastava-lhe.
Pensou na conversa que tinham tido ao jantar e questionou-se sobre a solido. Por algum motivo, no o conseguia imaginar a ler poesia a outra pessoa, ou sequer a 
partilhar os seus sonhos com outra mulher. No parecia ser o tipo. Ou isso, ou no o queria acreditar.
Pousou a chvena, depois passou as mos pelos cabelos, fechando os olhos enquanto o fazia.
- Ests cansada - perguntou ele, libertando-se por fim dos seus pensamentos.
- Um bocadinho. Na verdade devia ir-me embora dentro de minutos.
- Eu sei - disse ele, acenando, num tom neutro.
Ela no se levantou imediatamente. Em vez disso, pegou na chvena e bebeu o ltimo gole de ch, sentindo-o aquecer-lhe a garganta. Observou a noite. A Lua mais alta 
agora, vento nas rvores, a temperatura a baixar.

Em seguida olhou para Noah. A cicatriz na cara dele era visvel de lado. Perguntou-se se teria acontecido durante a Guerra, e depois interrogou-se se ele alguma 
vez teria sido mesmo ferido. Ele no o referira e ela no perguntara, em grande parte porque no queria imagin-lo a ser ferido.
- Tenho que ir - disse por fim, devolvendo-lhe a manta.
Noah assentiu com a cabea, depois levantou-se sem uma palavra. Transportou a manta, e os dois foram a andar at ao carro dela enquanto as folhas cadas lhes estalavam 
debaixo dos ps. Ela comeou a tirar a camisa que ele lhe emprestara enquanto ele abria a porta, mas ele f-la parar.
- Fica com ela - disse. - Quero que fiques com ela. Ela no perguntou porqu, porque tambm ela queria ficar com ela. Rearranjou-se e cruzou os braos depois para 
afastar o frio. Por algum motivo, ali de p, veio-lhe  memria o estar de p no alpendre da sua casa  espera de um beijo depois de um baile do liceu.
- Diverti-me imenso esta noite - disse ele. - Obrigada por me procurares.
- Eu tambm - respondeu ela.         
Ele convocou toda a sua coragem.
- Volto a ver-te amanh?        
Uma pergunta simples. Ela sabia qual devia ser a resposta, especialmente se quisesse manter a sua vida tambm simples. "Acho que no devamos," era tudo o que tinha 
que dizer, e tudo terminaria ali e agora. Mas por um segundo no disse nada.
O demnio da escolha confrontou-a ento, provocou-a, desafiou-a. Porque  que ela no o podia dizer? No sabia. Mas no momento em que o olhou nos olhos para descobrir 
a resposta de que precisava, viu o homem por quem uma vez se tinha apaixonado, e de repente tudo ficou claro.
- Gostaria de vir.         
Noah ficou surpreendido. No esperava que ela respondesse assim. Quis toc-la nesse momento, abra-la, mas no o fez.
- Podes estar aqui pelo meio-dia?
- Claro. O que  que queres fazer?
- Vais ver - respondeu ele. - Sei exactamente o stio onde temos que ir.
- J alguma vez l estive?
- No, mas  um lugar especial.
- Onde ?
-  uma surpresa.
- Vou gostar?
- Vais adorar - disse ele.         
Ela virou-se antes que ele pudesse tentar beij-la. No sabia se ele iria tentar, mas sabia por alguma razo que se ele o fizesse, ia-lhe ser muito difcil obrig-lo 
a parar. E no conseguia lidar com isso neste momento, com tudo o que lhe passava pela cabea. Escorregou para trs do volante, deixando escapar um suspiro de alvio. 
Ele fechou-lhe a porta, e ela ligou o motor. Enquanto o carro aquecia, baixou o vidro apenas um bocadinho.

- At amanh - disse, com os olhos a reflectirem o luar.                 Noah acenou enquanto ela saa com o carro em marcha atrs. Deu meia volta, e depois guiou 
pelo campo acima, de frente em direco  cidade. Ele ficou a observar o carro at que as luzes desapareceram por detrs de carvalhos longnquos e o rudo esmoreceu. 
Clem coxeou at junto dele, e ele agachou-se para lhe fazer festas, dando especial ateno ao pescoo, coando-lhe o ponto que ela j no podia alcanar. Depois 
de ter olhado a estrada uma ltima vez, regressaram ao alpendre lado a lado.
Sentou-se outra vez na cadeira de balano, agora sozinho, tentando de novo aprofundar a noite que acabara de passar. A pensar nela. A repeti-la. A ver tudo de novo. 
A ouvir tudo de novo. A passar cada cena em cmara lenta. No lhe apetecia tocar viola agora, no lhe apetecia ler. No sabia o que sentia.
"Ela est noiva", murmurou por fim, e depois ficou em silncio durante horas, a cadeira de balano a fazer o nico rudo. A noite agora estava silenciosa, com pouca 
actividade a no ser por parte de Clem, que o visitava ocasionalmente, verificando como se a perguntar "Ests bem?"
E algum tempo depois da meia-noite nesse lmpido sero de Outono, veio-lhe tudo l de dentro aos supetes e Noah foi arrasado pela saudade. E se algum o tivesse 
observado, teria visto que parecia um velho, algum que tinha envelhecido uma vida num par de horas. Algum curvado na sua cadeira de balano com a cara nas mos 
e lgrimas nos olhos.
No sabia como as fazer parar.

TELEFONEMAS

Lon pousou o auscultador do telefone.         
Tinha-lhe telefonado s sete, depois s oito e meia, e agora confirmou outra vez pelo relgio. Nove e quarenta e cinco.
Por onde  que ela andava? 
Sabia que ela estaria no stio onde disse que iria estar, porque j falara antes com o gerente. :Sim, ela tinha chegado e ele tinha-a visto pela ltima vez por volta 
das seis. Sado para jantar, pensou ele. No, no a tinha visto desde ento.
Lon abanou a cabea e recostou-se para trs na cadeira. Era o ltimo no escritrio, como de costume, e tudo estava silencioso. Mas isso era normal a meio de um julgamento, 
mesmo se o julgamento estivesse a correr bem. O Direito era a sua paixo, e as horas tardias a ss davam-lhe a oportunidade de pr o trabalho em dia sem interrupes.
Sabia que ia ganhar a causa porque dominava a lei e seduzia os jurados. Sempre o tinha feito, e as perdas de processos agora eram pouco frequentes. Parte disso vinha 
do facto de ser capaz de escolher os casos que teria a habilidade de vir a ganhar. J alcanara esse nvel no exerccio da sua profisso. S alguns poucos eleitos 
tinham esse tipo de estatura na cidade, e os seus vencimentos reflectiam-no.
Mas a parte mais importante do seu sucesso vinha do trabalho rduo. Sempre dera ateno aos pormenores, especialmente quando tinha comeado a exercer. Coisas pequeninas, 
coisas obscuras, e agora tornara-se num hbito. Quer se tratasse de um caso de lei ou de apresentao, era diligente no seu estudo, o que lhe tinha ganho alguns 
casos em incio da carreira quando deveria ter perdido.
E agora, um pequeno pormenor aborrecia-o.         
No era sobre o caso. No, a corria tudo bem. Era outra coisa.
Qualquer coisa relacionada com Allie.         
Mas, raios! No conseguia detect-la. Ele estava bem quando ela partira naquela manh. Pelo menos achou que estava. Mas pouco depois do telefonema dela, talvez uma 
hora ou mais depois, algo fez clique dentro da sua cabea. O pequeno pormenor.
Pormenor.         
Alguma coisa insignificante? Alguma coisa importante?         
Pensa... pensa... Raios, o que seria?         
Na sua mente fez-se um clique.         
Qualquer coisa... qualquer coisa... que fora dita?         
Qualquer coisa que fora dita? Sim, era isso. Sabia-o. Mas o qu? Fora qualquer coisa que Allie dissera ao telefone? Isso teria sido quando comeara, e ele repassou 
a conversa toda outra vez. No, nada fora do normal.
Mas era isso, agora ele tinha a certeza.
O que  que ela tinha dito?         
A viagem correra bem, tinha-se registado no hotel, tinha feito algumas compras. Deixou o nmero. E foi tudo.

Ento pensou nela. Amava-a, tinha a certeza disso. No s era bela e encantadora, mas conseguira tornar-se na fonte da sua estabilidade e tambm na sua melhor amiga. 
Depois de um dia difcil no trabalho, era a primeira pessoa a quem telefonava. Ficava a ouvi-lo, ria nos momentos certos, e tinha um sexto sentido quanto quilo 
que ele precisava de ouvir.
Mas, mais do que isso, admirava a maneira como ela sempre dizia o que pensava. Lembrava-se de que, depois de terem sado juntos algumas vezes, ele lhe dissera o 
que costumava dizer a todas as mulheres com quem saa - que no estava preparado para uma relao fixa. Porm, ao contrrio das outras, Allie apenas acenou com a 
cabea e disse "Est bem." Mas, a caminho da porta, virou-se e acrescentou: "Mas o teu problema no sou eu, ou o teu trabalho, ou a tua liberdade, ou o que quer 
que tu penses que . O teu problema  que ests s. E o teu pai tornou famoso o nome de Hammond, e provavelmente tm-te comparado com ele toda a tua vida. Nunca 
foste tu prprio. Uma vida que te faz ficar vazio por dentro, e andas  procura de algum que, por artes mgicas, encha esse vazio. Mas ningum pode fazer isso seno 
tu prprio."
As palavras ficaram com ele nessa noite e soaram-lhe a verdadeiras na manh seguinte. Voltou a telefonar-lhe, pediu-lhe uma segunda oportunidade, e depois de alguma 
insistncia, ela acedeu com relutncia.
Durante os quatro anos em que namoraram, tinha-se tornado em tudo o que ele sempre desejara, e sabia que deveria passar mais tempo com ela. Mas a prtica do Direito 
tornava impossvel limitar-lhe as horas. Ela havia sempre compreendido mas, mesmo assim, amaldioava-se por no arranjar tempo. Logo que estivesse casado, iria reduzir 
as horas de trabalho, prometia a si prprio. Faria com que a secretria verificasse os registos na agenda para ter a certeza de que no iria demorar-se...
Registos?...         
E na sua cabea fez clique outra pea.
Registo... registar... registar no hotel?
Olhou para o tecto. Registar no hotel?
Sim, era isso. Fechou os olhos e pensou durante um segundo. No. Nada. Ento o qu?
V l, no falhes agora. Pensa, raios, pensa.
Nova Berna.         
A ideia estalou-lhe na cabea no momento. Sim, Nova Berna. Era isso. O pequeno pormenor, ou parte dele. Ento e que mais?
Nova Berna, pensou outra vez e conhecia o nome. Conhecia um pouco a cidade, em grande parte por causa de alguns julgamentos em que tinha participado. Parara ali 
umas poucas de vezes a caminho da costa. Nada de especial. Ele e Allie nunca l tinham ido juntos.
Mas Allie j l tinha estado antes...
E a trituradora apertou, outra pea a encaixar no conjunto.
Outra pea... mas havia mais...
Allie, Nova Berna... e... e... qualquer coisa numa festa. Um comentrio que ouvira ao passar. Feito pela me de Allie. Quase nem havia reparado nele. Mas o que  
que ela tinha dito?
E Lon empalideceu ento, ao recordar. Ao recordar o que fora dito h tanto tempo. Ao recordar o que a me de Allie dissera. Era qualquer coisa acerca de Allie uma 
vez ter estado apaixonada por um rapaz de Nova Berna. Chamou-lhe uma paixoneta infantil. E depois?, tinha ele pensado quando a ouviu, e virara-se para sorrir a Allie.

Mas ela no retribura o sorriso. Ficara zangada. E ento Lon adivinhou que tinha amado aquela pessoa muito mais profundamente do que a me sugerira. Talvez at 
mais profundamente do que o amava a ele.
E agora ela estava l. Interessante.         
Lon juntou as palmas das mos, como se estivesse a rezar, descansando-as de encontro aos lbios. Coincidncia? Podia no ser nada. Podia ser exactamente apenas o 
que ela dissera. Podia ser o cansao e a compra de antiguidades. Possivelmente. Provavelmente at.
Porm... porm... e se?         
Lon considerou a outra possibilidade, e pela primeira vez em muito tempo, ficou assustado.
E se? E se ela est com ele?         
Amaldioou o julgamento, desejando que j tivesse acabado.         
Desejando ter ido com ela. Perguntando-se se ela lhe tinha dito a verdade, esperando que tivesse.         
E, nesse momento, tomou a deciso de no a perder. Faria tudo o que fosse preciso para a conservar. Ela era tudo o que sempre precisara, e nunca encontrara ningum 
que se lhe assemelhasse.
Assim, com as mos a tremer, marcou o nmero pela quarta e ltima vez naquela noite.
E mais uma vez no obteve resposta.

CAIAQUES E SONHOS ESQUECIDOS

Allie acordou cedo na manh seguinte, forada pelo incessante chilrear dos estorninhos, e esfregou os olhos, sentindo a rigidez do corpo. No tinha dormido bem, 
a acordar depois de cada sonho, e recordava-se de ver os ponteiros do relgio em diferentes posies durante a noite, como se a confirmar a passagem do tempo.
Tinha dormido vestida com a camisa macia que ele lhe dera, e mais uma vez inspirou o cheiro dele enquanto pensava na noite que haviam passado juntos. O riso fcil 
e a conversa voltaram-lhe  memria, e lembrava-se especialmente da maneira como falara da pintura dela. Fora to inesperado, e reconfortante, e enquanto as palavras 
voltavam a repassar-lhe na cabea, apercebeu-se de como ficaria arrependida se tivesse decidido no o ver outra vez.
Olhou para fora da janela e observou os pssaros a palrar  procura da comida na luz matinal. Noah, ela sabia, tinha sido sempre uma pessoa madrugadora que saudava 
a aurora  sua prpria maneira. Sabia que ele gostava da andar de caiaque ou de canoa, e recordava-se da manh que tinha passado com ele na canoa, a observar o Sol 
a nascer. Tinha tido que se escapulir pela janela para o fazer, porque os pais no lho iriam permitir, mas no fora apanhada e recordava-se agora de como Noah lhe 
tinha passado o brao pelos ombros e a tinha puxado para si enquanto a aurora comeava a desdobrar-se. "Olha ali," sussurrara, e ela observara o seu primeiro nascer 
do Sol com a cabea sobre o ombro dele, perguntando-se se podia existir algo de melhor do que o que estava a acontecer naquele momento.
E quando saiu da cama para tomar banho, sentindo o cho frio sob os ps, perguntava-se se ele teria estado na gua nesta manh para observar o comeo de outro dia, 
pensando que provavelmente sim.

Estava certa.         
Noah tinha-se levantado antes do Sol e vestido rapidamente, as mesmas calas de ganga da noite anterior, camisola interior, uma camisa de flanela limpa, casaco azul 
e botas. Lavou os dentes antes de descer, bebeu rapidamente um copo de leite, e agarrou em dois biscoitos a caminho da porta. Depois de Clem o saudar com um par 
de lambidelas molhadas, foi at  doca onde tinha guardado o caiaque. Gostava de deixar o rio exercer a sua magia, descontrair-lhe os msculos, aquecer-lhe o corpo, 
clarear-lhe a mente.

O velho caiaque, muito usado e manchado pelo rio, estava pendurado em dois ganchos ferrugentos pregados no ponto, mesmo acima da linha de gua para manter as bernacas 
 distncia. Levantou-o, libertando-o dos ganchos e pousou-o aos ps, inspeccionou-o rapidamente, depois levou-o para a margem. Num par de movimentos h muito amadurecidos 
pelo hbito, estava na gua a fazer o seu caminho ribeiro acima, consigo prprio a servir de piloto e motor.

O ar passava-lhe frio na pele, quase spero, e o cu era uma neblina de cores diferentes: preto imediatamente acima dele como o pico de uma montanha, depois azuis 
de um alcance infinito, tornando-se mais claros at que se cruzavam com o horizonte, onde eram substitudos pelo cinzento. Deu algumas inspiraes fundas, cheirando 
os pinheiros e a gua salobra, e comeou a reflectir. Isto era parte do que mais saudades lhe fizera quando vivia no Norte. Por causa das longas horas no trabalho, 
ficara-lhe pouco tempo para passear na gua. Acampar, andar  boleia, chapinhar nos rios, namorar, trabalhar... alguma coisa tinha tido que ser abandonada. Em grande 
parte fora-lhe possvel explorar o campo de Nova Jersey a p sempre que tivera algum tempo disponvel, mas em catorze anos no andara de caiaque ou de canoa nem 
uma nica vez. E foi uma das primeiras coisas que fez assim que regressou.
Existe algo de especial, quase mstico, em passar a aurora dentro de gua, pensou para si, e agora fazia-o quase todos os dias. Estivesse sol e tempo claro, ou frio 
e escuro, nunca lhe importava enquanto movia os remos ao ritmo da msica dentro da sua cabea, trabalhando acima da gua cor de ferro. Viu uma famlia de tartarugas 
a descansar num tronco parcialmente submerso e ficou a observar uma gara real a iniciar o voo, planando sobre a gua antes de se desvanecer no crepsculo de prata 
que precede o nascer do Sol.
Remou at ao meio do rio, de onde reparou na incandescncia laranja a comear a estender-se sobre a gua. Deixou de remar com fora, despendendo apenas o esforo 
suficiente para ficar no mesmo stio, a observar at que a luz comeou a rebentar por entre as rvores. Sempre gostara de fazer uma pausa ao nascer do dia - havia 
um momento em que a vista era espectacular, como se o mundo estivesse a nascer outra vez. Depois comeou a remar com fora, a desgastar a tenso, a preparar-se para 
o dia.
Enquanto o fazia, perguntas danavam-lhe na cabea como gotas de gua numa frigideira quente. Questionava-se sobre Lon e que tipo de homem seria, interrogava-se 
sobre a relao entre os dois. Mais que tudo, porm, perguntava-se sobre Allie e o motivo da vinda dela.
Pela altura em que chegou a casa, sentiu-se renovado. Olhou o relgio, ficou surpreendido por descobrir que demorara duas horas. Porm o tempo ali sempre lhe pregara 
partidas, e h meses que deixara de se preocupar com isso.
Pendurou o caiaque para secar, esticou-se durante uns dois minutos, e foi at ao barraco onde guardava a canoa. Carregou com ela at  margem, deixando-a a poucos 
metros da gua, e quando se virou na direco da casa sentiu que as pernas ainda estavam um pouco rgidas.
A neblina matinal no se tinha evaporado ainda, e sabia que a rigidez nas pernas normalmente era prenncio de chuva. Olhou para o cu a ocidente e viu nuvens de 
tempestade, espessas e pesadas, distantes mas definitivamente presentes. Os ventos no sopravam com fora, mas comeavam a juntar as nuvens. Pelo aspecto delas, 
no gostaria de estar na rua quando chegassem ali. Raios. Quanto tempo tnhamos? Umas poucas de horas, talvez mais. Talvez menos.
Tomou um duche, vestiu calas de ganga lavadas, uma camisa vermelha e botas de cowboy pretas, escovou o cabelo, e desceu at  cozinha. Lavou os pratos da noite 
anterior, arrumou a casa aqui e ali, fez caf e foi at ao alpendre. O cu agora estava mais escuro, e olhou para o barmetro. Mantinha-se firme, mas em breve comearia 
a descer. O cu a ocidente prometia-lhe isso.

H muito que aprendera a nunca subestimar o tempo, e perguntou-se se seria boa ideia sair. A chuva aguentava-se bem, mas com relmpagos era outra histria. Especialmente 
se andasse na gua. Uma canoa no era lugar para se estar quando a electricidade faiscava no ar hmido.
Acabou o caf, e adiou a deciso para mais tarde. Foi at  arrecadao das ferramentas e pegou num machado. Depois de verificar a lmina premindo-a contra o polegar, 
afiou-a na pedra at estar pronta. "Um machado rombo  mais perigoso que um afiado," costumava dizer-lhe o pai.
Os vinte minutos seguintes passou-os a partir lenha e a amontoar os toros. F-lo com facilidade, os golpes eficientes, e nem sequer ficou a suar. Ps alguns toros 
de parte para mais tarde e levou-os para dentro depois de ter acabado, colocando-os ao lado da lareira.
Olhou de novo para a pintura de Allie e estendeu a mo para lhe tocar, o que fez regressar o sentimento de incredulidade por v-la de novo. Meu Deus, o que  que 
ela tinha que o fazia sentir-se assim? Mesmo depois de todos estes anos? Que tipo de poder teria sobre ele?
Virou-se por fim, abanando a cabea, e regressou ao alpendre. Olhou de novo para o barmetro. No tinha mudado. Depois olhou para o relgio.
Allie no tardaria a chegar.

Allie tinha acabado de tomar banho e j estava vestida. Um pouco antes tinha aberto a janela para verificar a temperatura. No estava frio l fora, e decidiu usar 
um vestido creme, de Primavera, com mangas compridas e decote subido. Era macio e confortvel, talvez um bocadinho fechado de mais, mas tinha bom aspecto, e depois 
escolhera umas sandlias brancas a condizer.
Passou a manh a andar por ali no centro da cidade. A Depresso tinha feito ali as suas baixas, mas podia ver os sinais do regresso da prosperidade a comearem a 
abrir caminho. O teatro Masonic, o mais antigo e ainda aberto na provncia, parecia um bocadinho mais arruinado, mas estava a funcionar com filmes recentes. O parque 
do forte Totten parecia exactamente o mesmo que fora h catorze anos, e pressups que as crianas que brincavam nos baloios depois da escola tambm pareciam iguais. 
Sorriu ento s recordaes, pensando como as coisas tinham sido mais simples. Ou pelo menos aparentavam ser.
Agora, como parecia, nada era simples. Parecia to improvvel, tudo a encaixar no seu lugar como encaixara, e perguntava-se o que estaria a fazer neste momento, 
se por acaso no tivesse visto o artigo no jornal. No era muito difcil de imaginar, porque as rotinas dela raramente mudavam. Era quarta-feira, o que significava 
bridge no clube de campo, e a seguir a ida  Liga das jovens Mulheres, onde provavelmente estariam a organizar outra festa para angariao de fundos para uma escola 
ou hospital privados. Depois disso, uma visita com a me, e depois ir para casa para se preparar para jantar com Lon, porque ele fazia questo de sair do trabalho 
s sete. Era a nica noite da semana em que o via regularmente.

Suprimiu um sentimento de tristeza quanto a esse assunto, esperando que um dia ele pudesse mudar. J lho tinha prometido muitas vezes e normalmente cumpria a promessa 
durante algumas semanas antes de deslizar para o horrio antigo. "Hoje no posso, querida," explicava sempre. "Lamento, mas no posso. Depois compenso-te."
Ela no gostava de discutir com ele sobre isso, na maior parte das vezes porque sabia que ele era sincero. O trabalho de tribunal era muito exigente, tanto antes 
como durante os julgamentos, porm ela s vezes no conseguia deixar de pensar por que  que ele passara tanto tempo a cortej-la se no queria agora ficar mais 
tempo com ela.
Passou diante de uma galeria de arte, quase no a vendo, concentrada nas suas preocupaes, virou-se e voltou para trs. Fez uma pausa  porta por um segundo, surpreendida 
por no Ter visitado nenhuma h tanto tempo. Pelo menos trs anos, ou talvez mais. Porque  que as tinha evitado?
Entrou - tinha aberto com o resto das lojas na rua principal - e foi bisbilhotar as pinturas. Muitos dos artistas eram da regio, e havia um forte cheiro a mar nas 
suas obras. Muitas cenas martimas, praias arenosas, pelicanos, velhos navios  vela, rebocadores, pontes e gaivotas. Mas, mais que tudo, ondas. Ondas de todas 
as formas, tamanhos e cores imaginveis, e passado um bocado pareciam todas iguais. Ou os artistas tinham pouca inspirao ou eram preguiosos, pensou.
Numa parede, porm, havia alguns quadros mais prximos do seu gosto. Eram todos de uma autora de que nunca ouvira falar, Elayn, e em grande parte parecia ter sido 
inspirada pela arquitectura das ilhas gregas. Na pintura de que gostou mais reparou que a artista tinha propositadamente exagerado a cena com figuras mais pequenas 
que o tamanho real, linhas largas, e pesadas pinceladas de cor, como se no estivesse bem focada. Porm as cores eram vvidas e em turbilho, atraindo o olhar, quase 
dirigindo-o para o que deveria ver a seguir. Era dinmico e dramtico. Quanto mais pensava naquilo, tanto mais gostava, e considerou comprar uma tela antes de se 
aperceber que gostava porque lhe recordava o seu prprio trabalho. Examinou-a mais de perto e pensou para consigo que talvez Noah tivesse razo. Talvez ela devesse 
recomear a pintar.
s nove e meia Allie deixou a galeria e foi at Hoffman-Lane, um centro comercial na parte baixa da cidade. Levou alguns minutos at descobrir o que vinha  procura, 
mas estava ali, na seco de artigos escolares. Papel, pastel e lpis, no de grande qualidade mas suficientemente bons. No era pintura, mas era um comeo, e j 
se sentia entusiasmada na altura em que chegou ao quarto. Sentou-se  secretria e comeou a trabalhar. Nada de especfico, apenas a experimentar outra vez o sentimento 
da coisa, deixando as formas e as cores fluir da memria da sua juventude. Depois de alguns minutos de abstraco, fez um esboo rude da cena de rua que via da sua 
janela, divertida pelo facto de lhe sair to facilmente. Era quase como se ela nunca tivesse parado.
Examinou-a quando acabou, contente com o esforo. Perguntou-se o que poderia tentar a seguir e por fim decidiu-se. Dado que no tinha um modelo, visualizou-o na 
cabea antes de comear. E embora fosse mais difcil do que a cena de rua, saiu naturalmente e comeou a tomar forma.

Os minutos passaram depressa. Trabalhou afincadamente mas verificava o tempo com assiduidade para que no se atrasasse, e acabou-o um pouco antes do meio-dia. Tinha 
levado quase duas horas, mas o resultado final surpreendeu-a. Parecia que demorara muito mais tempo. Depois de o enrolar, p-lo num saco e pegou no resto das coisas. 
Ao sair a porta olhou-se no espelho, sentindo-se estranhamente descontrada, sem saber exactamente porqu.
Escadas abaixo e porta fora. Ia a sair quando ouviu uma voz atrs de si.
- Menina?         
Virou-se, sabendo que era consigo. O gerente. O mesmo homem de ontem, uma expresso de curiosidade na cara.
- Sim?
- Teve algumas chamadas telefnicas ontem  noite.
Ficou surpreendida.
- Tive?
- Sim. Todas de um senhor Hammond.         
Oh, Meu Deus.
- Lon telefonou?
- Sim senhora, quatro vezes. Falei com ele quando ligou da segunda vez. Estava assim preocupado consigo. Ele disse que era o seu noivo.
Ela sorriu fracamente, tentando esconder os pensamentos. Quatro vezes? Quatro? O que poderia isso significar? E se tivesse acontecido alguma coisa em casa?
- Ele disse alguma coisa? Era uma emergncia?         
Abanou a cabea rapidamente a negar.
- De facto ele no disse, menina, mas tambm no referiu nada em especial. De facto, ele parecia era mais preocupado consigo.
Bom, pensou ela. Isso  bom. E ento, igualmente sbita, uma pancada no peito. Porqu a urgncia? Porqu tantas chamadas? Tinha ela dito alguma coisa ontem? Porque 
estava ele to insistente? Era completamente estranho aos seus hbitos.
Haveria alguma maneira pela qual ele pudesse ter descoberto?
No... era impossvel. A no ser que algum a tivesse visto ali ontem e tivesse telefonado... Mas teriam tido que a seguir at  casa de Noah. Ningum teria feito 
tal coisa.
Agora tinha que lhe telefonar, no havia maneira de contornar a situao. Mas, estranhamente, no lhe apetecia. Este era o tempo dela, e queria gast-lo a fazer 
o que queria. No tinha planeado falar com ele a no ser mais tarde, e por um motivo qualquer sentia que falar com ele agora podia estragar-lhe o dia. Alm disso, 
o que iria dizer? Como podia explicar ter estado fora at to tarde? Um jantar tardio e depois um passeio? Talvez. Uma ida ao cinema? Ou...
- Menina?         
Quase meio-dia, pensou ela. Onde  que ele estaria? Provavelmente no escritrio... No. No tribunal, apercebeu-se de repente, e imediatamente sentiu como se tivesse 
sido libertada de algemas. No havia maneira de falar com ele, mesmo que quisesse. Ficou surpreendida com as suas emoes. No devia sentir-se assim, ela sabia, 
e todavia no lhe interessava. Olhou para o relgio, e comeou a fazer teatro.
-  mesmo quase meio-dia?
O gerente confirmou com a cabea depois de olhar para o relgio de parede.
- Sim, um quarto para o meio-dia, mais exactamente.

- Infelizmente - comeou ela -, ele est no tribunal agora mesmo e no vou conseguir apanh-lo. Se ele voltar a telefonar, podia dizer-lhe que eu fui s compras 
e que tentarei ligar-lhe logo?
- Claro - respondeu ele. Porm ela podia ver a pergunta nos olhos dele: mas por onde  que andaste ontem  noite? Ele sabia exactamente as horas a que ela tinha 
regressado. Demasiado tarde para uma mulher sozinha nesta pequena cidade, ela tinha a certeza.

- Obrigada - disse a sorrir -, ficava-lhe muito grata.         
Dois minutos mais tarde estava no carro, a conduzir at casa de Noah, antecipando o dia, muito pouco preocupada com as chamadas telefnicas. Ontem teria ficado, 
e perguntava-se o que  que isso quereria dizer.
Quando ia a passar por cima da ponte mvel, menos de quatro minutos depois de abandonar a estalagem, Lon telefonou do tribunal.

GUAS MOVEDIAS

Noah estava sentado na sua cadeira de balano, a beber ch doce,  espera do rudo de um carro, quando finalmente o ouviu fazer a curva estrada acima. Foi at  
frente da casa e ficou a observar a viatura a entrar e estacionar de novo debaixo do carvalho. No mesmo stio da vspera. Clem ladrou uma saudao  porta do carro 
dela, de cauda a abanar, e viu Allie a acenar-lhe l de dentro.
Saiu, deu uma palmadinha na cabea a Clem enquanto arrulhava com ela, sorrindo para Noah que vinha na sua direco. Parecia mais descontrada que ontem, mais confiante 
e de novo ele sentiu um ligeiro choque ao rev-la. Porm, era diferente do da vspera. Sentimentos novos agora, no apenas memrias. Se alguma coisa acontecera, 
a atraco dele por ela tinha crescido mais forte durante a noite, mais intensa, e fazia-o sentir-se ligeiramente nervoso na presena dela.
Allie veio ter com ele a meio do caminho, trazendo uma pequena mala numa mo. Surpreendeu-o ao beij-lo docemente na face, com a mo direita a demorar-se na cintura 
dele depois de se afastar.
- Ol - disse, com os olhos a brilhar , - onde est a surpresa?         
Ele descontraiu-se um pouco, agradecendo a Deus por isso.
- Nem sequer um Boa-tarde, ou passaste bem a noite?
Ela sorriu. A pacincia nunca tinha sido um dos seus atributos mais fortes.
- Est bem. Boa tarde. Passaste bem a noite' E onde  que est a surpresa?
Ele riu entre dentes, depois fez uma pausa.
- Allie, tenho ms notcias.
- Quais?
- Ia levar-te a um lugar, mas com aquelas nuvens a aproximarem-se, j no tenho a certeza se deveramos ir.
- Porqu?
- A tempestade. Estaremos fora e podemos ficar molhados. Alm disso, pode haver relmpagos.
- Mas ainda no est a chover.  muito longe?
- Ribeiro acima por cerca de meio quilmetro.
- E eu nunca l estive?
- No da maneira que est agora.
Ela ficou a pensar durante um instante enquanto olhava em volta. Quando falou, havia determinao na voz.
- Ento vamos. No me interessa se chove.
- Tens a certeza?
- Absoluta.         
Ele olhou de novo para as nuvens, reparando que se aproximavam.
- Ento  melhor irmos j - disse. - Posso levar-te isso l para dentro?
Ela acenou com a cabea entregando-lhe a mala e ele, meio a correr at casa, levou-a para dentro, colocando-a numa cadeira da sala. Depois agarrou num pouco de po 
e p-lo num saco, trazendo-o consigo quando saiu.
Foram at  canoa, Allie ao lado dele. Um pouco mais prxima que no dia anterior.
- Ento o que  ao certo esse lugar?
- Vais ver.

- No vais sequer dar-me uma pista?
- Bom - disse ele -, lembras-te quando levmos a canoa e fomos ver o nascer do Sol?
- Pensei nisso hoje de manh. Lembro-me que me fez chorar.
- O que vais ver hoje vai fazer parecer vulgar o que viste ento.
- Calculo que tenha que me sentir especial.
Ele deu mais alguns passos antes de responder.
- Tu s especial - disse por fim, e a maneira como o disse deixou-a a pensar se ele quereria acrescentar mais alguma coisa. Mas no acrescentou, e Allie sorriu um 
pouco antes de desviar os olhos. Enquanto o fazia, sentiu o vento na cara e reparou que se tinha tornado mais forte desde a manh.
Chegaram  doca num instante. Depois de atirar o saco para a canoa, Noah verificou tudo rapidamente para confirmar que no se esquecera de nada, e impeliu-a para 
a gua.
- Posso fazer alguma coisa?
- No, s entrar l para dentro.         
Assim que ela entrou, ele empurrou a embarcao mais para dentro de gua, junto  doca. Depois saltou graciosamente do ponto para a canoa, colocando os ps com 
cuidado para evitar que se virasse. Allie ficou impressionada com a agilidade dele, sabendo que o que ele fizera to rpida e facilmente era mais difcil do que 
parecia.
Allie sentou-se na parte da frente da canoa, de frente para a r. Ele tinha dito qualquer coisa acerca de perder a vista quando comeasse a remar, mas ela abanou 
a cabea, dizendo que estava bem assim.
E era verdade.         
Podia ver tudo aquilo que de facto queria ver se virasse a cabea mas, mais que tudo, queria observar Noah. Era ele quem ela tinha vindo ver, e no o rio. Tinha 
a camisa desabotoada em cima, e podia ver-lhe os msculos do peito a flectirem-se com cada movimento. Tambm tinha as mangas arregaadas, e ela podia admirar-lhe 
os msculos dos braos a incharem ligeiramente. Os msculos estavam bem desenvolvidos ali de remar todas as manhs.
Artstico, pensou ela. H algo de quase artstico em torno dele quando faz isto. Qualquer coisa natural, como se andar na gua estivesse para alm do controle dele, 
fosse parte de um gene que lhe havia sido passado de algum fundo hereditrio. Quando o observava, recordava-se de como deveriam ter parecido os primeiros exploradores 
quando inicialmente descobriram esta rea.
No conseguia lembrar-se de mais ningum que sequer remotamente se lhe assemelhasse. Ele era complicado, quase contraditrio em tantas maneiras, porm simples, uma 
combinao estranhamente ertica.  superfcie era um rapaz do campo, regressado a casa da Guerra, e provavelmente encarava-se nesses termos. Porm, havia tantas 
coisas mais. Talvez fosse a poesia que o fizesse diferente, ou talvez os valores que o pai lhe instilara ao crescer. De qualquer maneira, parecia saborear a vida 
de uma forma mais completa do que as outras pessoas, e fora isso que em primeiro lugar a atrara para ele.
- Em que ests a pensar?         

Sentiu o estmago dar um saltinho quando a voz de Noah a fez regressar ao presente. Apercebeu-se de que no tinha falado muito desde que tinham comeado, e apreciou 
o silncio que ele proporcionara. Sempre tivera consideraes destas.
- Coisas boas - respondeu ela docemente, e viu nos olhos dele que tinha percebido que pensava nele. Ela gostou de que o soubesse, e esperava que tambm tivesse estado 
a pensar nela.
Compreendeu ento que alguma coisa se comeava a agitar dentro de si, como acontecera h tantos anos. Observ-lo, observar o corpo dele a mexer-se, fazia-a senti-lo. 
E quando os olhos se demoraram por um segundo mais, sentiu um calor no pescoo e nos seios, e corou, desviando os olhos antes que ele desse por isso.
- Ainda falta muito?
- Mais uns duzentos e cinquenta metros, mais ou menos. No mais que isso.
Um silncio. Depois ela disse:         
- Isto aqui  bonito. To limpo. To calmo.  quase como voltar atrs no tempo.
- De certa forma at , acho eu. O rio corre da floresta. No h uma nica quinta entre esta parte e a nascente, e a gua  pura como a chuva. Provavelmente to 
pura como sempre foi.
Inclinou-se para ele.
- Diz-me, Noah, de que  que te lembras mais do Vero que passmos juntos?
- Lembro-me de tudo.
- Nada em particular?
- No - disse ele.
- No te lembras?         
Ele respondeu um momento depois, calma, seriamente.
- No, no  isso. No  o que ests a pensar. Eu estava a falar a srio quando disse que me lembro de tudo. Posso recordar todos os momentos que passmos juntos, 
e em cada um deles havia qualquer coisa de maravilhoso. No posso de facto escolher um momento que tenha sido mais significativo que outro. Todo o Vero foi perfeito, 
o tipo de Vero que toda a gente deveria ter. Como poderia escolher um momento em vez de outro? - Os poetas muitas vezes descrevem o amor como uma emoo que no 
podemos controlar, uma emoo que abafa a lgica e o senso comum. Foi o que aconteceu comigo. Eu no planeei apaixonar-me por ti, e duvido que tenhas planeado apaixonares-te 
por mim. Mas uma vez que nos encontrmos, ficou claro que nenhum de ns podia controlar o que nos estava a acontecer. Ficmos apaixonados, apesar das nossas diferenas, 
e assim que o ficmos, algo de raro e maravilhoso foi criado. Para mim, um amor como aquele acontece apenas uma vez, e  por isso que cada minuto que passmos juntos 
ficou gravado na minha memria. Nunca esquecerei um nico momento.
Allie ficou a olhar para ele. Nunca ningum lhe tinha dito uma coisa assim antes. Nunca. Ela no sabia o que responder e ficou em silncio, com a cara vermelha.
- Lamento se te fiz sentir pouco  vontade, Allie. No tinha inteno disso. Mas aquele Vero ficou comigo e ficar para sempre. Sei que no pode voltar a ser o 
mesmo entre ns, mas isso no muda o que senti em relao a ti naquela altura.
Ela falou devagar, sentindo-se emocionada.

- No me fizeste sentir pouco  vontade, Noah...  s que nunca ouvi coisas assim. O que disseste foi maravilhoso.  preciso ser poeta para falar da maneira como 
tu falas, e como disse, tu s o nico poeta que eu conheci.
Um silncio tranquilo desceu sobre eles. Uma guia-marinha gritou algures na distncia. Um salmonete saltou junto  margem. Os remos moviam-se ritmadamente, fazendo 
pequenas ondas que balanavam muito ligeiramente o barco de cada vez. A brisa tinha parado, e as nuvens engrossavam, mais escuras,  medida que a canoa se movia 
em direco a um destino desconhecido.
Allie reparava em tudo, cada som, cada pensamento. Os sentidos tinham-se reanimado, revigorando-a, e sentiu a mente a vaguear pelas ltimas semanas. Pensou na ansiedade 
que vir aqui lhe tinha causado. O choque ao ver o artigo, as noites sem dormir, a m disposio durante o dia. At mesmo ontem tinha tido medo e queria fugir. Agora 
a tenso tinha desaparecido, todos os bocadinhos dela, fora substituda por outra coisa, e ela sentia-se contente por isso enquanto cavalgava em silncio na velha 
canoa vermelha.
Sentiu-se estranhamente satisfeita por ter vindo, feliz por Noah se ter transformado no tipo de homem que ela achava que seria agora, contente por saber que viveria 
para sempre com esse conhecimento. Nos ltimos anos tinha visto demasiados homens destrudos pela Guerra, pelo tempo, ou mesmo pelo dinheiro. Era preciso fora para 
se agarrar  paixo interior, e Noah tinha-o conseguido.
Isto era um mundo de trabalhadores, no de poetas, e as pessoas teriam muita dificuldade em entender Noah. A Amrica agora estava em pleno desenvolvimento, diziam-no 
todos os jornais, e as pessoas corriam para diante, deixando para trs os horrores da Guerra. Ela compreendia os motivos, mas corriam, como Lon, em direco a longas 
horas de trabalho e lucros, negligenciando as coisas que traziam beleza ao mundo.
Quem  que ela conhecia em Raleigh que pusesse tempo de parte para consertar uma casa? Ou para ler Whitman ou Eliot, encontrando na mente imagens, pensamentos do 
esprito? Ou perseguisse a aurora do aro de uma canoa? Estas no eram as coisas que motivavam a sociedade, mas sentia que no deviam ser consideradas como pouco 
importantes. Eram elas que faziam valer a pena viver.
A ela acontecia-lhe o mesmo com a arte, embora se tivesse apercebido disso apenas ontem, ao vir aqui. Ou antes, recordado isso. j o soubera antes, e de novo se 
amaldioava por ter esquecido uma coisa to importante como criar beleza. Pintar era o que tinha que fazer, e estava certa disso agora. As suas emoes naquela manh 
tinham-lho confirmado, e sabia que o que quer que acontecesse, ia dar-lhe outra oportunidade. Uma oportunidade justa, independentemente do que dissesse quem quer 
que fosse.
Iria Lon encoraj-la a pintar? Recordava-se de lhe ter mostrado um dos seus quadros alguns meses antes de terem comeado a sair juntos. Era uma pintura abstracta 
e destinada a inspirar o pensamento. De alguma maneira, tinha semelhanas com o quadro por cima da lareira de Noah, aquele que Noah compreendia completamente, embora 
pudesse ter sido um pouco menos apaixonado. Lon tinha ficado a olhar para o quadro, quase a estud-lo, e depois tinha-lhe perguntado o que  que aquilo pretendia 
significar. No se tinha dado ao trabalho de lhe responder.

Abanou a cabea na altura, sabendo que no estava a ser completamente justa. Ela amava Lon, e sempre amara, por outros motivos. Embora ele no fosse Noah, Lon era 
um homem bom, o tipo de homem com quem sempre soubera que iria casar. Com Lon no haveria surpresas, e havia algum conforto em saber o que o futuro traria. Ele iria 
ser um bom marido para ela, e ela seria uma boa esposa. Teria um lar perto dos amigos e da famlia, crianas, um lugar respeitvel na sociedade. Era o tipo de vida 
que sempre esperara vir a viver, o tipo de vida que ela queria viver. E embora no descrevesse a relao entre eles como apaixonada, tinha-se convencido h muito 
que isso no era necessrio para se sentir realizada numa relao, mesmo com a pessoa com quem tencionava casar. A paixo desvanecia-se com o tempo, e coisas como 
o companheirismo e compatibilidade tomariam o seu lugar. Ela e Lon tinham isto, e resolvera que isto era tudo o que precisava.
Mas agora, enquanto olhava Noah a remar, questionava estas suposies bsicas. Ele exsudava sexualidade em cada coisa que fazia, tudo o que era, e ela deu consigo 
a pensar nele de uma maneira que uma mulher comprometida no deveria pensar. Tentava no olhar fixamente para ele, desviava os olhos muitas vezes, mas a maneira 
fcil como ele movia o corpo tornava-lhe difcil manter os olhos desviados durante muito tempo.
- Aqui estamos - disse Noah a guiar a canoa em direco a umas poucas de rvores junto  margem.
Allie olhou em volta, sem ver nada.
- Onde ?         
- Aqui - disse ele de novo, apontando a canoa para uma velha rvore cada, obscurecendo uma abertura quase completamente escondida  vista.
Guiou a canoa a contornar a rvore, e ambos tiveram que baixar a cabea para no bater nela.
- Fecha os olhos - sussurrou ele, e Allie fechou, pondo as mos na cara. Ouviu o ondular da gua e sentiu o movimento da canoa enquanto ele a movia por diante, longe 
da corrente do ribeiro.
- J podes - disse finalmente depois de ter parado de remar. - J os podes abrir agora.

CISNES E TEMPESTADES

Estavam no meio de um pequeno lago alimentado pelas guas do ribeiro de Brices. No era grande, talvez com uns cem metros de largura, e ela ficou surpreendida como 
estivera invisvel apenas alguns momentos antes.
Era espectacular. Cisnes da tundra e gansos do Canad circundavam-nos literalmente. Milhares deles. Pssaros a flutuar to juntos nalguns dos stios que ela no 
conseguia ver a gua.  distncia, os grupos de cisnes pareciam quase icebergues.
- Oh, Noah - disse ela por fim baixinho -,  maravilhoso. Ficaram sentados em silncio durante um longo tempo, a observar os pssaros. Noah apontou para um grupo 
de crias acabadas de sair da casca, a seguir um grupo de gansos perto da margem, atabalhoados para se manterem  tona de gua.
O ar estava cheio de grasnidos e chilreios enquanto Noah movia a canoa sobre a gua. Os pssaros ignoraram-nos em grande parte do caminho. Os nicos que pareciam 
incomodados eram os que eram obrigados a mexerem-se quando a canoa se aproximava deles. Allie estendeu o brao para tocar nos que estavam mais perto e sentiu-lhes 
as penas a estremecerem-lhes sob os dedos.
Noah pegou no saco de po que tinha trazido e passou-o a Allie. Ela atirou o po, favorecendo os mais pequeninos, rindo e sorrindo enquanto eles nadavam em crculos 
 procura da comida.
Ficaram at ouvir um trovo ribombar  distncia - tnue mas poderoso - e ambos souberam que era tempo de partir.
Noah levou-os de volta at  corrente do rio, a remar com mais fora do que antes. Ela ainda estava espantada com o que acabara de ver.
- Noah, que fazem eles aqui?
- No sei. Sei que os gansos do Norte migram para o lago Matamuskeet todos os Invernos, mas desconfio que este ano vieram para aqui. No sei porqu. Talvez as primeiras 
tempestades de neve tenham algo a ver com isso. Talvez se tenham desviado da rota ou algo parecido. Mas eles descobriro o caminho de volta.
- No vo ficar?
- Duvido. So guiados pelo instinto, e este no  o lugar deles. Alguns destes gansos Podem passar aqui o Inverno, mas os cisnes vo voltar para Matamuskeet.
Noah remou com mais fora, vendo as nuvens escuras a rolar-lhes directamente por cima das cabeas. Logo a seguir a chuva comeou a cair, primeiro uns salpicos leves, 
depois pingos gradualmente mais grossos. Relmpago... uma pausa... depois o trovo outra vez. Agora um pouco mais forte. Talvez a trs ou quatro quilmetros de distncia. 
Mais chuva enquanto Noah passava a remar ainda com mais fora, os msculos a contrarem-se com cada esforo.
Gotas mais grossas agora.
A cair...
A cair com o vento...        
A cair duras e espessas... Noah a remar... a correr contra o cu... ainda a ficar molhado... Praguejando para dentro... a perder contra a Me Natureza...

A carga de gua estabilizara-se agora, e Allie observava a chuva a cair diagonalmente do cu, tentando desafiar a gravidade enquanto cavalgava os ventos ocidentais 
que assobiavam por cima das rvores. O cu escureceu um pouco mais, e grandes gotas pesadas caam das nuvens. Gotas de ciclone
Allie gostava da chuva e estendeu a cabea para trs durante um momento para deixar que lhe casse sobre a cara. Sabia que a parte da frente do seu vestido iria 
ficar encharcada em poucos minutos, mas no se importava. Ficou porm a perguntar-se se ele daria por isso, depois achou que Provavelmente j tinha dado.
Passou as mos pelo cabelo molhado. A sensao era boa, ela sentia-se lindamente, tudo se sentia lindamente. Mesmo atravs da chuva, conseguia ouvi-lo a respirar 
com esforo e o som excitou-a sexualmente de uma maneira que j no experimentava h anos.
Uma nuvem rebentou directamente por cima deles, e a chuva comeou a cair ainda com mais fora. Mais fora do que ela alguma vez vira. Allie olhou para cima e riu, 
desistindo de qualquer tentativa de se conservar seca, levando Noah a descontrair-se melhor. Ele no sabia como ela se estava a sentir com aquilo tudo. Mesmo apesar 
de ter sido ela a tomar a deciso de virem, duvidava que esperasse ser apanhada numa tempestade como esta.
Alcanaram a doca uns minutos mais tarde, e Noah aproximou-se o bastante para Allie poder sair, depois subiu ele e arrastou a canoa pela margem o longe suficiente 
para no ser arrastada pelas guas. Por via das dvidas, atou-a  doca, sabendo que mais um minuto debaixo de chuva j no iria fazer qualquer diferena.
No momento em que atava a canoa, olhou para Allie e ficou sem respirao por um segundo. Ela estava incrivelmente bela enquanto esperava, a observ-lo, completamente 
 vontade debaixo da chuva. No tentava fugir nem proteger-se, e ele podia ver-lhe o contorno dos seios a querer romper atravs do tecido do vestido que se lhe colava 
ao corpo. A chuva no era fria, mas podia ver-lhe os mamilos rgidos e protuberantes, duros como pequenas rochas. Sentiu-se excitado e virou-se rapidamente, embaraado, 
resmungando consigo prprio, contente por a chuva ter abafado qualquer som. Quando acabou e se ps de p, Allie pegou-lhe na mo, surpreendendo-o. Apesar da carga 
de gua, no se apressaram em direco  casa, e Noah imaginou o que seria passar a noite com ela.
Tambm Allie se questionava acerca dele. Sentiu-lhe o calor das mos e perguntava-se como seria t-las a tocar no seu corpo, a sentir-lhe o corpo todo, demorando-se 
lentamente sobre a sua pele. S pensar nisso f-la inspirar fundo, e sentiu os mamilos comearem a tinir e um calor novo por entre as pernas.
Apercebeu-se, ento que alguma coisa tinha mudado desde que aqui chegara. E embora no pudesse marcar o momento ao minuto - ontem, depois do jantar, ou esta tarde 
na canoa, ou quando viram os cisnes, ou talvez at mesmo s agora enquanto caminhavam de mos dadas - ela sabia que se tinha apaixonado por Noah TayIor Calhoun outra 
vez, e que talvez, s talvez, nunca tivesse deixado de o estar.


No havia mal-estar entre eles quando alcanaram a porta e entraram ambos, fazendo uma pausa no trio, as roupas a pingar.
- Trouxeste uma muda de roupa?         
Ela abanou a cabea numa negativa, ainda sentindo o rolar das emoes dentro de si, perguntando-se se lhe transpareceriam na cara.
- Acho que te posso arranjar aqui qualquer coisa, para despires essas roupas. Pode ser um pouco grande, mas  quente.
- Qualquer coisa serve.
- Volto num segundo.         
Noah descalou as botas, depois correu escadas acima, descendo um minuto mais tarde. Tinha um par de calas de algodo e uma camisa de manga comprida debaixo de 
um dos braos, e umas calas de ganga com uma camisa azul debaixo do outro.
- Toma - disse passando-lhe as calas de algodo e a camisa. - Podes mudar de roupa no quarto l de cima. Tambm h uma casa de banho e toalhas, para o caso de quereres 
tomar um duche.
Ela agradeceu-lhe com um sorriso e subiu as escadas, sentindo os olhos dele segui-la enquanto subia. Entrou no quarto e fechou a porta, depois ps as calas e a 
camisa sobre a cama, e despiu a roupa toda. Nua, foi at ao roupeiro dele e procurou um cabide, pendurou nele o vestido, o soutien, e as cuecas, e suspendeu-o na 
casa de banho para que no pingasse o cho de madeira. Sentiu um secreto frmito por estar nua no quarto em que ele dormia.
No queria tomar duche depois de ter estado  chuva. Gostava da sensao doce na pele, e recordava-lhe como as pessoas costumavam viver h muito tempo. Naturalmente. 
Como Noah. Enfiou-se nas roupas dele antes de se ver ao espelho. As calas eram grandes, mas meter a camisa dentro delas ajudava, e arregaou-lhes as pernas apenas 
um bocadinho para que no arrastassem. O colarinho estava um bocado rasgado e quase pendurado num dos ombros, mas, de qualquer maneira, gostava do modo como lhe 
ficava. Puxou as mangas para cima quase at aos cotovelos, foi  cmoda e calou um par de meias, depois, na casa de banho, procurou uma escova.
Escovou o cabelo molhado apenas o suficiente para o desembaraar, deixando-o solto pelos ombros. Olhando-se no espelho, desejou ter trazido uma bandelette ou um 
par de ganchos.
E um pouco mais de rimmel. Mas o que poderia fazer? Nos olhos ainda tinha um pouco do que pusera mais cedo, e retocou-os com a luva de banho, fazendo o melhor que 
podia.
Quando acabou, espreitou-se no espelho, sentindo-se bonita apesar de tudo, e foi para baixo descendo as escadas.
Noah estava na sala, de ccoras diante do fogo, fazendo o melhor que sabia para o reanimar. No a viu entrar, e ela deixou-se ficar a observ-lo enquanto trabalhava. 
Tambm mudara de roupa, e estava com bom aspecto: os ombros largos, o cabelo molhado a chegar-lhe ao colarinho, as calas de ganga apertadas.

Espevitava o fogo, movendo os toros, e acrescentou-lhe mais acendalhas. Allie encostou-se  ombreira da porta, uma perna cruzada por cima da outra, e continuou a 
observ-lo. Em poucos minutos o fogo tinha crescido em chamas, firme e seguro. Ele virou-se de lado para endireitar os toros restantes que no usara e vislumbrou-a 
pelo canto do olho. Virou-se rapidamente.
Mesmo com aquelas roupas ela ficava maravilhosa. Depois de um momento voltou-se timidamente, regressando  arrumao dos troncos de madeira.
- No te ouvi entrar - disse, tentando soar casual.
- Eu sei. Era para no ouvires. - Sabia o que ele tinha estado a pensar e sentiu um toque de divertimento por ver quo jovem ele parecia.
- H quanto tempo ests a de p?
- Uns dois minutos.         
Noah limpou as mos s calas, depois apontou para a cozinha.
- Queres ch? j pus a gua a aquecer enquanto estavas l em cima. - Conversa fiada, qualquer coisa para manter a cabea fria. Mas raios, o aspecto dela...
Ela pensou por um segundo, viu a maneira como ele a olhava, e sentiu o velho instinto tomar o comando.
- Tens alguma coisa mais forte, ou  muito cedo para beber?         
Ele sorriu.
- Tenho aguardente na despensa.
- ptima ideia.         
Foi at  cozinha e Allie observou-o a passar a mo pelo cabelo molhado enquanto desaparecia.
O trovo ribombava alto, e comeou outra chuvada. Allie podia ouvir o rudo da chuva no telhado, podia ouvir o estalar dos toros  medida que as chamas tremeluziam 
a iluminar a sala. Virou-se para a janela e viu o cu cinzento explodir mais claro apenas por um segundo. Momentos mais tarde, outro estrondo de trovo. Mais perto 
agora.
Pegou numa manta que estava em cima do sof e sentou-se no tapete diante da lareira. De pernas cruzadas, aconchegou-se na manta at se sentir confortvel e ficou 
a observar a dana das chamas. Noah regressou, viu onde ela estava, e foi sentar-se a seu lado. Pousou dois copos e deitou um pouco de aguardente em cada um. L 
fora, o cu ficou mais escuro.
Trovo de novo. Alto. A tempestade em plena fria, os ventos a chicotear a chuva em crculos.
- Uma tempestade e tanto - disse Noah a ver as gotas a correrem em ribeiros verticais pelas janelas. Ele e Allie sentavam-se mais perto agora, embora sem se tocarem, 
e Noah observava o peito dela erguer-se ligeiramente com cada inspirao, imaginando como seria sentir o corpo dela mais uma vez antes de desviar o pensamento.
- Gosto disto - disse ela, bebendo um golinho. - Sempre gostei de trovoadas. Mesmo quando era rapariga.
- Porqu? - Dizer qualquer coisa, manter o equilbrio.
- No sei. Sempre me pareceram romnticas.         
Ficou em silncio por um momento, e Noah observou o fogo a tremeluzir-lhe nos olhos de esmeralda. Depois disse:
- Lembras-te de nos sentarmos juntos a observar a tempestade uma das noites antes de eu partir?
- Costumava pensar nisso o tempo todo depois de ter ido para casa. Pensava sempre no teu aspecto naquela noite. Foi daquela maneira que sempre te recordei.
- E mudei muito?         

Ela deu outro golo na aguardente, sentindo-a aquec-la. Tocou na mo dele enquanto respondia.
- Nem por isso. Pelo menos no nas coisas de que me recordo. Ests mais velho,  claro, com mais vida atrs de ti, mas ainda tens o mesmo brilho nos olhos. Ainda 
ls poesia e navegas nos rios. E ainda tens uma delicadeza que nem sequer a Guerra te conseguiu roubar.
Ele pensou no que ela acabava de dizer e sentiu a mo dela a pousar-se na sua, o polegar a fazer crculos lentos.
- Allie, perguntaste-me h bocado do que mais me lembrava daquele Vero. O que  que tu lembras?
Demorou um pouco antes de responder. A voz parecia vir-lhe de outro lado.
- Lembro-me de fazer amor. E o que mais me lembro. Foste o meu primeiro amante, e era mais maravilhoso do que alguma vez imaginei que pudesse ser.
Noah bebeu um golo de aguardente, recordando, trazendo de volta os velhos sentimentos, depois, subitamente, abanou a cabea. Isto j era difcil que baste. Ela continuou.
- Lembro-me de ter tanto medo antes que estava a tremer, mas de estar to excitada ao mesmo tempo. Fico contente que tenhas sido o primeiro. Fico contente por termos 
sido capazes de partilhar aquilo.
- Eu tambm.
- Estavas com tanto medo como eu?
Noah acenou sem falar, e ela sorriu  honestidade dele.
- Tambm achei. Sempre foste assim tmido. Especialmente no comeo. Lembro-me de que me perguntaste se tinha namorado, e quando disse que sim, quase deixaste de 
me falar.
- No queria interferir entre vocs os dois.
- Mas porm, no fim interferiste, apesar da tua inocncia professa - disse ela a sorrir. - E fico contente que o tenhas feito.
- Quando  que lhe contaste sobre ns?
- Assim que cheguei a casa.
- Foi difcil?
- De modo nenhum. Estava apaixonada por ti.         
Ela apertou-lhe a mo, e depois soltou-lha e aproximou-se. Deu-lhe o brao, embalando-o, e descansou a cabea sobre o ombro dele. Ele podia sentir-lhe o cheiro, 
doce como a chuva, quente. Ela falou docemente:
- Lembras-te de me levares a casa, depois do festival? Perguntei-te se querias voltar a ver-me. Tu apenas assentiste sem dizer uma palavra. No era muito convincente.
- Nunca conheci ningum como tu antes. No o conseguia evitar. No sabia o que dizer.
- Eu sei. Nunca me conseguiste esconder nada. Os teus olhos traram-te sempre. Tinhas os olhos mais maravilhosos que alguma vez vira.
Ela ento fez uma pausa, depois levantou a cabea do ombro dele, e olhou-o directamente. Quando falou, a voz dela soou pouco mais alto que um murmrio.
- Acho que te amei mais nesse Vero do que alguma vez amei algum.
Os relmpagos brilharam de novo. Nos momentos de calmaria antes do trovo, os olhos deles encontraram-se enquanto tentavam desfazer os catorze anos, ambos sentindo 
a mudana vinda da vspera. Quando o trovo soou por fim, Noah suspirou e desviou-se dela, em direco  janela.

- Como gostava que tivesses lido as cartas que te enviei - disse.
Ela ficou em silncio por bastante tempo.
- No teve que ver s contigo, Noah. No te disse, mas escrevi-te uma dzia de cartas depois de chegar a casa. S que nunca as enviei.
- Porqu? - Noah estava surpreendido.
- Acho que tinha medo demais.
- De qu?
- De que talvez no tivesse sido to real como pensava que era. De que talvez me tivesses esquecido.
- Nunca faria isso. Nem sequer podia pensar nisso.
- Agora sei. Posso v-lo quando te olho. Mas dantes era diferente. Havia tanta coisa que eu no compreendia, coisas que a mente de uma rapariga no conseguia destrinar.
- O que  que queres dizer com isso?         
Ela fez uma pausa, organizando os pensamentos.
- Quando as tuas cartas no chegaram, no sabia o que pensar. Lembro-me de falar com a minha melhor amiga sobre o que aconteceu naquele Vero, e ela disse-me que 
tu tinhas obtido o que querias, e no a surpreenderia que nunca me escrevesses. Eu no acreditava que fosses assim, nunca acreditei, mas ouvindo-a, e pensando em 
todas as nossas diferenas, fez-me duvidar se talvez o Vero no significasse mais para mim do que tinha significado para ti... E depois, enquanto tudo isto ia passando 
na minha cabea, tive notcias por Sarah. Ela disse-me que tinhas deixado Nova Berna.
- O Fin e a Sarah sempre souberam onde eu estava...
Ela ergueu a mo para faz-lo parar.
- Eu sei, mas nunca perguntei. Presumi que tivesses deixado Nova Berna para comear vida nova, uma vida sem mim. Por que outro motivo no me escreverias? Ou telefonavas? 
Ou vinhas ver-me?
Noah desviou os olhos sem responder e ela continuou:
- Eu no sabia, e com o tempo a ferida comeou a desaparecer, era mais fcil deixar andar. Pelo menos eu pensava que era. Mas em cada rapaz que eu encontrava nos 
poucos anos seguintes, descobri-me a procurar por ti, e quando o sentimento se tornava demasiado forte, escrevia-te outra carta. Mas nunca as mandei, com medo do 
que poderia encontrar. Por essa altura, tu j tinhas continuado com a tua vida e eu no queria pensar em ti apaixonado por outra pessoa. Queria lembrar-me de ns 
como ramos naquele Vero. No queria perder isso nunca.
Ela disse tudo isto to docemente, to inocentemente, que Noah queria beij-la quando acabou. Mas no o fez. Em vez disso, lutou contra o impulso e empurrou-o para 
trs, sabendo que no era do que ela precisava. Porm, ela parecia-lhe to maravilhosa, a toc-lo...
- A ltima carta que escrevi foi h um par de anos. Depois de ter encontrado Lon, escrevi ao teu pai para saber onde tu andavas. Mas j tinha passado tanto tempo 
desde que te tinha visto, que nem sequer tinha a certeza de que ele ainda estivesse por aqui. E com a Guerra...
Ela diminuiu de intensidade, e ficaram em silncio por um momento, ambos perdidos em pensamentos. Um relmpago no cu outra vez, antes de Noah quebrar o silncio 
por fim.

- Gostaria que as tivesses posto no correio de qualquer maneira.
- Porqu?         
- S para ter notcias tuas. Para saber o que tinhas andado a fazer.
- Poderias ficar desapontado. A minha vida no  muito excitante. Alm disso, eu j no sou exactamente quem tu recordas.
- s melhor do que o que eu recordo, Allie.
- s um querido, Noah.         
Quase parou por aqui sabendo que, se conservasse as palavras dentro de si, de alguma maneira seria capaz de manter o controle, o mesmo controle que tinha mantido 
nos ltimos catorze anos. Mas uma coisa outra o dominava agora, e ele cedeu, esperando que de qualquer modo, os levasse de novo ao que tinham tido h tanto tempo.
- No o digo porque sou querido. Digo-o porque te amo agora e sempre te amei. Mais do que possas imaginar.
Um toro estalou, enviando falhas chamin acima, e ambos repararam nos restos em brasa, quase a apagarem-se. O fogo precisava de outro tronco, mas nenhum se mexeu.
Allie bebeu outro golinho de aguardente e comeou a sentir-lhe os efeitos. Mas no era s o lcool que a fazia agarrar Noah com um pouco mais de fora e sentir o 
calor dele contra si. Relanceando a janela, viu que as nuvens estavam quase negras.
- Deixa-me espevitar o fogo - disse Noah, precisando de pensar, enquanto ela o largava. Foi at  lareira, abriu o guarda-fogo, e acrescentou um par de toros. Usou 
o espevitador para ajeitar as brasas incandescentes, de modo a que a nova madeira pegasse com mais facilidade.
A chama comeou a subir outra vez, e Noah regressou ao lado dela. Ela aconchegou-se de novo contra ele, pousando-lhe a cabea no ombro como fizera antes, sem falar, 
a mo a esfregar-lhe suavemente o peito. Noah aproximou-se mais e sussurrou-lhe ao ouvido.

- Isto recorda-me de como fomos uma vez. Quando ramos jovens.
Ela sorriu, pensando o mesmo, e ficaram a olhar o fogo e o fumo, abraando-se.
- Noah, nunca me perguntaste, mas quero que saibas uma coisa.
- O qu?         
A voz dela era doce.
- Nunca houve outro, Noah. Tu no foste s o primeiro. Foste o nico homem com quem alguma vez estive. No espero que me digas a mesma coisa, mas queria que soubesses.
Noah ficou silencioso enquanto se afastava. Ela sentiu-se mais quente a olhar o fogo. A mo passeava sobre os msculos debaixo da camisa, duros e firmes, enquanto 
se encostavam um ao outro.

Ela recordava-se de quando se tinham abraado assim por aquela que pensavam ser a ltima vez. Estavam sentados num ponto destinado a manter  distncia as guas 
do rio Neuse. Ela chorava porque corriam o risco de nunca mais voltar a ver-se, e perguntava-se como poderia alguma vez ser feliz de novo. Em lugar de responder, 
ele tinha-lhe enfiado um papel na mo, que ela leu a caminho de casa. Tinha-o guardado, lendo-o ocasionalmente na totalidade ou s por bocados. Uma das partes que 
lera pelo menos uma centena de vezes, e por um motivo, corria-lhe na cabea agora. Dizia:

A razo porque di tanto separarmo-nos  porque as nossas almas esto ligadas. Talvez sempre tenham estado e sempre o fiquem. Talvez tenhamos vivido milhares de 
vidas antes desta, e em cada uma nos tenhamos reencontrado. E talvez que em cada uma tenhamos sido separados pelos mesmos motivos. Isto significa que esta despedida 
, ao mesmo tempo, um adeus pelos ltimos dez mil anos e um preldio ao que vir.
Quando olho para ti vejo a tua beleza e graa, e sei que cresceram mais fortes com cada vida que viveste. E sei que gastei todas as vidas antes desta  tua procura. 
No de algum como tu, mas de ti, porque a tua alma e a minha tm que andar sempre juntas. E assim, por uma razo que nenhum de ns entende, fomos obrigados a dizer-nos 
adeus.
Adoraria dizer-te que tudo correr bem para ns, e prometo fazer tudo o que puder para garantir que assim ser. Mas se nunca nos voltarmos a encontrar outra vez, 
e isto for verdadeiramente um adeus, sei que nos veremos ainda noutra vida. Iremos encontrar-nos de novo, e talvez as estrelas tenham mudado, e ns no apenas nos 
amemos nesse tempo, mas por todos os tempos que tivemos antes.

Poderia ser assim?, perguntava-se. Poderia ele estar certo?         
Ela nunca lhe dera completamente desconto, querendo agarrar-se  promessa para o caso de ser verdade. A ideia tinha-a ajudado a atravessar muitos momentos difceis. 
Mas sentada aqui, agora, parecia testar a teoria de que estavam destinados a ser sempre separados. A no ser que as estrelas tivessem mudado desde a ltima vez que 
tinham estado juntos.
E talvez tivessem, mas ela no queria olhar. Em vez disso, inclinou-se para ele e sentiu o calor entre ambos, sentiu o corpo dele, sentiu o brao apertado em torno 
de si. E o corpo dela comeou a tremer com a mesma antecipao que sentira na primeira vez que tinham estado juntos.
Sentia que estava muito certo estar aqui. Tudo sentia a certo.
O fogo, as bebidas, a tempestade - nada poderia ser mais perfeito. Como por magia, aparentemente, os anos de separao j no interessavam mais.
O relmpago cortou o cu no exterior. O fogo danava na madeira branca de quente, espalhando calor. A chuva de Outubro lanava-se em lenis contra as janelas, afogando 
todos os outros sons.
Cederam ento a tudo aquilo contra o que tinham lutado nos ltimos catorze anos. Allie levantou a cabea do ombro dele, olhou-o com olhos desfocados, e Noah beijou-a 
suavemente nos lbios. Ela levou a mo  cara dele e tocou-lhe a face, aflorando-a docemente com os dedos. Ele inclinou-se lentamente e beijou-a de novo, ainda doce 
e terno, e ela retribuiu, sentindo os anos de distncia a dissolverem-se em paixo.

Ela fechou os olhos e afastou os lbios enquanto ele fazia os dedos correr acima e abaixo dos seus braos, lentamente, levemente. Beijou-lhe o pescoo, a cara, as 
pestanas, e ela sentiu a humidade da boca dele permanecer onde os lbios tinham tocado. Pegou na mo dele e conduziu-a para os seios, e um soluo nasceu-lhe na garganta 
quando ele lhes tocou delicadamente atravs do tecido da camisa.
O mundo parecia de sonho quando se afastou dele, a luz do fogo tornando-lhe a cara em brasa. Sem falar, comeou a desabotoar-lhe os botes da camisa. Ele observava-a 
a faz-lo e escutava-lhe a respirao doce enquanto abria caminho para baixo. Com cada boto sentia os dedos dela a aflorar-lhe a pele, e ela ficou a sorrir-lhe 
docemente quando por fim acabou. Ele sentiu-a enfiar as mos por dentro, tocando-o o mais levemente possvel, e deixou que as mos dela lhe explorassem o corpo. 
Estava quente, e ela passou-lhas pelo peito ligeiramente hmido, sentindo-lhe a penugem entre os dedos. Inclinando-se, beijou-lhe docemente o pescoo enquanto lhe 
despia a camisa dos ombros, prendendo-lhe os braos atrs das costas. Levantou a cabea e deixou que ele a beijasse enquanto movia os ombros para se libertar das 
mangas.
Depois disso, lentamente ele procurou-a. Subiu-lhe a camisa e passou os dedos lentamente atravs da barriga antes de lhe levantar os braos e a fazer escorregar. 
Ela sentiu faltar-lhe o ar quando ele baixou a cabea e a beijou entre os seios e lentamente fez a lngua subir at ao pescoo. As mos dele acariciavam-lhe as costas, 
os braos, os ombros, e sentiu os seus corpos quentes encostarem-se um ao outro, pele contra pele. Ele beijou-lhe o pescoo e mordiscou-a enquanto ela erguia as 
ancas e o deixava retirar-lhe a parte de baixo. Ela procurou o boto das calas de ganga, abriu-o, e ficou a observar enquanto ele tambm as despia. Foi quase em 
cmara lenta que os seus corpos finalmente se reuniram, ambos a tremer com a memria do que uma vez tinham partilhado.
Ele correu a lngua pelo pescoo dela enquanto as mos se moviam sobre a pele quente e macia dos seios, pela barriga abaixo, para l do umbigo, e de novo para cima. 
Estava espantado com a beleza dela. O cabelo brilhante apanhava a luz e reflectia-a. A pele era macia e maravilhosa, quase reluzente  luz da lareira. Sentiu as 
mos dela nas suas costas, chamando-o.
Deitaram-se junto ao fogo, e o calor fazia o ar parecer espesso. Ela arqueava ligeiramente as costas quando ele se lhe colocou por cima num movimento fluido. Estava 
de gatas por cima dela, os joelhos a par das ancas. Ela levantou a cabea e beijou-lhe o queixo e o pescoo, com a respirao ofegante, lambendo-lhe os ombros, e 
provando o suor que lhe pairava sobre a pele. Passou-lhe as mos pelos cabelos enquanto ele se segurava por cima dela, os msculos dos braos duros da tenso. Com 
uma ligeira careta tentadora, ela puxou-o para mais perto, mas ele resistiu. Em vez disso, baixou-se e esfregou ligeiramente o seu peito contra o dela, e ela sentiu 
o seu corpo reagir com antecipao. F-lo lentamente, uma vez e outra, beijando todas as partes do corpo dela, escutando-a a lanar sons doces e soluantes enquanto 
ele se movia por cima dela.
Continuou com isto at ela no aguentar mais, e quando finalmente se uniram como um, ela gritou alto e enterrou-lhe os dedos nas costas. Escondeu a cara no pescoo 
dele e sentiu-o fundo dentro de si, sentiu-lhe a fora e a delicadeza, sentiu-lhe os msculos e a alma. Movia-se ritmicamente contra ele, permitindo-lhe que a tomasse 
sempre que quisesse, a levasse para o lugar em que tinha que estar.

Ela abriu os olhos e observou-o  luz da lareira, maravilhando-se com a beleza dele a mover-se por cima de si. Viu o corpo brilhar com suor cristalino e reparou 
nas prolas que lhe desciam pelo peito e caam sobre ela como a chuva l fora. E com cada gota, com cada respirao ,ela sentiu-se a si prpria, toda a responsabilidade, 
todas as facetas da sua vida, a desaparecerem.
Os corpos reflectiam todas as coisas dadas, todas as coisas roubadas, e ela era recompensada com a sensao de que no sabia existir. E continuou outra vez e outra, 
a tinir pelo seu corpo e aquecendo-a antes de, por fim, dar de si, e ela lutava com falta de ar enquanto tremia debaixo dele. Mas no momento em que acabara, outro 
principiava a construir-se, e comeou a senti-los em longas sequncias, uma logo aps a outra. Na altura em que a chuva tinha acabado de cair e o Sol se tinha posto, 
o corpo dela estava exausto mas sem vontade de pr fim ao prazer de ambos.
Passaram o dia nos braos um do outro, alternadamente fazendo amor junto ao fogo e depois abraando-se enquanto olhavam as chamas curvarem-se  volta da madeira. 
s vezes ele recitava um dos seus poemas favoritos enquanto ela estava deitada ao lado dele, e ela escutava com os olhos fechados e quase sentia as palavras. Depois, 
quando estavam prontos, juntavam-se de novo e ele murmurava palavras de amor entre beijos, enquanto passavam os braos  volta um do outro. 
E continuaram pela noite dentro, tentando recompensar-se pelos anos de distncia, e dormiram nos braos um do outro naquela noite. Ocasionalmente ele acordava e 
olhava para ela, para o corpo dela cansado e radiante, e sentia que subitamente tudo ficara certo neste mundo. 
Numa das vezes, quando ele a espreitava nos momentos anteriores  aurora, os olhos dela pestanejaram e abriram-se e ela sorriu e levantou o brao para lhe tocar 
na cara. Ele pousou-lhe os dedos nos lbios, docemente, a proibi-la de falar, e durante um longo tempo ficaram apenas a olhar um para o outro.
Quando o n que ele tinha na garganta se dissolveu, sussurrou-lhe:
- Tu s a resposta para todas as oraes que ofereci. s uma cano, um sonho, um murmrio, e no sei como pude viver sem ti durante tanto tempo como vivi. Amo-te 
Allie, mais do que alguma vez poders imaginar. Sempre te amei e sempre te amarei.
- Oh Noah - disse ela, puxando-o para si. Queria-o, precisava dele agora mais do que nunca, duma maneira que nunca tinha experimentado.

TRIBUNAIS

Mais tarde, nessa manh, trs homens - dois advogados e o juiz - sentavam-se na sala do tribunal enquanto Lon acabava de falar. Ainda demorou um momento antes que 
o juiz respondesse.
-  um pedido invulgar - disse, ponderando a situao. Parece-me que o julgamento podia muito bem terminar hoje. Quer ento dizer que este assunto urgente no pode 
esperar at logo  tarde ou amanh?
- No, Excelncia, no pode - respondeu Lon, quase depressa demais. Fica descontrado, disse-se a si prprio. Respira fundo.
- E no tem nada a ver com este caso?
- No, Excelncia.  de carcter pessoal. Eu sei que  invulgar, mas preciso mesmo de o resolver. - Melhor, muito melhor.
O juiz inclinou-se para trs na cadeira, avaliando-o por um momento.
- E o Dr. Bates, o que  que pensa do assunto?         
Limpou a garganta.
- O Dr. Hammond telefonou-me hoje de manh e j falei com os meus clientes. Esto dispostos a aceitar um adiamento at segunda-feira.
- Estou a ver - disse o juiz. - E acredita que  no melhor interesse dos seus clientes fazer isto?
- Creio que sim - disse. - O doutor Hammond concordou em reabrir a discusso sobre um certo assunto no includo neste julgamento.
O juiz olhou com severidade para ambos e ficou a pensar.
- No gosto disto - disse por fim -, no gosto mesmo nada. Mas o doutor Hammond nunca antes fez um pedido semelhante, e presumo que o assunto seja muito importante 
para ele.
Fez uma pausa para aumentar o efeito, depois olhou para alguns papis em cima da secretria.
- Concordo em adiar at segunda-feira. s nove horas em ponto.
- Muito obrigado, Excelncia - disse Lon.         
Dois minutos mais tarde abandonava o tribunal. Foi at ao carro que estacionara directamente do outro lado da rua, entrou e partiu a guiar em direco de Nova Berna, 
com as mos a tremer.

UMA VISITA INESPERADA

Noah fez o pequeno-almoo para Allie enquanto ela dormia na sala de estar. Presunto frito, torradas e caf, nada de espectacular. Ps o tabuleiro ao lado dela no 
momento em que acordava, e assim que acabaram de comer, fizeram amor outra vez. Era incansvel, uma poderosa confirmao do que haviam partilhado no dia anterior. 
Allie arqueou as costas e gritou ferozmente na irresistvel torrente final da sensao, depois abraou-o enquanto respiravam em unssono, exaustos.
Tomaram um duche juntos, e a seguir Allie vestiu o vestido que secara durante a noite. Passou a manh com Noah. juntos deram de comer a Clem e foram inspeccionar 
as janelas para confirmar que nenhum estrago tinha sido feito pela tempestade. Dois pinheiros tinham explodido ali perto, embora nenhum tivesse causado muitos prejuzos, 
e algumas das telhas de madeira tinham sido arrancadas da arrecadao mas, para alm disso, a propriedade escapara inclume.
Ele pegou-lhe na mo durante toda a manh e os dois conversaram com facilidade mas, de vez em quando, ele parava de falar e ficava a olhar fixamente para ela. Quando 
o fazia, ela sentia-se como se tivesse que dizer alguma coisa, mas nada de significativo lhe vinha  cabea. Perdida nos pensamentos, acabava apenas por beij-lo.
Um pouco antes do meio-dia, Noah e Allie entraram para preparar o almoo. Estavam ambos esfomeados outra vez, porque pouco tinham comido no dia anterior. Usando 
o que havia a jeito, fritaram frango e meteram no fogo outra fornada de biscoitos, e comeram no alpendre os dois, com a serenata de um mimo.
Enquanto estavam l dentro a lavar a loia, ouviram bater  porta. Noah deixou Allie na cozinha.
Bateram de novo.         
- J vou - disse Noah.        
Toque, toque. Mais alto.         
Aproximou-se da porta.         
Toque, toque.         
- J vou - disse de novo enquanto abria a porta.
- Oh Meu Deus.         
Ficou por um momento a fixar uma bela mulher no princpio dos cinquenta, uma mulher que reconheceria em qualquer lado.
Noah no conseguia falar. 
- Ol Noah - disse ela por fim.         
Noah no dizia nada. 
- Posso entrar? - perguntou, de voz firme, sem revelar nada.         
Ele gaguejou uma resposta enquanto ela o ultrapassava, parando mesmo junto s escadas. 
- Quem ? - gritou Allie da cozinha, e a mulher virou-se ao som da voz dela.
-  a tua me - respondeu Noah por fim, e imediatamente assim que o disse, ouviu o som de um copo a partir-se.
- Sabia que haviam de estar aqui - disse Anne Nelson para a filha, enquanto os trs se sentavam em volta da mesa na sala.
- Como podia ter tanta certeza? 

- s minha filha. Um dia, quando tiveres crianas sabers a resposta. - Sorriu, mas os modos eram rgidos, e Noah imaginava quo difcil isto deveria ser para ela. 
- Tambm vi como andaste tensa durante as duas ltimas semanas, e quando disseste que vinhas fazer compras junto  costa, sabia exactamente o que pretendias fazer.
- E o pai?         
Anne Nelson abanou a cabea.
- No, no contei ao teu pai nem a mais ningum sobre o assunto. E tambm no disse a ningum aonde vinha hoje.
A mesa ficou silenciosa por um momento enquanto se perguntavam o que viria a seguir, mas Anne continuava calada.
- Porque  que veio? - perguntou Allie por fim.         
A me levantou uma sobrancelha.
- Pensei que era eu quem tinha que fazer essa pergunta.                 Allie empalideceu.         
- Eu vim porque tinha que vir - disse a me -, o que calculo seja a mesma razo porque tu vieste. Estou certa?
Allie assentiu com a cabea.         
Anne virou-se para Noah.
- Estes dois ltimos dias devem ter sido cheios de surpresas.
- Sim - respondeu ele simplesmente, e ela sorriu-lhe.         
- Eu sei que no deves achar isso, mas sempre gostei de ti, Noah. S que pensei que no eras o homem ideal para a minha filha. Podes entender isto?
Ele abanou a cabea enquanto respondia, num tom srio.
- No, de facto no posso. Era injusto quanto a mim, e injusto para com Allie. Se fosse, ela no estaria aqui.
Ela observava-o enquanto respondia, mas no disse nada. Allie, pressentindo uma discusso, interrompeu:
- O que  que queria significar quando disse que tinha que vir? No tem confiana em mim?
Anne virou-se para a filha.
- Isto no tem nada a ver com confiana. Isto tem a ver com o Lon. Ele telefonou l para casa ontem  noite para falar comigo acerca de Noah, e vem a a caminho 
agora mesmo. Parecia muito perturbado. Pensei que gostarias de saber.
Allie inspirou bruscamente.
- Vem a caminho?
- Neste mesmo momento em que estamos a falar. Fez diligncias para conseguir que o julgamento fosse adiado para a prxima semana. Se no estiver j em Nova Berna, 
est perto.
- O que  que lhe disse?
- No muito. Mas ele sabia. Tirou as suas concluses. Lembrava-se de me ter ouvido falar de Noah h muito tempo.
Allie engoliu em seco.
- Disse-lhe que eu estava aqui?
- No. E no direi. Isso  entre ti e ele. Mas conhecendo-o, tenho a certeza de que te descobrir aqui se ficares. Tudo o que  preciso  uns quantos telefonemas 
s pessoas certas. Apesar de tudo, at eu fui capaz de te encontrar.
Allie, embora evidentemente preocupada, sorriu para a me.
- Obrigada - disse, e a me esticou o brao para lhe pegar na mo.

- Sei que temos tido as nossas incompatibilidades, Allie, e que no temos estado de acordo quanto a muita coisa. No sou perfeita, mas fiz o melhor que pude ao educar-te. 
Sou a tua me e sempre o serei. Isso significa que sempre te amarei.
Allie ficou em silncio durante um momento, e depois:
- O que devo fazer?
- No sei, Allie. Isso  contigo. Mas eu pensaria no assunto. Pensaria no que  que tu verdadeiramente queres.
Allie desviou o olhar, com os olhos a ficarem vermelhos. Um momento mais tarde caiu-lhe uma lgrima pela face abaixo.
- No sei... - arrastou-se ela, e a me apertou-lhe a mo. Anne olhou para Noah, que estivera sentado de cabea baixa, ouvindo com muita ateno. Como obedecendo 
 deixa, devolveu-lhe o olhar, acenou e deixou a sala.
Assim que ele saiu, Anne sussurrou:
- Tu ama-lo?
- Sim, amo - respondeu Allie docemente -, amo-o muito.
- E amas Lon?
- Sim, amo-o. Tambm o amo. Com muito carinho, mas de maneira diferente. Ele no me faz sentir como Noah faz.
- Nunca ningum ir fazer isso - disse a me, e libertou a mo de Allie.
- Eu no posso tomar esta deciso por ti, Allie,  toda tua. Mas quero que saibas que te amo. E sempre amarei. Sei que isto no ajuda, mas  o mximo que posso fazer.
Procurou na algibeira e retirou dela um molho de cartas atadas juntas com uma fita, os envelopes velhos e ligeiramente amarelecidos.
- Estas so as cartas que Noah te escreveu. Nunca as deitei fora, e no foram abertas. Sei que no as deveria ter escondido de ti, e lamento-o. Mas estava apenas 
a tentar proteger-te. No imaginava...
Allie pegou nelas, e passou-lhes a mo por cima, chocada.                 - Tenho que ir, Allie. Tens algumas decises a tomar, e no tens muito tempo. Queres que 
fique na cidade?
Allie abanou a cabea.
- No, isto  comigo.         
Anne assentiu com a cabea e ficou a observar a sua filha durante um momento, a imaginar. Por fim, levantou-se, deu a volta  mesa, e beijou-a na cara. Podia ver 
a pergunta a bailar-lhe nos olhos no momento em que Allie se levantou da mesa e a abraou.
- O que  que vais fazer? - perguntou a me, afastando-se. Houve um longo silncio.
- No sei - respondeu Allie por fim. Ficaram ali de p por mais um minuto, abraadas.
- Obrigada por ter vindo - disse Allie. - Gosto muito de si.
- Eu tambm gosto muito de ti.         
J a caminho da porta, Allie pensou ter ouvido a me a murmurar, "Segue o teu corao", mas no podia ter a certeza.

CAMINHOS CRUZADOS

Noah abriu a porta a Anne Nelson para a deixar sair.
- Adeus, Noah - disse calmamente. Ele abanou a cabea sem falar. No havia mais nada a dizer, ambos sabiam isso. Ela virou-lhe as costas e partiu, fechando a porta 
atrs de si. Noah ficou a observ-la a caminhar at ao carro, entrar, e arrancar sem olhar para trs. Era uma mulher forte, pensou para consigo, e sabia a quem Allie 
tinha sado.
Noah espreitou para a sala, viu Allie sentada de cabea baixa, depois foi para o alpendre, sabendo que ela precisava de ficar s. Sentou-se silenciosamente na sua 
cadeira de balano a observar a gua a correr enquanto os minutos passavam.
Depois do que lhe pareceu uma eternidade ouviu a porta dos fundos a abrir-se. No se virou logo para olhar para ela - por algum motivo no podia - e ficou a ouvir 
enquanto se sentava na cadeira ao seu lado.
- Desculpa - disse Allie. - No fazia ideia que isto pudesse acontecer.
Noah abanou a cabea.
- No peas desculpa. Ambos sabamos que isto ia acontecer de uma maneira ou de outra.
- Mesmo assim  duro.
- Eu sei. - Por fim virou-se para ela, tentando pegar-lhe na mo. - H alguma coisa que eu possa fazer para tornar tudo mais fcil?
Ela abanou a cabea,
- No. Nem por isso. Tenho que fazer isto sozinha. Alm disso, ainda no sei bem o que lhe vou dizer. - Ela olhou para baixo e a voz ficou-lhe um pouco mais doce 
e mais distante, como se estivesse a falar consigo prpria. - Acho que tudo depende dele, e do que sabe. Se a minha me estava correcta, pode ter suspeitas, mas 
no sabe nada ao certo.
Noah sentiu um aperto no estmago. Quando por fim falou tinha a voz firme, mas ela podia ouvir-lhe a dor.
- Tu no lhe vais contar acerca de ns, pois no?
- No sei. Na verdade no sei. Enquanto estive ali na sala, no parava de me perguntar o que queria de facto da minha vida. - Ela apertou-lhe a mo. - E sabes qual 
era a resposta? A resposta era que eu queria duas coisas. Primeiro, quero-te a ti. Quero-nos a ns. Eu amo-te e sempre te amei.
Respirou fundo antes de continuar.
- Mas tambm quero um final feliz sem ferir ningum. E sei que, se eu ficasse, pessoas ficariam feridas. Especialmente Lon. No te menti quando disse que o amava. 
Ele no me faz sentir como tu fazes, mas preocupo-me com ele, e isto no seria justo para ele. Mas ficar aqui iria tambm ferir a minha famlia e os meus amigos. 
Estaria a trair toda a gente que conheo... No sei se consigo fazer isso.
- No podes viver a tua vida para os outros. Tens que fazer o que est certo para ti, mesmo que possa vir a ferir as pessoas que amas.
- Eu sei - disse ela -, mas o que quer que escolha tenho que viver com isso. Para sempre, Tenho que ser capaz de andar em frente sem olhar para trs. Podes entender 
isso?
Ele abanou a cabea e tentou manter a voz firme.

- Nem por isso. No, se significa perder-te. No conseguirei suport-lo outra vez.
Ela no disse nada mas baixou a cabea. Noah continuou:
- Eras mesmo capaz de me abandonar sem olhar para trs? 
Ela mordeu o lbio enquanto respondia. A voz estava a comear a falhar-lhe:
- No sei. Provavelmente no.
- Seria justo para Lon?
No respondeu logo. Em vez disso levantou-se, limpou a cara, e foi at  beira do alpendre onde se encostou de encontro a um poste. Cruzou os braos e ficou a olhar 
a gua antes de responder baixinho.
- No.
- No tem que ser assim, Allie - disse ele. - Agora somos adultos, temos uma possibilidade de escolha que antes no tnhamos. Fomos feitos para ficar juntos. Sempre 
o estivemos.
Foi para o lado dela e ps-lhe a mo no ombro.
- No quero viver o resto da minha vida a pensar em ti e a sonhar com o que poderia ter sido. Fica comigo, Allie.
Lgrimas comearam a encher os olhos dela.
- No sei se posso - murmurou por fim.
- Podes, Allie... No posso viver a minha vida feliz sabendo que ests com outro. Isso iria matar parte de mim. O que ns temos  extraordinrio. Demasiado belo 
para ser deitado fora assim.
Ela no reagiu. Aps um momento, delicadamente, ele virou-a para si, pegou-lhe nas mos, e ficou-se a olh-la, forando-a a olhar para ele. Por fim, Allie encarou-o 
com os olhos hmidos. Aps um longo silncio, Noah limpou-lhe as lgrimas das faces com os dedos, um ar terno na cara. A voz dele regressou quando ele viu o que 
os olhos dela lhe estavam a dizer.
- Tu no vais ficar, pois no? - sorriu debilmente. - Queres, mas no podes.
- Oh, Noah - disse ela, quando as lgrimas recomearam, - por favor, tenta compreender...         
Ele abanou a cabea para faz-la calar.
- Eu sei o que ests a tentar dizer - posso v-lo nos teus olhos. Mas no o quero compreender, Allie. No quero que isto acabe de maneira nenhuma. Mas, se partires, 
sabemos ambos que nunca mais nos voltaremos a ver.
Ela encostou-se a ele e comeou a chorar com mais fora enquanto Noah tentava repelir as suas prprias lgrimas.
Ps os braos  volta dela.
- Allie, no posso forar-te a ficar comigo. Mas o que quer que acontea na minha vida, nunca esquecerei estes ltimos dois dias contigo. H anos que sonhava com 
isto.
Beijou-a docemente, e beijaram-se como o tinham feito quando da primeira vez que ela sara do carro dois dias antes. Por fim, Allie soltou-se dele e limpou as lgrimas.
- Tenho que ir buscar as minhas coisas, Noah.         
Ele no a acompanhou. Em vez disso, sentou-se na cadeira de balano, exausto. Viu-a entrar na casa e ficou a ouvir at que os sons dos movimentos se dissolveram 
no nada. Ela emergiu da casa minutos mais tarde com tudo o que trouxera e caminhou at ele de cabea baixa. Passou-lhe o desenho que tinha feito na manh da vspera. 
Quando ele lhe pegou, reparou que no parara de chorar.
- Toma, Noah. Fiz isto para ti.         

Noah pegou no desenho e desenrolou-o devagarinho, com cuidado para no o rasgar.
Tinha imagens duplas, uma sobrepondo-se  outra. A figura em primeiro plano, que ocupava a pgina quase na totalidade, era um retrato de como ele se parecia agora, 
e no h catorze anos. Noah reparou que ela tinha esboado todos os detalhes da sua cara, at a cicatriz. Era quase como se o tivesse copiado de uma foto recente.
A segunda imagem era da frontaria da casa. Tambm a os pormenores eram incrveis, como se a tivesse esboado sentada debaixo do carvalho.
-  maravilhoso, Allie. Obrigado. - Esforou um sorriso. - Disse-te que eras uma artista. - Ela assentiu com a cabea, a cara para baixo, os lbios comprimidos juntos. 
Tinha chegado o momento de partir.
Caminharam lentamente at ao carro dela, sem falar. Quando o alcanaram, Noah beijou-a de novo at que pde sentir as lgrimas a incharem nos seus prprios olhos. 
Beijou-lhe os lbios e ambas as faces, depois delicadamente com os dedos afagou os lugares que tinha beijado.
- Eu amo-te Allie.
- Eu tambm te amo.         
Noah abriu-lhe a porta do carro, e beijaram-se mais uma vez. Depois ela escorregou para detrs do volante, nunca desviando os olhos dos dele. Ps o pacote das cartas 
e o livro de apontamentos junto de si no assento e procurou as chaves, depois ligou a ignio. Arrancou facilmente, e o motor comeou a rodar impaciente. Estava 
quase na hora.
Noah empurrou-lhe a porta at a fechar com as duas mos, e Allie baixou a janela. Podia ver os msculos dos braos dele, o sorriso fcil, a cara bronzeada. Esticou 
a mo e Noah pegou-lhe por um breve momento, movendo os dedos docemente de encontro  pele dela.
"Fica comigo", verbalizou Noah sem som, e isto, por um motivo qualquer, feriu mais do que Allie podia esperar. As lgrimas comeavam a correr com fora agora, mas 
ela no conseguia falar. Por fim, relutante, desviou os olhos e libertou a mo da dele. Engatou o carro e soltou a embraiagem apenas um bocadinho. Se no partisse 
agora, nunca partiria. Noah recuou apenas um pouco enquanto o automvel comeava a rolar em despedida.
Ele caiu num estado prximo do transe quando se apercebeu da realidade da situao. Ficou a observar o carro a rodar lentamente para diante, ouviu o ranger do cascalho 
sob as rodas. Devagar, a viatura comeou a afastar-se dele em direco  estrada que a levaria de volta  cidade. Partida - ela estava a ir-se embora! - e Noah sentiu-se 
tonto com a viso.
A deslocar-se lentamente... para alm dele agora...         
Ela acenou uma ltima vez sem sorrir, antes de comear a acelerar, e ele acenou francamente em resposta. "No Vs!" queria gritar enquanto o carro avanava para 
mais longe. Mas no disse nada, e um minuto mais tarde o automvel tinha partido e os nicos sinais que restavam dela eram as marcas dos pneus que deixara atrs 
de si.
Ficou ali sem se mexer durante muito tempo. To depressa como viera, ela tinha partido. Desta vez para sempre. Para sempre.

Fechou os olhos ento e ficou a observ-la a partir mais uma vez, o carro a mover-se firmemente para longe de si, levando-lhe consigo o corao.
Mas, como a me, apercebeu-se ele tristemente, ela nunca olhava para trs.

UMA CARTA DE ONTEM

Conduzir com os olhos cheios de lgrimas era difcil, mas ela continuou apesar de tudo, esperando que o instinto a levasse de volta  estalagem. Manteve a janela 
aberta, pensando que o ar fresco lhe pudesse permitir clarear a cabea, mas no parecia estar a ajudar.
Sentia-se cansada, e perguntava-se se teria a energia necessria para falar com Lon. E o que lhe iria ela dizer? Ainda no fazia ideia mas esperava que algo lhe 
viesse  cabea quando o momento chegasse.
Teria que chegar.         
Pela altura em que alcanou a ponte mvel que levava a Front Street, j se tinha conseguido controlar um pouco mais. No completamente, mas o suficiente, pensou 
ela, para falar com Lon. Pelo menos esperava que sim.
Havia pouco trnsito, e teve tempo para observar os estranhos a seguir as suas vidas enquanto atravessava Nova Berna. Numa bomba de gasolina, um mecnico olhava 
para dentro da capota de um carro novo enquanto um homem, presumivelmente o seu proprietrio, estava de p ao lado dele. Duas mulheres empurravam carrinhos de beb 
mesmo  beira de Hoffman-Lane, conversando enquanto viam as montras. Diante da joalharia Hearns, um homem bem vestido caminhava energicamente, levando uma pasta.
Deu outra volta e viu um jovem a descarregar mercearias de um camio que bloqueava parte da rua. Qualquer coisa na maneira como ele se movimentava recordava-lhe 
Noah a arranjar os caranguejos na ponta da doca.
Viu a estalagem mesmo no topo da rua enquanto um sinal vermelho a fez parar. Respirou fundo quando a luz mudou para verde e guiou devagar at que chegou ao parque 
de estacionamento que a estalagem partilhava com uns outros dois comerciantes. Virou para entrar e viu o carro de Lon estacionado no primeiro espao. Embora o outro 
mesmo ao lado estivesse vazio, ela passou-o e escolheu um stio um pouco mais longe da entrada.
Virou a chave, e o motor parou imediatamente. Em seguida abriu o porta-luvas  procura de um espelho e uma escova, descobrindo-os em cima de um mapa da Carolina 
do Norte. Ao mirar-se, viu que ainda tinha os olhos vermelhos e inchados. Como na vspera, depois da chuva, enquanto examinava o seu reflexo, lamentou no ter nenhuma 
maquilhagem, embora duvidasse de que agora ajudasse muito. Tentou puxar o cabelo para trs de um dos lados, tentou dos dois lados, e por fim desistiu.
Pegou no livro de apontamentos, abriu-o, e mais uma vez olhou para o artigo que a trouxera aqui. Tanto acontecera desde ento - era difcil de acreditar que tivessem 
sido apenas trs semanas. Parecia-lhe impossvel que tivesse chegado apenas antes de ontem. Parecia uma vida desde o seu jantar com Noah.
Os estorninhos chilreavam nas rvores ali em volta. As nuvens tinham agora comeado a separar-se, e Allie podia ver o azul por entre manchas de branco. O sol ainda 
estava ensombrado, mas sabia que era apenas uma questo de tempo. Ia ser um belo dia.

O tipo de dia que ela gostaria de ter passado com Noah, e enquanto pensava nele, lembrou-se das cartas que a me lhe tinha dado e pegou nelas.
Desatou o pacote e descobriu a primeira carta que ele lhe tinha escrito. Comeou a abri-la, depois parou porque conseguia adivinhar o que tinha dentro. Algo de simples, 
sem dvida - coisas que tinha feito, recordaes, memrias do Vero, talvez algumas perguntas. Apesar de tudo, provavelmente ainda esperava uma resposta dela. Em 
vez disso pegou na ltima carta que ele lhe escrevera, a do fundo da pilha. A carta de adeus. Esta interessava-lhe muito mais do que as outras. Como  que ele o 
tinha dito? Como  que ela o teria dito?
O envelope era magro. Uma, talvez duas pginas. O que quer que ele tivesse escrito no era muito longo. Primeiro virou-a e verificou a parte de trs. Sem nome, apenas 
um endereo em Nova Jersey. Suspendeu a respirao quando usou a unha do dedo pequenino para a abrir.
Ao desdobr-la:, viu que estava datada de Maro de 1935.                 Dois anos e meio sem uma resposta.         
Imaginava-o sentado a uma velha secretria, trabalhando na carta, sabendo de alguma maneira que isto era o fim, e ela viu o que pensou serem marcas de lgrimas no 
papel. Provavelmente era imaginao sua.
Endireitou a pgina e comeou a ler  luz doce do Sol que brilhava atravs da janela.

Queridssima Allie         
No sei mais o que dizer excepto que no pude dormir na noite passada porque sabia que tudo acabou entre ns.  um sentimento diferente para mim, algo que nunca 
esperei, mas, olhando para trs, suponho que no poderia ter acabado de outra maneira. Tu e eu ramos diferentes. Viemos de mundos diferentes, e, no entanto, foste 
tu quem me ensinou o valor do amor. Mostraste-me o que era gostar de outra pessoa, e sou um homem melhor por causa disso. Quero que nunca o esqueas.
No me sinto amargo pelo que aconteceu. Pelo contrrio. Estou seguro no conhecimento de que o que ns tivemos foi real, e fico feliz por nos ter sido possvel estar 
juntos mesmo por um breve perodo de tempo. E se, nalgum lugar distante do futuro, nos virmos um ao outro nas nossas vidas, sorrirei para ti com alegria, e recordarei 
como passmos um Vero debaixo das rvores, aprendendo um do outro e crescendo em amor. E talvez, por um breve momento, tu tambm o sintas, e sorrias tambm, e saboreies 
as memrias que sempre partilharemos.
Amo-te, Allie.         
Noah

Leu a carta outra vez, mais devagar agora, depois leu-a uma terceira vez antes de a pr de novo no envelope. Uma vez mais, imaginou-o a escrev-la, e, por um momento 
considerou a possibilidade de ler outra, mas sabia que no podia empatar mais. Lon estava  espera dela.
Sentiu as pernas fracas quando saiu do carro. Fez uma pausa, respirou fundo, e quando comeou a atravessar o parque, apercebeu-se de que ainda no tinha a certeza 
do que  que lhe ia dizer.
E a resposta no veio seno quando por fim alcanou a porta e a abriu, e viu Lon de p na recepo.


INVERNO PARA DOIS

A histria acaba aqui, por isso fecho o livro de apontamentos, tiro os culos, e limpo os olhos. Esto cansados e raiados de sangue, mas at aqui nunca me traram. 
Em breve faro, tenho a certeza. Nem eles nem eu podemos continuar para sempre. Olho-a agora que acabei, mas ela no retribui este olhar. Em vez disso tem a ateno 
fixa fora da janela, no ptio, onde amigos e famlia se encontram.
Os meus olhos seguem os dela, e observamos juntos. Em todos estes anos a rotina diria no mudou. Todas as manhs, uma hora depois do pequeno-almoo, comeam a chegar. 
Adultos jovens, ss ou com a famlia, vm visitar os que vivem aqui. Trazem fotografias e prendas e cada um senta-se nos bancos ou passeia ao longo dos caminhos 
ladeados de rvores desenhados para criar uma sensao de natural. Alguns vo ficar durante todo o dia, mas a maior parte vai-se embora depois de umas poucas horas, 
e quando o fazem, sinto sempre a tristeza por aqueles que deixaram ficar para trs. Pergunto-me, s vezes, o que pensaro os meus amigos quando vem os seus entes 
queridos afastarem-se nos carros, mas sei que no tenho nada com isso. E nem sequer alguma vez lhes pergunto porque aprendi que todos temos direito aos nossos segredos.
Mas em breve contar-vos-ei alguns dos meus.
Coloco o livro de apontamentos e a lente de aumentar na mesa a meu lado, sentindo a dor nos ossos quando o fao, e mais uma vez me apercebo de como o meu corpo est 
frio. Mesmo ler ao sol matinal nada faz para o aliviar. No entanto, isto j no me surpreende, porque o corpo impe-me agora as suas prprias regras.
Porm no sou completamente infeliz. As pessoas que trabalham aqui conhecem-me mais aos meus defeitos, e fazem o melhor que podem para me darem algum conforto. Deixaram-me 
ch quente na mesa do fundo, e pego-lhe com as duas mos.  um grande esforo deitar ch numa chvena, mas fao-o porque o ch  necessrio para me aquecer, e penso 
que a dificuldade do exerccio evitar que enferruje completamente. Embora j esteja enferrujado agora, no h dvidas. Enferrujado como um carro h vinte anos numa 
sucata dos pntanos da Florida do Sul.
Estive a ler para ela esta manh, como todas as manhs, porque  uma coisa que tenho que fazer. No  por obrigao - embora ache que tal ter a sua parte - mas 
por outro motivo, mais romntico. Gostava de poder explic-lo melhor agora mesmo, mas ainda  cedo, j no  mais possvel falar de romance antes do almoo, pelo 
menos para mim no . Alm disso, no fao ideia de como vai acabar e, para ser sincero, no gostava de aumentar muito as minhas esperanas.

Vivemos todo e cada dia Juntos agora, mas as nossas noites passamo-las sozinhos. Os mdicos dizem-me que no tenho autorizao para a ver depois do sol-pr. Compreendo 
completamente as razes, e embora concorde com elas, s vezes quebro as regras. Tarde na noite, quando a minha disposio  apropriada, escapo-me do meu quarto e 
vou at ao dela v-la enquanto dorme. Disto ela no sabe nada. Eu entro e observo-a a respirar e sei que se no fosse por ela, eu nunca teria casado. E quando lhe 
olho para a cara, uma cara que conheo melhor que a minha, sei que signifiquei tanto ou mais para ela. E isto significa mais para mim do que alguma vez poderei explicar.
s vezes, quando estou ali de p, penso na sorte que tive por Ter estado casado com ela quase quarenta e nove anos. Far esse tempo no prximo ms. Ela ouviu-me 
ressonar durante os primeiros quarenta e cinco, mas desde ento passmos a dormir em quartos separados. No durmo bem sem ela. Mexo-me e viro-me e anseio pelo calor 
dela e fico ali a maior parte da noite, olhos bem abertos, a observar as sombras a danar atravs dos tectos como os emaranhados de ervas a revolverem-se e rolar 
atravs do deserto. Durmo duas horas com sorte, e ainda acordo antes da aurora. Isto no faz sentido para mim.
Em breve, acabar. Eu sei. Ela no. As entradas no meu dirio tornaram-se mais curtas e levam pouco tempo a escrever. Agora fao-as simples, dado que a maioria dos 
meus dias so iguais. Mas hoje penso que vou copiar um poema que uma das enfermeiras descobriu para mim e achou que eu ia gostar.  assim

Nunca fui surpreendido to docemente         
Antes dessa hora com to sbito amor,         
A face florescia-lhe como uma doce flor         
E roubou-me o corao completamente.

Porque as nossas noites so nossas, tm-me pedido para visitar os outros. Normalmente fao-o, porque eu sou o leitor e precisam de mim, ou dizem-me que precisam. 
Ando pelos corredores e escolho onde posso ir porque sou demasiado velho para me dedicar a um horrio, mas l no fundo sei sempre quem precisa de mim. Eles so os 
meus amigos, e quando lhes empurro as portas para as abrir, vejo quartos parecidos com o meu, sempre semi-obscurecidos, iluminados apenas pelas luzes da Roda da 
Fortuna e os dentes dos locutores. A moblia  a mesma para todos, e as TVs ribombam porque j ningum consegue ouvir bem.
Homens ou mulheres, sorriem-me quando entro, e falo em murmrios quando desligam as televises. "Fico to contente por teres vindo," dizem, e ento perguntam-me 
pela minha mulher. s vezes respondo-lhes. Posso contar-lhes da doura e do encanto dela, e descrever como me ensinou a ver o mundo como o lugar maravilhoso que 
. Ou conto-lhes sobre os nossos anos juntos e explico como tnhamos tudo o que precisvamos quando nos abravamos debaixo de cus estrelados do Sul. Em ocasies 
especiais murmurava sobre as nossas aventuras juntos, sobre exposies de arte em Nova Iorque e Paris, ou sobre as crticas delirantes de crticos escrevendo em 
linguagens que no compreendo. Na maior parte das vezes, porm, sorrio e digo-lhes que est na mesma, e eles afastam-se de mim, porque sei que no querem que lhes 
veja as caras. Recorda-lhes a sua prpria mortalidade. Por isso, sento-me com eles e leio para lhes menorizar medos.

Fica composto - est  vontade comigo...         
Enquanto o Sol no te excluir eu no te excluirei         
Enquanto as guas no se recusarem a brilhar para ti e as folhas a sussurrar para ti, no se recusaro as minhas palavras a brilhar e

sussurrar para ti.

E eu leio, para lhes deixar saber quem eu sou.

Vagueio a noite toda na minha viso, ...         
Inclino-me de olhos abertos sobre os olhos cerrados dos que dormem,         
Vagueando e confuso, perdido para mim, desamparado, contraditrio,         
Esperando, olhando, inclinando-me, e parando.

Se ela pudesse, a minha mulher acompanhar-me-ia nas minhas excurses nocturnas, porque uma das suas muitas paixes era a poesia. Thomas, Whitman, Eliot, Shakespeare, 
e o Rei David dos Salmos. Amantes de palavras, criadores da linguagem. Olhando para trs, fico surpreendido pela minha paixo, e s vezes quase a lamento agora. 
A poesia traz grande beleza  vida, mas tambm uma grande tristeza, e no tenho a certeza se a troca  justa para algum da minha idade. Um homem deveria gozar outras 
coisas, se pudesse - devia gastar os seus ltimos dias ao sol. Os meus vo ser passados debaixo de uma lmpada de leitura.

Arrasto os ps em direco a ela e sento-me na cadeira ao lado da cama. Doem-me as costas quando me sento. Tenho de arranjar uma almofada nova para esta cadeira, 
lembro-me pela centsima vez. Procuro a mo dela e agarro-a, ossuda e frgil. Sabe bem. Ela reage com uma contraco, e gradualmente o polegar dela comea a afagar 
docemente o meu dedo. No falo enquanto ela no fala - aprendi isso. Na maior parte dos dias sento-me em silncio at que o Sol se pe, e em dias como esses no 
sei nada dela.
Os minutos passam antes que finalmente se vire para mim. Est a chorar. Sorrio e liberto-lhe a mo, depois procuro na algibeira. Tiro um leno e limpo-lhe as lgrimas. 
Ela olha para mim enquanto o fao, e fico a perguntar-me o que  que estar a pensar.
- Essa histria era lindssima.         
Uma chuva leve comea a cair. Pequenas gotas batem delicadamente na janela. Pego-lhe na mo outra vez. Vai ser um dia bom, um dia muito bom. Um dia mgico. Sorrio, 
no o consigo evitar.
-  sim - digo-lhe.
- Foste tu quem a escreveu? - pergunta. A voz dela  como um murmrio, um vento leve flutuando por entre as folhas.         
- Sim - respondo.
Vira-se para a mesinha-de-cabeceira. O remdio dela est num copinho. O meu tambm. Pequenos comprimidos, cores de arco-ris para que no nos esqueamos de os tomar. 
Agora trazem-me o meu para aqui, para o quarto dela, mesmo que no devessem.
- Eu j a ouvi antes, no ouvi?
- Sim - digo de novo, tal como o fao sempre em dias como este. Aprendi a ser paciente,
Estuda a minha cara. Os olhos so verdes como ondas do oceano.
- Faz-me ter menos medo - diz-me.

- Eu sei. - Fao um sinal, balanando a cabea suavemente.         
Vira-se, e espero um pouco mais. Liberta-me a mo e procura o copo de gua. Est na mesa de cabeceira, junto ao remdio. Bebe um golo.
-  uma histria verdadeira? - Ergue-se um pouco na cama e toma outra bebida. O corpo ainda est forte. - Quer dizer, conheceste essas pessoas?
- Sim - digo outra vez. Podia dizer mais, mas normalmente no digo. Ela ainda  lindssima. Pergunta o bvio:
- Bom, e afinal com qual dos dois  que ela casou?         
Respondo:
- Com o que era melhor para ela.
- E qual era ele?         
Sorrio.
- Depois sabers - digo baixinho -, l para o fim do dia. Sabers.
Ela no sabe o que pensar acerca disto mas no me faz mais perguntas. Em vez disso, comea a mexer na roupa. Est a pensar numa maneira de me fazer outra pergunta, 
embora no esteja segura de como o fazer. Em vez disso escolhe adi-la por um momento e pega num dos copos de papel.
- Este  o meu?
- No,  este - alcano o remdio e empurro-o na direco dela. No o consigo agarrar com os meus dedos. Ela pega nele e olha para os comprimidos. Posso dizer pela 
maneira como est a olhar para eles que no faz ideia para que so. Uso as duas mos para pegar no meu copo e largar os comprimidos na minha boca. Ela faz o mesmo. 
Hoje no h luta. Isso torna tudo mais fcil. Levanto o meu copo na pardia de um brinde e lavo o gosto de areia na boca com o ch. Est a ficar mais frio. Ela engole-os 
s cegas e empurra-os com mais gua.
Um pssaro comea a cantar fora da janela, e ambos viramos a cabea. Sentamo-nos em silncio por um bocado, gozando algo de belo juntos. Depois perde-se, e ela suspira.
- Tenho que te perguntar mais uma coisa - diz.
- O que quer que seja, tentarei responder.
- Mas  difcil.         
- No olha para mim, e no posso ver-lhe os olhos.  assim que me esconde os pensamentos. Algumas coisas nunca mudam.
- Leva o tempo que quiseres - digo. Sei o que ela vai perguntar.
Por fim, vira-se para mim e olha-me nos olhos. Oferece-me um doce sorriso, do tipo dos que se partilham com uma criana e no com um amante.
- Eu no quero ferir os teus sentimentos porque tens sido to bom para mim, mas...
Espero. As palavras ferem-me. Vo arrancar-me um pedao do corao e deixar cicatriz.
- Quem s tu?
Temos vivido nas instalaes dos Cuidados Extensivos em Creek-side j faz trs anos agora. A deciso de vir para aqui foi dela, em parte porque era perto da nossa 
casa, mas tambm porque pensou que seria mais fcil para mim. Alugmos a nossa casa porque nenhum de ns conseguia suportar vend-la, assinmos alguns papis, e 
num pice recebemos um lugar para viver e morrer em troca de alguma da liberdade pela qual tnhamos trabalhado uma vida inteira.

Ela tinha razo em decidir assim, claro. De modo algum eu teria podido faz-lo sozinho, porque chegou-nos a doena, aos dois. Estamos nos minutos finais do dia das 
nossas vidas, e o relgio est a fazer tiquetaque. Pergunto-me se serei o nico que consegue ouvi-lo.
Uma dor latejante corre-me atravs dos dedos, e recorda-me de que, desde que para aqui viemos, ainda no nos demos as mos com os dedos entrelaados. Fico triste 
por isso, mas a culpa  minha, no dela.  a artrite na sua pior forma, reumatide e avanada. As minhas mos esto deformadas e grotescas agora, e latejam durante 
a maior parte das horas em que estou acordado. Olho para elas e quero ver-me livre delas, amputadas, mas depois no seria capaz de fazer as pequenas coisas que tenho 
que fazer. Por isso uso as minhas garras, como s vezes lhes chamo, e todos os dias agarro na mo dela apesar da dor, e fao o melhor que posso para a segurar porque 
 o que ela quer que eu faa.
Embora a Bblia diga que o homem pode viver at aos cento e vinte anos, no o quero, e no acho que o meu corpo o conseguiria mesmo que quisesse. Est a cair aos 
bocados, a morrer uma parte de cada vez, eroso segura no interior e nas juntas. As mos so inteis, os rins esto a comear a falhar, e o ritmo do corao est-me 
a decrescer todos os meses. Pior ainda, tenho cancro de novo, desta vez na prstata. Este  o meu terceiro ataque do inimigo invisvel, e eventualmente levar-me-, 
embora no enquanto eu no disser que a hora chegou. Os mdicos esto preocupados comigo, mas eu no. No tenho tempo para me preocupar neste crepsculo da minha 
vida.
Dos nossos cinco filhos, quatro ainda vivem, e embora lhes seja difcil virem-nos visitar, aparecem muitas vezes, e fico grato por isso. Mas mesmo quando no esto 
aqui, chegam-me vivos na minha memria todos os dias, cada um deles, e trazem-me  mente os sorrisos e as lgrimas que vm com o crescimento de uma famlia. Uma 
dzia de fotografias alinham-se-me na parede do quarto. So a minha herana, a minha contribuio para o mundo. Estou muito orgulhoso. s vezes pergunto-me o que 
a minha mulher pensar deles quando sonha, ou se pensa neles sequer, ou se sequer sonha. H tanta coisa dela que j no compreendo.
Pergunto-me o que pensaria o meu pai da minha vida, e o que teria feito se fosse eu. No o vejo h cinquenta anos e agora  apenas uma sombra nos meus pensamentos. 
j no o consigo visualizar claramente - tem a cara obscurecida como se uma luz lhe brilhasse por detrs. No tenho a certeza se isto se deve a uma falha de memria 
ou apenas  passagem do tempo. S tenho um retrato dele, e tambm esse se desvaneceu. Dentro de mais uns dez anos desaparecer e eu tambm, e a memria dele ser 
apagada como uma mensagem na areia. Se no fosse pelos meus dirios, juraria que s tinha vivido metade do tempo que vivi. Longos perodos da minha vida parecem 
ter desaparecido. E mesmo agora leio as passagens e pergunto-me quem era eu quando as escrevia, porque no me consigo lembrar dos acontecimentos da minha vida. H 
alturas em que me sento e pergunto para onde foi tudo.

- O meu nome - digo -  Duke. - Sempre fui f de John Wayne.

- Duke - murmura ela para si -, Duke. - Pensa por um momento, a testa enrugada, os olhos srios.
- Sim - digo. - Estou aqui por ti. - "E sempre estarei", penso para mim.
Cora com a minha resposta. Os olhos ficam-lhe hmidos e vermelhos, as lgrimas comeam a cair. O meu corao di-se por ela, e desejo pela centsima vez que houvesse 
qualquer coisa que pudesse fazer. Ela diz:
- Desculpa. No compreendo nada do que me est a acontecer agora. At tu. Quando te escuto a falar sinto que devia conhecer-te, mas no conheo. Nem sequer sei o 
meu nome.
Limpa as lgrimas e diz:
- Ajuda-me, Duke, ajuda-me a lembrar-me de quem sou. Ou pelo menos de quem era. Sinto-me to perdida.
Respondo do corao, mas minto-lhe quanto ao nome dela. Tal como menti acerca do meu. H um motivo para isso.
- Tu s Hannah, uma amante da vida, uma fora para aqueles que partilharam da tua amizade. s um sonho, uma criadora de felicidade, uma artista que tocou milhares 
de almas. Viveste uma vida cheia e nunca nada te faltou porque as tuas necessidades so espirituais e s tens que olhar para dentro de ti. s bondosa e leal, e s 
capaz de ver beleza onde os outros no vem. s uma professora de maravilhosas lies, uma sonhadora de coisas melhores.
Paro por um momento e retomo a respirao. Depois:
- Hannah, no h motivo para te sentires perdida, porque:

Nada nunca est de facto perdido, nem pode ser perdido,Nascimento, identidade, forma - nenhum objecto do mundo,
Nem a vida, a fora, ou qualquer coisa visvel; ...
O corpo, preguioso, envelhecido, frio - as cinzas que ficaram de fogos anteriores, devidamente se inflamaro outra vez

Ela pensa no que eu disse por um momento. No silncio, olho pela janela e vejo que a chuva j parou. O sol comea a filtrar-se pelo quarto dela. Ela pergunta:
- Foste tu quem escreveu isso?
- No, foi Walt Whitman.
- Quem?
- Um amante de palavras, um formador de pensamentos. - No reage directamente. Em vez disso fica a olhar para mim durante um longo tempo, at que a nossa respirao 
coincide. Dentro. Fora. Dentro. Fora. Dentro. Fora. Inspiraes fundas. Pergunto-me se saber que a acho maravilhosa.
- Ficas comigo um bocadinho? - pede por fim.         
Sorrio e aceno com a cabea. Responde-me sorrindo. Procura a minha mo, pega-lhe delicadamente, e puxa-a para o colo. Fica a olhar os ns enrijecidos que me deformam 
os dedos e acaricia-os delicadamente. As mos dela so ainda as de um anjo.
- Vem - digo enquanto me levanto com muito esforo - vamos dar um passeio. O ar est fresco e os gansos jovens esto  espera. Est um lindo dia hoje. - Fico a olh-la 
enquanto digo estas ltimas palavras.
Ela cora. Faz-me sentir jovem outra vez.


Claro que era famosa. Uma das melhores pintoras sulistas do sculo vinte, dizem alguns, e eu ficava, e fico, orgulhoso dela. Ao contrrio de mim, que lutava para 
escrever at os versos mais simples, a minha mulher podia criar beleza to facilmente como o Senhor criou a Terra. Os quadros dela esto nos museus de todo o mundo, 
mas s guardei dois para mim. O primeiro que ela me deu, e o ltimo. Esto pendurados no meu quarto, e tarde na noite sento-me e fico a olh-los, e s vezes choro. 
No sei porqu.
E assim passaram os anos. Levmos as nossas vidas a trabalhar, pintar, criar crianas, a amarmo-nos um ao outro. Vejo fotos de Natais, viagens de famlia, licenciaturas 
e casamentos. Vejo netos e caras felizes. Vejo fotos nossas, o nosso cabelo a embranquecer, as rugas das nossas caras mais fundas. Uma vida que parece to normal, 
e porm to invulgar.
No podamos prever o futuro, mas quem pode? No vivo agora como esperava. E o que  que esperava? A reforma. Visitas aos netos, talvez mais viagens. Ela sempre 
adorou viajar. Pensei que talvez pudesse ter um passatempo novo, qual no sabia, mas talvez a construo de navios. Em garrafas. Pequenos, pormenorizados, impossvel 
de considerar agora com estas mos. Mas no me sinto amargo.
As nossas vidas no podem ser medidas pelos nossos anos finais, disto tenho a certeza, e acho que devia ter sabido o que nos esperava nas nossas vidas. Olhando para 
trs, suponho que parece bvio, mas no princpio achei que a confuso dela era compreensvel e normal. Comeava por esquecer onde pusera as chaves, mas quem no 
o esquece? Esquecia-se do nome de um vizinho, mas no de algum que conhecamos bem ou com quem socializvamos. s vezes ela escrevia o ano errado quando passava 
os cheques, mas de novo o punha de parte como um simples erro que se faz quando se est a pensar noutras coisas.
No foi seno quando os acontecimentos mais bvios comearam a ocorrer que comecei a suspeitar do pior. Um ferro de engomar no frigorfico, roupas na mquina da 
loia, livros no forno. Outras coisas tambm. Mas no dia em que a descobri no carro trs quarteires mais abaixo a chorar sobre o volante porque no conseguia encontrar 
o caminho para casa, foi o primeiro dia em que fiquei verdadeiramente assustado. E ela tambm estava assustada, porque quando bati na janela, virou-se para mim e 
disse, "Meu Deus, o que  que me est a acontecer? Por favor ajuda-me." Senti um n no estmago, mas no ousei pensar o pior.
Seis dias mais tarde o mdico viu-a e comeou uma srie de exames. No os entendia ento e no os compreendo agora, mas suponho que seja porque tenho medo de perceber. 
Demorou quase uma hora com o Dr. Barnwell, e voltou l no dia seguinte. Esse dia foi o mais longo que alguma vez passei. Folheei revistas que no conseguia ler e 
joguei jogos em que no pensava. Por fim ele chamou-nos aos dois ao consultrio e mandou-nos sentar. Ela dava-me o brao com confiana, mas recordo claramente que 
as minhas prprias mos estavam a tremer.
- Lamento muito ter que vos dizer isto - comeou o Dr. Barnwell -, mas parece que est nos primeiros estdios da doena de Alzheimer...

A minha mente ficou em branco, e tudo o que podia pensar era na luz que brilhava por cima das nossas cabeas. As palavras ecoavam-me na cabea: os primeiros estdios 
da doena de Alzheimer..
O mundo rodava em crculos, e sentia o brao dela tenso a apertar o meu. Ela sussurrou quase para si prpria: "Oh, Noah... Noah ... "
E quando as lgrimas comearam a cair, a palavra veio at mim outra vez: ... Alzheimer...
 uma doena estril, to vazia e sem vida como um deserto.  um ladro de coraes e almas e memrias. No sabia o que lhe dizer enquanto ela me soluava sobre 
o peito, por isso apenas a abracei e embalei para trs e para diante.
O mdico estava carrancudo. Sendo um homem bom, isto era difcil para ele. Era mais jovem que o meu filho mais novo, e senti a minha idade na presena dele. Tinha 
a mente confusa, o meu amor cambaleava, e a nica coisa que conseguia pensar era:

Nenhum afogado pode saber qual a gota
de gua que a sua respirao parou;...

As palavras sbias de um poeta, porm no me trouxeram conforto. No sei o que significam ou porque pensei nelas.
Embalvamo-nos para trs e para diante, e Allie, o meu sonho, a minha eterna beleza, pediu-me desculpa. Eu sabia que no havia nada a perdoar, e murmurei-lhe ao 
ouvido. "Vai correr tudo bem," murmurei, mas l por dentro tinha medo. Era um homem vazio com nada para oferecer, to vazio como a chamin de um forno na sucata.
S me lembro de bocados dispersos da explicao contnua do Dr. Barnwell.
-  uma doena degenerativa do crebro afectando a memria e a personalidade... no tem cura nem h tratamento... No h maneira de se saber a que velocidade evolui... 
varia de pessoa para pessoa... Gostava de saber mais... Alguns dias sero melhores que outros... Piora com a passagem do tempo... Lamento ter que ser eu a informar-vos...
Lamento...
Lamento ...
Lamento...         
Todos lamentaram. Os meus filhos ficaram de corao partido, os meus amigos assustados por si prprios. No me lembro de ter deixado o consultrio do mdico, e no 
me lembro de guiar at casa. As minhas recordaes desse dia desapareceram, e nisto a minha mulher e eu estamos quites.
J passaram quatro anos agora. De ento para c fizemos disto o melhor que pudemos, se  possvel. Allie organizava-se, como fosse a sua disposio. Tomou providncias 
para abandonarmos a casa e mudarmo-nos para aqui. Reescreveu o seu testamento e selou-o. Deixou instrues especficas quanto ao seu enterro, que esto na minha 
secretria, na gaveta do fundo. No as vi. E quando acabou, comeou a escrever. Cartas a amigos e filhos. Cartas a irmos e irms e primos. Cartas a sobrinhas, sobrinhos 
e vizinhos. E uma carta para mim.

Leio-a uma vez por outra quando estou com disposio para isso, e quando o fao, recordo-me de Allie nas frias noites de Inverno, sentada junto de um lume a rugir, 
um copo de vinho ao lado, a ler as cartas que lhe tinha enviado ao longo dos anos. Ela guardou-as, quelas cartas, e agora guardo-as eu, porque ela mo fez prometer. 
Disse que eu saberia o que fazer com elas. Estava certa - descobri que gostava de ler pedaos delas tal como ela costumava fazer. Intrigam-me, estas cartas, porque 
quando as esquadrinho apercebo-me de que o romance e a paixo so possveis em qualquer idade. Vejo a Allie agora e sei que nunca a amei tanto, mas quando leio as 
cartas, acabo a aperceber-me que sempre senti da mesma maneira.
Li-as pela ltima vez h trs noites, muito depois da hora em que j devia estar a dormir. Eram quase duas da manh quando fui at  secretria e descobri o pacote 
das cartas, espesso e alto, usadas do tempo. Desatei a fita, ela prpria quase com meio sculo de idade, e descobri as cartas que a me dela tinha escondido h muito 
tempo, e as que tinham sido escritas depois. Uma vida de cartas, cartas professando o meu amor, cartas do meu corao. Lancei-lhes um olhar com um sorriso nos lbios, 
escolhendo ao acaso, e por fim abri uma carta do nosso primeiro aniversrio.
Li um excerto:

Quando te vejo agora - a moveres-te devagar com uma nova vida a crescer dentro de ti - espero que saibas quanto significas para mim e como este ano foi especial. 
Nenhum homem  mais abenoado do que eu, e amo-te de todo o meu corao.

Pu-la de lado, dei mais uma volta ao pacote, e descobri outra, esta de uma noite gelada h trinta e nove anos.

Sentado a teu lado, enquanto a nossa filha mais nova desafinava na festa de Natal da escola, olhei para ti e vi um orgulho que vem apenas queles que sentem do fundo 
do corao, e soube que nenhum homem poderia ser mais feliz do que eu.

E depois quando o nosso filho morreu, aquele que saa mais  me... Foram os tempos mais difceis que alguma vez atravessmos, e as palavras ainda hoje soam a sinceras:

Em tempos de sofrimento e dor abraar-te-ei e embalar-te-ei, e tomarei o teu sofrimento e f-lo-ei meu. Quando choras, eu choro, e quando sofres, eu sofro. E juntos 
tentaremos conter as mars de lgrimas e desespero e conseguir passar os buracos negros das ruas da vida.

Paro s por um momento, a record-lo. Tinha quatro anos na altura, era apenas um beb. Eu j vivi vinte vezes mais do que ele, mas, se me perguntassem, teria trocado 
a minha vida pela dele.  uma coisa terrvel sobreviver aos nossos filhos, uma tragdia que no desejo a ningum.
Fao o que posso para manter as lgrimas  distncia, esquadrinho mais umas poucas para clarear a mente, e descubro a seguinte, dos nossos vinte anos de casados, 
algo muito mais fcil sobre que pensar:

Quando te vejo, minha querida, de manh antes de tomares duche ou no teu estdio coberta de tinta com o cabelo apanhado e os olhos cansados, sei que s a mulher 
mais bela do mundo.


E continuava, esta correspondncia da vida e do amor, e li mais uma dzia de cartas, algumas dolorosas, a maioria consoladoras. Pelas trs da manh estava cansado, 
mas tinha chegado ao fundo do pacote. Sobrava uma carta ainda, a ltima que lhe tinha escrito, e nesse momento sabia que tinha que continuar.
Levantei o selo e retirei as duas pginas. Pus a segunda de lado e mudei a primeira para mais perto da luz e comecei a ler:

Queridssima Allie
O alpendre est silencioso a no ser pelos sons que flutuam vindos das sombras, e por uma vez estou perdido e sem palavras.  uma estranha experincia para mim, 
porque quando penso em ti e na vida que partilhmos, h muito para lembrar. Uma vida de recordaes. Mas pr isso em palavras? No sei se sou capaz. No sou poeta, 
e no entanto  preciso um poema para exprimir completamente o modo como me sinto em relao a ti.
Por isso a mente deambula-me, e lembro-me de pensar na nossa vida juntos quando fiz o caf esta manh. Kate estava aqui, e Jane tambm, ambas ficaram caladas quando 
entrei na cozinha. Vi que tinham estado a chorar, e sem uma palavra, sentei-me ao lado delas na mesa e peguei-lhes nas mos. E queres saber o que vi quando olhei 
para elas? Vi-te a ti, h muito atrs, no dia em que nos despedimos. So parecidas contigo e como tu eras ento, belas e sensveis e feridas com a dor que vem quando 
algo de especial  roubado. E por um motivo que no tenho a certeza se compreendo, fiquei inspirado para lhes contar uma histria.
Chamei Jeff e David para virem para a cozinha, porque eles tambm estavam l, e quando as crianas estavam preparadas, contei-lhes sobre ns e como tu regressaste 
para mim h tanto tempo. Contei-lhes sobre o nosso passeio, e o jantar de caranguejos na cozinha, e eles ficaram a ouvir com sorrisos quando souberam do passeio 
de canoa, e de estarmos sentados diante do fogo com a tempestade a rugir l fora. Contei-lhes como a tua me nos veio avisar sobre Lon no dia seguinte - eles pareceram 
to surpreendidos como ns ficmos na altura - e sim, at lhes disse o que aconteceu mais tarde nesse dia, depois de teres regressado  cidade.
Esta parte da histria nunca me abandonou, mesmo depois deste tempo todo. Mesmo no tendo eu estado l, tu s ma descreveste uma vez, e lembro-me de ter ficado maravilhado 
com a fora que mostraste nesse dia. Ainda no consigo imaginar o que te passava pela cabea quando entraste na recepo e viste Lon, ou como te deves ter sentido 
a falar com ele. Disseste-me que vocs os dois abandonaram a estalagem e se foram sentar num banco perto da velha igreja metodista, e que ele te pegou na mo, mesmo 
enquanto explicavas tudo o que tinhas a dizer.

Sei que gostavas dele. E a reaco dele prova- me que tambm gostava de ti. No, ele no conseguia entender ter que te perder, mas como o poderia? Mesmo quando lhe 
explicaste que sempre me tinhas amado, e que no seria justo para ele, no te deixou a mo. Sei que estava ferido e zangado, e tentou durante quase uma hora fazer-te 
mudar de ideias, mas quando te mostraste-te firme e disseste: "No posso voltar contigo, lamento muito, " soube que a tua deciso tinha sido tomada. Disseste que 
ele apenas acenou com a cabea e que ficaram os dois ali durante muito tempo sem falar. Sempre me perguntei o que ele estaria a Pensar ali sentado contigo, mas tenho 
a certeza que foi da mesma maneira que eu me tinha sentido apenas algumas horas antes. E quando finalmente te levou ao carro, disseste-me que te tinha dito como 
eu era um homem de sorte. Comportou-se como o faria um cavalheiro, e compreendi ento porque te tinha sido to difcil escolher.
Lembro-me de que quando acabei a histria, a sala estava silenciosa at que por fim Kate se levantou e me veio beijar. "Oh, paizinho!" disse com lgrimas nos olhos, 
e embora eu pensasse ter que responder a perguntas, no me fizeram nenhumas. Em vez disso, deram-me algo de muito mais especial.
Durante as quatro horas seguintes, cada um deles contou-me quanto ns, ns os dois, tnhamos significado para eles durante o crescimento. Um por um, contaram histrias 
acerca de coisas que h muito tinha esquecido. E para o fim, estava eu a chorar porque me apercebi de como nos tnhamos sado bem ao cri-los. Estava to orgulhoso 
deles, e orgulhoso de ti, e feliz quanto  vida que tnhamos vivido. E nada nunca poder roubar isso. Nada. S desejava que tivesses estado ali para goz-lo comigo.
Depois de eles terem partido, fiquei a balanar-me em silncio, pensando no passado, na nossa vida juntos. Ests sempre aqui comigo quando o fao, pelo menos no 
meu corao, e -me impossvel recordar-me de um tempo em que tu no fosses uma parte de mim. No sei em quem me teria tornado se naquele dia no tivesses regressado 
para mim, mas no tenho dvidas de que teria vivido e morrido com pesares que felizmente nunca conhecerei.
Amo-te Allie. Sou quem sou por causa de ti. Tu s todas as razes, todas as esperanas, e todos os sonhos que sempre tive, e o que quer que nos acontea no futuro, 
cada dia em que estamos juntos  o melhor dia da minha vida. Serei sempre teu.
E, minha querida, sers sempre minha.         
Noah

Pus as pginas de lado e recordei ter estado sentado com Allie no nosso alpendre quando ela leu esta carta pela primeira vez. Foi ao fim da tardinha, com pinceladas 
de vermelho a cortar o cu de Vero, e os restos do dia a desvanecerem-se. O cu estava a mudar de cor lentamente e, enquanto observava o Sol a descer, lembro-me 
de ter pensado naquele momento breve e sbito em que o dia de repente se torna noite.
O crepsculo, apercebi-me ento,  apenas uma iluso, porque o sol ou est acima ou abaixo do horizonte. E isso significa que o dia e a noite esto ligados de uma 
maneira como poucas coisas o esto - no pode haver uma coisa sem a outra, porm no podem existir ao mesmo tempo. Como seria a sensao, lembro-me de me perguntar, 
de estar sempre juntos, porm para sempre separados?
Olhando para trs, acho irnico que ela tenha escolhido ler a carta no exacto momento em que essa pergunta me veio  cabea.  irnico, claro, porque agora conheo 
a resposta. Sei o que  ser noite e dia - sempre juntos, para sempre separados.


H beleza onde nos sentamos nesta tarde, Allie e eu. Isto  a cpula da minha vida. Esto aqui no ribeiro: os pssaros, os gansos - os meus amigos. Os seus corpos 
flutuam na gua fria, que reflecte fragmentos das suas cores e os faz parecer maiores do que so. Tambm Allie  levada pelo seu encantamento, e a pouco e pouco 
acabamos a conhecermo-nos outra vez.
-  bom falar contigo. Descubro que me faz falta, mesmo quando nem sequer passou assim muito tempo.
Sou sincero, e ela sabe-o, mas ainda est desconfiada. Sou um estranho.
- E costumamos fazer isto muitas vezes? - pergunta. Sentamo-nos aqui a ver os pssaros muitas vezes? Quero dizer, ns conhecemo-nos bem?
- Sim e no. Acho que toda a gente tem segredos, mas ns j nos conhecemos h muitos anos.
Olhou para as suas mos, depois para as minhas. Pensa nisto durante algum tempo, a cara num ngulo em que parece nova outra vez. No usamos as alianas. De novo, 
h um motivo para isso. Pergunta-me:
- Foste casado?         
Aceno com a cabea.        
- Sim.
- Como era ela?         
Digo a verdade.
- Ela era o meu sonho. Fez-lhe no que sou, e t-la nos meus braos era mais natural para mim que o bater do meu prprio corao. Penso nela o tempo todo. Mesmo agora, 
quando estou aqui sentado, penso nela. No podia ter existido outra.
Fica a digerir a informao. No sei como se sente sobre isto. Por fim fala docemente, a voz anglica, sensual. Pergunto-me se ela sabe que eu penso estas coisas.
- Ela j morreu?
O que  a morte? Interrogo-me, mas no o digo. Em vez disso respondo:
- A minha mulher est viva no meu corao. E sempre estar.
- Ainda a amas, no amas?
- Claro que sim. Mas amo muitas coisas. Gosto de estar aqui sentado contigo. Gosto de partilhar a beleza deste lugar com algum que me  querido. Gosto de ver a 
guia-marinha picar em direco ao rio e descobrir o jantar.
Fica em silncio por um momento. Olha para outro lado e assim no consigo ver-lhe a cara.  um hbito dela de anos.
- Por que  que fazes isto? - Sem medo, apenas curiosidade. Isto  bom. Sei o que ela quer dizer, mas pergunto na mesma.
- O qu?
- Por que  que passas o dia comigo?         
Sorrio.
- Estou aqui porque  aqui que tenho que estar. No  complicado. Tanto tu como eu nos estamos a divertir. No ponhas de parte o meu tempo passado contigo - no 
 perdido.  o que eu quero fazer. Sento-me aqui e falamos e fico a pensar sozinho. O que poderia ser melhor do que o que estou agora a fazer?
Olha-me nos olhos, e por um momento, apenas um momento, os olhos brilham-lhe de malcia. Um ligeiro sorriso forma-se-lhe nos lbios.
- Gosto de estar contigo, mas se o que tu queres  intrigar-me, conseguiste. Admito que gosto da tua companhia, mas no sei nada de ti. No espero que me contes 
a histria da tua vida, mas, por que  que s to misterioso?

- Li uma vez que as mulheres gostam de estranhos misteriosos.
- Vs, continuas a no responder  pergunta. No respondeste  maioria das minhas perguntas. Nem sequer me disseste como acabava a histria hoje de manh.
Encolho os ombros. Ficamos sentados silenciosos por um momento. Por fim pergunto.
-  verdade?
- Verdade o qu?
- Que as mulheres gostam de estranhos misteriosos?         
Pensa no assunto e ri-se. Depois responde como eu o faria:
- Acho que algumas mulheres gostam.
- E tu?         
- V l, no tentes pr-me no molho. No te conheo suficientemente bem para isso. - Ela est a troar de mim, e agrada-me.
Ficamos sentados em silncio a observar o mundo  nossa volta. Levou-nos uma vida a aprender isto. Parece que os velhos so capazes de ficar sentados um ao lado 
do outro sem dizerem nada e ainda assim satisfeitos. Os jovens, activos e impacientes, tm sempre que quebrar o silncio.  um desperdcio, porque o silncio  puro. 
O silncio  sagrado. Une as pessoas porque s os que se do bem uns com os outros se podem sentar juntos sem falar.  este o grande paradoxo.
O tempo passa, e gradualmente a nossa respirao comea a coincidir tal como aconteceu hoje de manh. Inspiraes profundas, expiraes descontradas, e h um momento 
em que ela adormece, como acontece muitas vezes com aqueles que esto bem um com o outro. Pergunto-me se os jovens sero capazes de gozar isto. Por fim, quando acorda, 
um milagre:
Vs aquele pssaro? - Aponta, e eu semicerro os olhos.  milagre que o possa ver, mas posso porque o sol est forte. Tambm aponto.
- Um esterno caspiano - digo docemente, e concentramos nele a nossa ateno enquanto desliza sobre o regato de Brices. E, como um velho hbito redescoberto, quando 
baixo o brao, ponho a mo sobre o joelho dela e ela no ma manda tirar.
Ela tem razo quanto ao facto de ser evasivo. Em dias como este, quando s a memria lhe desapareceu, sou vago nas minhas respostas porque muitas vezes nestes ltimos 
anos, devido  minha lngua comprida, j feri a minha mulher sem inteno e estou determinado a no deixar que acontea outra vez. Por isso limito-me a responder 
s ao que  perguntado, s vezes no muito bem, e no deixo escapar nada.
Foi uma deciso dbia, boa e m, mas necessria, porque com o conhecimento vem a dor. Para limitar a dor limito as respostas. H dias em que ela nunca sabe dos filhos 
ou que somos casados. Lamento-o, mas no mudarei.

Ser que isso me torna desonesto? Talvez, mas j a vi esmagada pelas cataratas de informao que  a vida dela. Poderia eu olhar para mim prprio no espelho sem 
olhos vermelhos e o queixo a tremer e saber que me esqueci de tudo o que era importante para mim? No poderia, e ela tambm no pode, porque quando esta odisseia 
comeou, foi assim que eu comecei. A vida dela, o casamento, os filhos. Os amigos e o trabalho. Perguntas e respostas no jogo  moda do espectculo Isto  a tua 
vida.         
Os dias eram duros para ns os dois. Eu era uma enciclopdia, um objecto sem sentimentos, sobre os quem, o qu e onde da vida dela, quando na realidade  os porqus, 
as coisas que eu no sabia e no podia responder, que faziam tudo valer a pena. Ela ficava a olhar fixamente para fotos de descendncia esquecida, pegava em pincis 
que no inspiravam nada, e lia cartas de amor que no devolviam alegrias. Ficava mais fraca com o passar das horas, cada vez mais plida, tornando-se amarga, e acabando 
o dia pior do que quando comeava. Os nossos dias perdiam-se, e ela tambm. E, egoisticamente, tambm eu.
Por isso mudei. Tornei-me Magalhes, ou Colombo, um explorador dos mistrios da mente, e aprendi, meticuloso e lento, mas aprendendo na mesma o que tinha de ser 
feito. E aprendi o que  bvio para uma criana. Que a vida  simplesmente uma coleco de pequenas vidas, cada uma vivida um dia de cada vez. Que cada dia devia 
ser passado a procurar beleza nas flores e na poesia e a falar com os animais. Que um dia gasto a sonhar acordado, com pres-do-sol e brisas frescas no se pode 
melhorar. Mas, mais que tudo, aprendi que a vida consiste em sentar-se em bancos junto a regatos antigos com a minha mo no Joelho dela, e s vezes, nos dias bons, 
a ficar apaixonado.

- Em que ests a pensar? - pergunta ela.         
Agora j  crepsculo. Deixmos o nosso banco e vamos arrastando os ps ao longo de caminhos iluminados que serpenteiam  volta deste complexo. Ela d-me o brao, 
e eu sou o seu acompanhante. A ideia foi dela. Talvez esteja seduzida por mim. Talvez queira impedir que eu caia. De qualquer maneira, estou a sorrir para comigo.
- Estou a pensar em ti.         
No reage a isto com mais que um aperto no brao, e posso dizer que gostou do que eu disse. A nossa vida juntos permitiu-me perceber os sinais, mesmo se ela prpria 
no os conhece. Continuo:
- Sei que no consegues lembrar-te de quem s, mas eu posso, e descubro-o quando olho para ti, e faz-me sentir bem.
D-me umas palmadinhas no brao e sorri.
- Tu s um homem bondoso com um corao amante. Espero ter gostado de estar contigo antes tanto como gosto agora.
Continuamos a andar mais um pouco. Por fim diz:
- Tenho que te dizer uma coisa.
- Avana.
- Acho que tenho um admirador.
- Um admirador?
- Sim.
- Estou a ver.
- No acreditas em mim?
- Acredito.
- Devias acreditar.
- Porqu?
- Porque acho que s tu.         

Penso nisto enquanto caminhamos em silncio, apoiando-nos um ao outro, para l dos quartos, para l dos ptios. Chegamos ao jardim, na maioria flores selvagens, 
e fao-a parar. Apanho um ramo - flores vermelhas, rosa, amarelas, violeta. Dou-lho, e ela leva-as ao nariz. Cheira-as de olhos fechados e murmura, "So lindas." 
Acabamos o nosso passeio, eu numa mo, as flores na outra. As pessoas observam-nos, porque somos um milagre ambulante, ou assim mo dizem. De uma maneira  verdade, 
embora na maioria das vezes no me sinta com sorte.
- Achas que sou eu? - pergunto por fim.
- Sim.
- Porqu?
- Porque descobri o que tu escondeste.
- O qu?
- Isto - diz, mostrando-me uma tira de papel. - Descobri isto debaixo da minha almofada.
Leio-o, e diz:

O corpo abranda com dor mortal, mas a minha promessa         
mantm-se verdadeira no cerrar dos nossos dias,         
Um toque terno a acabar num beijo         
acordar o amor em modos de alegria.

- Tens l mais? pergunto.
- Encontrei este na algibeira do meu casaco.

Se queres saber, as nossas almas foram uma
e nunca podero vir a ser separadas         
A tua face radiante ao crepsculo esplndido         
Procuro por ti e encontro o meu corao

- Estou a ver - e  tudo o que digo.         
Vamos caminhando enquanto o Sol se afunda mais baixo no cu. A seu tempo, o crepsculo de prata ser o nico despojo do dia, e continuamos a falar de poesia. Ela 
est entusiasmada com o romance.
Pela altura em que chegamos  entrada j estou cansado. Ela sabe-o, por isso faz-me parar com a mo e obriga-me a encar-la. Fao-o e apercebo-me de como fiquei 
marreco. Agora estamos os dois da mesma altura. s vezes fico contente que ela no saiba quanto mudei. Vira-se para mim e fica a olhar-me por um momento.
- O que  que ests a fazer? - pergunto.
- No quero esquecer-te ou a este dia, e estou a tentar manter viva a memria de ti.
Ser que desta vez vai funcionar? Pergunto-me, e depois sei que no. No pode. Portanto no conto os meus pensamentos. Em vez disso sorrio porque as palavras dela 
so doces.
- Obrigado - digo.         
- Estou a falar a srio. No quero esquecer-me de ti outra vez. Tu s muito especial para mim. No sei o que teria feito hoje sem ti.
A garganta aperta-se-me um pouco. H emoo por detrs das palavras dela, as emoes que sinto sempre que penso nela. Sei que  por causa disso que eu vivo, e a 
amo carinhosamente neste momento. Como desejaria ser suficientemente forte para a levar nos meus braos para o paraso.
- No tentes dizer nada - diz-me ela. - Vamos s sentir o momento.
E eu obedeo, e sinto o cu.


A doena dela est pior agora do que no princpio, embora Allie seja diferente da maioria. H aqui outros trs com o mesmo mal, e estes trs so a soma da minha 
experincia prtica com a doena. Eles, ao contrrio de Allie, esto nos estdios mais avanados da Alzheimer e quase completamente perdidos. Acordam com alucinaes 
e confusos. Repetem-se vezes sem fim. Dois dos trs j no se conseguem alimentar e em breve morrero. A terceira tem tendncia para ir passear e perder-se. Foi 
encontrada uma vez no carro de um estranho a um quilmetro de distncia. Desde ento tem sido preciso amarr-la  cama. Todos podem mostrar-se muito amargos s vezes, 
e outras vezes parecem crianas perdidas, tristes e ss. Muito raramente conhecem as empregadas ou as pessoas queridas.  uma enfermidade exaustiva, e por isso  
que se torna difcil para os filhos deles, e para os meus, visitarem-nos.
Allie, claro, tambm tem os seus prprios problemas, problemas que provavelmente se agravaro com o tempo. Tem um medo horrvel nas manhs, e chora inconsolavelmente. 
V gente pequenina, como gnomos, penso eu, a observ-la, e grita para se irem embora. Toma banho de boa vontade, mas no come regularmente. Est magra agora, demasiado 
magra na minha opinio, e nos dias bons fao o melhor que posso para a engordar.
Mas  aqui que as semelhanas se acabam.  por isto que Allie  considerada um milagre, porque s vezes, s s vezes, depois de eu ler para ela, o estado geral no 
 to mau. No h explicao para isto. " impossvel," dizem os mdicos. "Ela no deve ter Alzheimer." Mas tem. Na maior parte dos dias e cada manh no pode haver 
dvidas. E aqui h concordncia. Mas porqu, ento,  o estado dela diferente? Porque  que ela s vezes muda depois de eu lhe ler? Eu digo a razo aos mdicos - 
sei qual  no meu corao - mas no acreditam em mim. Em vez disso olham para a cincia. Por quatro vezes especialistas viajaram de Chapel Hill para descobrir a 
resposta. Quatro vezes se foram embora sem compreender. Eu digo-lhes: "No podem certamente compreender o que se passa a usarem apenas o vosso treino e os vossos 
livros," mas abanam as cabeas e respondem: "A doena de Alzheimer no funciona assim. No estado dela,  pura e simplesmente impossvel ter uma conversa ou melhorar 
 medida que o dia passa. Impossvel."
Mas ela melhora. No todos os dias, no a maior parte das vezes, e definitivamente muito menos do que era costume. Mas s vezes. E tudo o que lhe desapareceu nestes 
dias foi a memria, como se tivesse amnsia. Mas as emoes ficam normais, os pensamentos ficam normais. E estes so os dias em que eu sei que estou a agir bem.

O jantar est  nossa espera no quarto dela quando regressamos. Foi combinado que comeramos ali, como sempre em dias como o de hoje, e mais uma vez no poderia 
exigir mais. As pessoas aqui tomam conta de tudo. So bons para mim, e estou-lhes grato.

As luzes foram diminudas, o quarto est iluminado por duas velas sobre a mesa em que nos iremos sentar, e h msica de fundo a tocar docemente. Os copos e os pratos 
so de plstico, e a garrafa est cheia com sumo de ma - as regras so as regras - mas ela parece no se importar. Inspira levemente perante a viso. Os olhos 
abertos de espanto.
- Foste tu quem fez isto?         
Aceno afirmativamente e ela entra no quarto.
- Est maravilhoso.         
Ofereo-lhe o brao para a conduzir at  janela. No se liberta quando l chegamos. O toque  agradvel, e ficamos ali de p juntos nesta cristalina tarde de Primavera. 
A janela est ligeiramente aberta, e sinto uma brisa a roar-me o queixo. A Lua ergueu-se, e ficamos a observ-la durante muito tempo enquanto o cu nocturno se 
exibe.
- Nunca vi nada de to belo, tenho a certeza - diz, e concordo com ela.
- Eu tambm no - digo, mas estou a olhar para ela. Sabe o que quero dizer, e vejo-a sorrir. Um momento mais tarde murmura.
- Acho que sei com quem  que a Allie foi ter no final da histria - diz.
- Sabes?
- Sim.
- Quem?
- Foi ter com Noah.
- Tens a certeza?
- Absoluta.         
Sorrio e abano a cabea.
- Sim, pois foi - digo docemente, e devolve-me o sorriso. A face radiante.
Puxo-lhe a cadeira com algum esforo. Senta-se e eu sento-me diante dela. Oferece-me a mo por cima da mesa, agarro-a na minha, e sinto o polegar dela comear a 
mover-se como o fazia h tantos anos. Sem falar, fico a olh-la durante muito tempo, vivendo e revivendo os momentos da minha vida, recordando tudo e tornando-o 
real. Sinto a garganta comear a apertar, e mais uma vez apercebo-me de quanto a amo. Tenho a voz a tremer quando por fim falo.
- s to bela - digo. Posso ver-lhe nos olhos que conhece os meus sentimentos para com ela e o que de facto quero dizer com as minhas palavras.
No reage. Em vez disso baixa os olhos e fico-me a imaginar o que estar pensando. No me d pistas, e delicadamente aperto-lhe a mo. Espero. Com todos os meus 
sonhos, conheo o corao dela, e sei que estou quase l.
E depois o milagre, que me prova que estou certo.         
Enquanto Glenn Miller toca suavemente num quarto iluminado  luz das velas, observo o momento em que ela gradualmente cede aos sentimentos dentro de si. Vejo um 
sorriso quente comear a formar-se-lhe nos lbios, do tipo que faz tudo valer a pena, e observo o modo como ela levanta os seus olhos de bruma em direco aos meus. 
Puxa a minha mo em direco a si.
- Tu s maravilhoso... - diz docemente, arrastando-se, e nesse momento tambm ela fica apaixonada por mim; - eu sei, porque vi os sinais milhares de vezes.

No diz mais nada logo de imediato, no  preciso, e lana-me um olhar vindo de outra vida que me faz completo outra vez. Devolvo o sorriso, com o mximo de paixo 
que consigo congregar, e ficamos a olhar um para o outro com os sentimentos dentro de ns em turbilho como ondas do mar. Olho em volta do quarto, depois para o 
tecto, depois de novo para Allie, a maneira como ela me olha aquece-me por dentro. Subitamente sinto-me jovem outra vez. j no tenho frio, nem dores, nem estou 
marreco nem deformado, ou quase cego das cataratas.
Estou forte e orgulhoso, e sou o homem mais afortunado ao cimo da terra, e fico a sentir-me assim durante muito tempo do outro lado da mesa.
Pela altura em que as velas j arderam por um tero, estou pronto a quebrar o silncio. Digo, "Amo-te profundamente, e espero que saibas isto."
- Claro que sei - diz ela sem flego. - Tambm te amei sempre, Noah.
Noah, oio outra vez. Noah. A palavra ecoa-me na cabea. Noah... Noah. Ela sabe, penso para mim, ela sabe quem eu sou...
Ela sabe...
Uma coisa to pequenina, este conhecimento, mas para mim  uma ddiva de Deus, e sinto a nossa vida juntos, a abra-la, a am-la, e estando com ela nos melhores 
anos da minha vida.
Ela murmura, "Noah... meu doce Noah..."
E eu, que no podia aceitar as palavras dos mdicos, triunfei de novo, pelo menos por um momento. Desisto da pretenso dos mistrios, e beijo-lhe a mo e levo-a 
at  minha face e murmuro-lhe ao ouvido. Digo:
- Tu s a melhor coisa que alguma vez me aconteceu.
- Oh... Noah - diz ela com lgrimas nos olhos. - Tambm te amo.

Se ao menos pudesse acabar assim, eu seria um homem feliz. Mas no ir acabar assim. Disso tenho a certeza, pois  medida que o tempo vai passando, comeo a ver-lhe 
os sinais de preocupao na cara.
- O que  que se passa? - pergunto, e a resposta dela vem devagarinho.
- Tenho tanto medo. Tenho medo de me esquecer de ti outra vez. No  justo... No consigo suportar ter que desistir disto.
A voz quebra-se-lhe quando acaba, mas no sei o que dizer. Sei que a noite est a chegar ao fim, e no h nada que eu possa fazer para evitar o inevitvel. Nisto 
sou um falhado. Digo-lhe por fim:
- Nunca te abandonarei. O que ns temos  eterno.         
Sabe que isto  tudo o que posso fazer, porque nenhum de ns quer promessas vs. Mas posso dizer pelo modo como me olha que mais uma vez ela desejaria que houvesse 
mais qualquer coisa.
Os grilos cantam-nos uma serenata, e comeamos a petiscar o jantar. Nenhum de ns tem fome, mas dou o exemplo e ela segue-me. Leva pequenos pedaos  boca e fica 
a mastigar muito tempo, Mas fico contente por v-la a comer. Perdeu muito peso nos ltimos trs meses.

Depois do jantar, fico com medo apesar de mim. Sei que devia estar alegre, porque esta reunio  prova de que o amor ainda nos pertence, mas sei que j tocou a finados 
para esta noite. O Sol j se ps h muito e o ladro est a chegar, e no h nada que possa fazer para o impedir. Por isso fico a olhar para ela e espero e vivo 
uma vida nestes ltimos momentos que nos restam.
Nada.        O relgio no pra.         
Nada.         
Abrao-a e ficamos agarrados um ao outro.         
Nada.         
Sinto-a a tremer e murmuro-lhe ao ouvido.         
Nada.         
Digo-lhe pela ltima vez nesta noite que a amo.
E chega o ladro.         
Surpreende-me sempre a rapidez com que tudo acontece. Mesmo agora, depois deste tempo todo. Porque enquanto ela me abraa, comea a pestanejar rapidamente e a abanar 
a cabea. Depois, virando-se para o canto do quarto, fica a olhar fixamente durante muito tempo, a preocupao esboando-se-lhe na cara. No! grita-me a mente. Ainda 
no! No agora... no quando estamos to perto! Hoje no! Qualquer outra noite, mas hoje no... Por favor! As palavras ficam dentro de mim. No vou conseguir suport-lo 
outra vez! No  justo... no  justo...
Mas mais uma vez no serve de nada.
- Aquelas pessoas - diz ela por fim, apontando -, esto a olhar para mim. Por favor manda-as embora.
Os gnomos.         
Um poo abre-se-me no estmago, duro e cheio. A respirao pra-se-me por um momento, depois comea de novo, desta vez mais superficial. A boca seca-se-me, e sinto 
o corao a acelerar. Acabou, eu sei, e estou certo. O crepsculo chegou. Isto, a confuso nocturna associada com a doena de Alzheimer que afecta a minha mulher, 
 a parte mais dura de todas. Porque quando chega, ela vai-se embora, e s vezes pergunto-me se ela e eu nos amaremos outra vez.
- No est ali ningum, Allie - digo, tentando afastar o inevitvel. Ela no acredita em mim.                
- Eles esto a olhar para mim.
- No - murmuro enquanto abano a cabea numa negativa.
- No os consegues ver?
- No - digo, e ela fica a pensar por um momento.
- Bom, esto mesmo ali - diz empurrando-me -, e esto a olhar para mim.
Com isto, comea a falar sozinha, e momentos mais tarde, quando tento confort-la, estremece, de olhos esbugalhados.
- Quem s tu? - grita com pnico na voz, a face a empalidecer. - O que ests a fazer aqui? - O medo cresce dentro dela, e sinto-me ferido, porque no h nada que 
possa fazer. Afasta-se mais de mim, recuando, as mos em posio defensiva, e depois diz as palavras que mais me partem o corao.
- Vo-se embora! Afastem-se de mim! - grita. Est a afastar de si os gnomos, aterrorizada, agora j esquecida da minha presena.
Levanto-me, e atravesso o quarto at  cama dela. Estou fraco agora, doem-me as pernas, e h uma dor estranha no lado. No sei de onde vem.  uma luta difcil premir 
o boto para chamar as enfermeiras, porque tenho os dedos a latejar e parecem ter congelado juntos, mas por fim l o consigo. Em breve estaro aqui, eu sei, e espero 
por elas. Enquanto espero, fico a observar a minha mulher.
Depois...         

Vinte..
Trinta segundos passam, e continuo a observar, os meus olhos no perderam nada, recordando os momentos que acabmos de partilhar juntos. Mas durante todo esse tempo 
ela no olha para trs, e fico assombrado pelas vises da luta dela com inimigos invisveis.
Sento-me na ponta da cama com as costas doridas e comeo a chorar enquanto pego no livro de apontamentos. Allie nem repara. Compreendo, porque a mente dela se perdeu.
Um par de pginas caem no cho, e inclino-me para as apanhar. Agora estou cansado, por isso sento-me, sozinho, distante da minha mulher. E quando as enfermeiras 
chegam vem duas pessoas que tm que confortar. Uma mulher a tremer por causa dos demnios da sua mente, e um velho que a ama mais profundamente que a prpria vida, 
a chorar docemente num canto, a cara escondida nas mos.
Passo o resto da noite sozinho no meu quarto. Tenho a porta parcialmente aberta e vejo as pessoas a passar, alguns estranhos, alguns amigos, e se me concentrar, 
consigo ouvi-los a falar sobre as suas famlias, os empregos, e visitas aos parques. Conversas vulgares, nada mais, mas sinto que os invejo e  facilidade da sua 
comunicao. Outro pecado mortal, eu sei, mas s vezes no o consigo evitar.
O Dr. Barnwell est c, tambm, a falar com uma das enfermeiras, e pergunto-me quem estar to doente para provocar uma tal visita a estas horas. Ele trabalha demais, 
costumo dizer-lhe. Passe mais tempo com a sua famlia, digo-lhe, eles no vo estar por aqui para sempre. Mas no me ouve. Preocupa-se com os seus pacientes, diz, 
e tem que vir aqui sempre que o chamam. Diz que no tem alternativa, mas isto transforma-o num homem dividido por contradies. Quer ser um mdico totalmente devotado 
aos seus doentes e um homem totalmente devotado  famlia. No pode ser as duas coisas, porque no h horas que cheguem, mas ainda tem que aprender isto. Pergunto-me, 
enquanto a voz dele se dissolve no fundo, quem ir ele escolher, ou quando, tristemente, ser a escolha feita por ele.
Sento-me  janela num sof e penso no dia de hoje. Foi feliz e triste, maravilhoso e terrvel. As minhas emoes conflituosas mantm-me em silncio por muitas horas. 
Hoje no fui ler para ningum - no era capaz, porque a introspeco potica levar-me-ia s lgrimas. Com o tempo, os corredores ficam silenciosos  excepo das 
passadas dos soldados da noite. s onze horas oio os sons familiares que por algum motivo esperava. As passadas que to bem conheo.
O Dr. Barnwell espreita.
- Reparei que ainda tinha a luz acesa. Importa-se que entre?
- No - digo, abanando a cabea. Entra e olha em volta do quarto antes de escolher uma cadeira a alguns centmetros de mim.
- Ouvi dizer - comea -, que hoje teve um dia bom com a Allie. - Sorri. Anda intrigado connosco e com a nossa relao. No sei se este interesse  estritamente profissional.
- Acho que sim.
Pe a cabea de lado com a minha resposta e olha para mim.
- Voc est bem, Noah? Parece-me um pouco em baixo.

- Estou bem. S um pouco cansado.
- Como estava a Allie hoje?
- Estava bem. Falmos quase durante quatro horas.
- Quatro horas? Noah, isso... isso  incrvel.
S consigo acenar. Ele continua, abanando a cabea.         
- Nunca vi nada como isto, nem sequer ouvi nada semelhante. Acho que o amor  que conta. Vocs os dois foram feitos um para o outro. Ela deve am-lo muito. Sabe 
isso, no sabe?
- Sei - digo, mas no consigo acrescentar mais nada.         
- O que  que o est a preocupar, Noah? Allie disse ou fez qualquer coisa que o ferisse?
- No. De facto ela foi maravilhosa.  s que agora sinto-me... sozinho.
- Sozinho?
- Sim.
- Ningum est sozinho.
- Eu estou sozinho - digo enquanto olho para o meu relgio e penso na famlia dele a dormir numa casa silenciosa, no lugar onde ele devia estar -, e voc tambm.

Os dias seguintes passaram-se sem nada de especial. Allie foi incapaz de me reconhecer em qualquer momento, e admito que a minha ateno de vez em quando se desviava, 
porque a maioria dos pensamentos se me concentravam no dia que tnhamos passado. Embora o fim chegue sempre cedo demais, no houvera nada de perdido nesse dia, s 
de ganho, e sentia-me feliz por ter recebido aquela bno mais uma vez.
Na semana seguinte, a minha vida tinha regressado ao seu normal. Ou pelo menos ao mais normal que a minha vida pode ser. A ler para Allie, a ler para os outros, 
a passear pelos corredores. A ficar acordado  noite e a sentar-me junto ao aquecimento nas manhs. Sinto um estranho conforto na previsibilidade da minha vida.
Numa manh fresca e enevoada, oito dias depois de ela e eu termos passado o nosso dia juntos, acordei cedo, como  meu alternadamente hbito, e andei a remexer na 
minha secretria, olhando para fotografias e a ler cartas escritas muitos anos atrs. Pelo menos tentava. No me conseguia concentrar muito bem porque tinha uma 
dor de cabea, por isso pu-las de lado e fui sentar-me na cadeira junto  janela a observar o Sol a nascer. Allie iria acordar dentro de umas duas horas, sabia, 
e queria estar descansado, porque passar o dia a ler s me iria dar mais dores de cabea.
Fechei os olhos durante alguns minutos enquanto o latejar nas tmporas crescia e abrandava. Depois, abrindo-os, via o meu velho amigo, o ribeiro, a correr-me diante 
da janela. Ao contrrio de Allie, tinha-me sido dado um quarto de onde o podia ver, e nunca deixou de me inspirar.  uma contradio - este regato - com centenas 
de milhares de anos de idade e renovado com cada chuvada. Falei com ele nessa manh, murmurei de modo a que me pudesse ouvir, "s abenoado, meu amigo, e eu sou 
abenoado, e juntos enfrentaremos os dias que a vm." As pequenas crispaes e as ondas circularam e torceram-se num assentimento, o plido brilho da luz matinal 
a reflectir-se no mundo que partilhamos. O regato e eu. Correndo, em refluxo, recuando.  a vida, penso, a observar a gua. Um homem pode aprender tantas coisas.

Aconteceu enquanto eu estava sentado na cadeira, mesmo quando o Sol comeava a espreitar no horizonte. A minha mo, reparei, comeou com picadas, algo que nunca 
antes tinha acontecido. Comecei a levant-la, mas vi-me forado a parar quando a cabea me comeou a latejar outra vez, com mais fora, quase como se tivesse sido 
atacada com um martelo. Fechei os olhos, depois apertei as plpebras com fora. A mo deixou de sentir picadas e depois comeou a ficar dormente, muito depressa, 
como se os nervos me tivessem sido subitamente cortados algures no antebrao. O pulso fechou-se enquanto uma dor de tiro me balanou a cabea e parecia fluir pelo 
pescoo abaixo e adentro de cada uma das clulas do meti corpo, como uma onda de mar viva, esmagando e arrasando tudo no seu caminho.
Perdi a vista, e ouvi o que parecia ser um comboio a rugir a milmetros da minha cabea, e percebi que estava a ter uma trombose. A dor correu-me pelo corpo como 
um raio, e nos ltimos momentos de conscincia que me sobraram, imaginei Allie, deitada na sua cama,  espera da histria que eu nunca mais lhe iria ler, perdida 
e confusa, completa e totalmente incapaz de tratar de si. Tal como eu. E enquanto os olhos se me fechavam para o tempo final, pensei para comigo, "Oh, Deus, o que 
 que eu fiz?"

Durante dias alternava entre a conscincia e a inconscincia, e nos momentos em que estava acordado, descobria-me agarrado a mquinas, com tubos pelo nariz acima 
e pela garganta abaixo, e dois sacos de fluidos pendurados junto  cama. Podia ouvir o suave zunido das mquinas, zumbindo ligadas e desligadas, s vezes fazendo 
rudos que no conseguia reconhecer. Uma das mquinas apitando com o ritmo do meu corao, acalmava-me estranhamente, e descobri-me embalado por ela para uma terra 
de ningum vez aps vez.
Os mdicos estavam preocupados. Podia ver-lhes a inquietao nas caras atravs dos olhos franzidos enquanto investigavam os grficos e ajustavam as mquinas. Murmuravam 
os seus pensamentos, pensando que eu no os poderia ouvir. "Os ataques podem ser perigosos," diziam, "especialmente para algum desta idade, e as consequncias podem 
ser graves." Caras sombrias antecipavam as suas predies - "perda da fala, perda dos movimentos, paralisia." Outra anotao nos grficos, outro bip de uma mquina 
estranha, e iam-se embora, nunca sabendo que tinha ouvido todas as palavras. Tentei no pensar nestas coisas depois e, em vez disso, concentrar-me em Allie, invocando 
a imagem dela  minha mente sempre que podia. Fiz o melhor que pude para trazer a vida dela para dentro da minha, para nos tornarmos um outra vez. Tentava sentir 
o toque dela, ouvir-lhe a voz, ver-lhe a cara, e quando o conseguia as lgrimas enchiam-me os olhos porque no sabia se seria capaz de a abraar outra vez, de lhe 
murmurar, de passar o dia com ela a falar-lhe, a ler-lhe e a passearmos. No era assim que eu imaginara, ou esperara, que as coisas acabassem. Tinha sempre assumido 
que seria o ltimo a partir. No era assim que deveria ser.

Vagueava dentro e fora da conscincia por dias, at uma outra manh enevoada, quando a minha promessa a Allie mais uma vez me esporeou o corpo. Abri os olhos e vi 
um quarto cheio de flores, e o perfume delas ainda mais me motivou. Procurei pela campainha, lutei para premi-la, e uma enfermeira chegou trinta segundos depois, 
seguida de perto pelo Dr. Barnwell, que sorriu quase imediatamente.
- Tenho sede - disse com voz rouca, e o Dr. Barnwell sorriu abertamente.
- Bem-vindo de volta - disse -, sabia que ia conseguir.

Duas semanas mais tarde j sou capaz de deixar o hospital, embora agora seja apenas metade de um homem. Se fosse um Cadillac, andaria aos crculos, s com um lado 
das rodas a funcionar, porque o lado direito do meu corpo est mais fraco que o esquerdo. Isto, dizem-me eles, so boas notcias, porque a paralisia poderia ter 
sido total. s vezes, parece, estou rodeado de optimistas.
A m notcia  que as minhas mos me impedem de usar tanto uma bengala quanto a cadeira de rodas, por isso agora tenho que andar de acordo com a minha cadncia original 
para me manter direito. No num esquerdo-direito-esquerdo como era usual na juventude, ou mesmo o arrasta-arrasta dos ltimos tempos, mas antes o arrasta-devagar, 
escorrega-da-direita, arrasta-devagar. Sou uma aventura pica agora quando atravesso os corredores. At para mim  andar muito devagar, isto vindo de um homem que 
h duas semanas dificilmente poderia ultrapassar uma tartaruga.
J  tarde quando regresso, e quando chego ao meu quarto, sei que no irei dormir. Inspiro profundamente e cheiro as fragrncias primaveris que se filtram atravs 
do quarto. Deixaram a janela aberta, e o ar est um bocado fresco. Sinto-me revigorado pela mudana de temperatura. Evelyn, uma das muitas enfermeiras daqui que 
tem um tero da minha idade, ajuda-me a sentar na cadeira que est colocada junto  janela e comea a fech-la. Fao-a parar, e embora levante o sobrolho, aceita 
a minha deciso. Oio uma gaveta a abrir-se, e um momento mais tarde uma camisola -me enrolada  volta dos ombros. Ela ajusta-a como se eu fosse uma criana, e 
quando termina pe-me a mo no ombro e d-lhe umas palmadinhas suaves. No diz nada enquanto faz isto, e pelo silncio dela sei que est a olhar para l da janela. 
Fica sem se mexer durante muito tempo, e interrogo-me quanto ao que estar a pensar, mas no lho pergunto. Acabo por ouvi-la suspirar. Vira-se para partir, e enquanto 
o faz, pra, inclina-se para a frente, e d-me um beijo na cara, ternamente, da mesma maneira que o faz a minha neta. Fico surpreendido com isto, e ela diz baixinho, 
" bom t-lo de volta. Allie tem sentido muito a sua falta, e ns tambm. Estvamos todos a rezar por si porque isto no fica o mesmo quando no est por c." Sorri-me 
e faz-me uma festa na cara antes de sair. No digo nada. Mais tarde oio-a entrar outra vez, empurrando um carrinho, falando com outra enfermeira, as vozes camufladas.

Hoje a noite est estrelada, e o mundo brilha com um estranho azul. Os grilos cantam, e o som deles afoga tudo o resto. Aqui sentado, pergunto-me se algum me pode 
ver l de fora, a este prisioneiro da carne. Passo os olhos pelas rvores, pelo ptio, os bancos perto dos gansos, em busca de sinais de vida, mas no h nada. At 
o regato est parado. Na escurido parece um lugar vazio, e sinto-me arrastado para o seu mistrio. Fico a observar durante horas, e enquanto o fao, vejo o reflexo 
das nuvens quando comeam a balanar-se para fora da gua. Vem a uma tempestade, e dentro em pouco o cu tornar-se- de prata, de novo, como ao crepsculo.
Um relmpago corta o cu selvagem, e sinto a mente desviar-se para o passado. Quem somos ns, Allie e eu? Somos hera antiga num cipreste, gavinhas e ramos entretecidos 
to juntos que morreramos ambos se fssemos forados a separarmo-nos. No sei. Outro raio e a mesa junto a mim fica suficientemente iluminada para ver um retrato 
de Allie, a melhor foto que tenho. Mandei-a emoldurar h anos na esperana de que o vidro a fizesse durar para sempre. Alcano-a e seguro-a a centmetros da minha 
cara. Fico a olhar para ela durante muito tempo, no o consigo evitar. Tinha quarenta e um anos quando foi tirada, e nunca tinha estado to bela. H tantas coisas 
que lhe queria perguntar, mas sei que o retrato no responde, por isso ponho-o de parte.
Esta noite, com Allie ao fundo do corredor, estou s. Estarei sempre s. Pensei nisto enquanto estava deitado no hospital. Estou certo disto enquanto olho pela janela 
e vejo as nuvens de tempestade aparecer. Apesar de mim estou entristecido pela nossa situao, porque me apercebo de que no ltimo dia em que estivemos juntos no 
cheguei a beijar-lhe os lbios. Talvez nunca mais o venha a fazer.  impossvel dizer, com esta doena. Porque  que penso nestas coisas?
Levanto-me, por fim, e caminho at  secretria e acendo o candeeiro. Isto exige mais esforo do que pensava que seria necessrio, e fico exausto, por isso no regresso 
ao sof junto da janela. Sento-me e passo alguns minutos a olhar para as fotografias que tenho sobre a secretria. Retratos de famlia, retratos de crianas e de 
frias. Retratos de Allie e eu. Penso no passado, nos tempos que partilhmos juntos, a ss ou com a famlia, e mais uma vez me apercebo de como sou antigo. Abro 
uma gaveta e descubro as flores que uma vez lhe dei h muito tempo, velhas e murchas e atadas com uma fita. Elas, como eu, esto secas e quebradias e so difceis 
de manusear sem se desfazerem. Mas ela guardou-as. "No entendo para que as queres," dizia eu, mas ignorava-me apenas. E, por vezes,  noite via-a pegar nelas, quase 
com reverncia, como se em si encerrassem o segredo da prpria vida. Mulheres.
Uma vez que esta parece ser uma noite de recordaes, procuro e encontro a minha aliana de casamento. Est na gaveta de cima, embrulhada num pano. j no a posso 
usar porque tenho os ns dos dedos inchados e m circulao. Desembrulho o pano e encontro-a imutvel.  poderosa, um smbolo, um crculo, e sei, eu sei, que nunca 
poderia ter existido outra. Soube-o na altura, e sei-o agora. E nesse momento murmuro audivelmente, "Ainda sou teu Allie, minha rainha, minha beleza eterna. Tu s, 
e sempre foste, a melhor coisa da minha vida."
Pergunto-me se ela me ouvir enquanto digo isto, e espero por um sinal. Mas no vem nenhum.
So onze e meia e procuro a carta que ela me escreveu, a que eu leio quando a disposio me surge. Encontro-a onde a pus pela ltima vez. Viro-a um par de vezes 
antes da a abrir, e quando o fao as mos comeam a tremer-me. Por fim leio:

Querido Noah,


Escrevo-te esta carta  luz da vela enquanto ests deitado a dormir no quarto que partilhamos desde o dia em que casmos. E embora no possa ouvir os sons doces 
do teu sono leve, sei que ests a, e que em breve estarei deitada a teu lado como sempre o fao. E irei sentir o teu calor e o teu conforto, e os sons da tua respirao 
iro guiar-me devagar para o lugar onde posso sonhar contigo e o homem maravilhoso que tu s.
Vejo a chama a meu lado e recorda-me de outro fogo h dcadas, comigo a vestir as tuas roupas de casa e tu de calas de ganga. Sabia ento que ficaramos juntos 
para sempre, mesmo quando hesitava no dia seguinte. O meu corao tinha sido conquistado, preso num lao por um poeta sulista, e sabia c por dentro que tinha sempre 
sido tua. Quem era eu para questionar um amor que cavalgava as estrelas cadentes e rugia como as ondas que se esmagam? Porque era isso que acontecia entre ns ento, 
e o que acontece hoje.
Recordo-me de regressar para ti no dia seguinte, no dia em que a minha me nos visitou. Estava to assustada, mais assustada do que alguma vez estivera porque tinha 
a certeza de que nunca me perdoarias por te abandonar. Estava a tremer quando sa do carro, mas tu afastaste tudo com o teu sorriso e pelo modo como me estendeste 
a mo. "Que tal um pouco de caf?" foi tudo o que disseste. E nunca mais falaste no assunto. Nestes anos todos que passmos juntos.
Nem me fizeste perguntas quando eu quis partir e passear sozinha nos poucos dias seguintes. E quando regressei com os olhos cheios de lgrimas, sempre soubeste quando 
precisava que me abraasses ou apenas que me deixasses estar. No sei como o sabias, mas sabias, e tornaste tudo mais fcil para mim. Mais tarde, quando fomos  
pequena capela e trocmos as nossas alianas e fizemos os nossos votos, olhei-te nos olhos e soube que tinha tomado a deciso correcta. Mas, mais do que isso, sabia 
que tinha sido tonta por alguma vez ter considerado outra pessoa. Desde ento nunca mais hesitei.
Passmos uns tempos maravilhosos juntos, e penso muito nisso agora. Fecho os olhos por vezes e vejo-te com manchas de cinzento no cabelo, sentado no alpendre a tocar 
a tua guitarra enquanto os pequeninos brincam e batem as palmas ao som da msica que crias. As tuas roupas esto manchadas por horas de trabalho e tu ests cansado, 
e embora te oferea tempo para descontrares, sorris e dizes, " isso que estou afazer agora." Acho o teu amor pelos nossos filhos muito sensual e excitante. "s 
um pai melhor do que pensas," digo-te depois, quando as crianas j esto a dormir. Pouco depois, despimos as nossas roupas e beijamo-nos e quase nos perdemos antes 
de sermos capazes de nos enfiarmos nos lenis de flanela.
Amo-te por muitas razes, especialmente pelas tuas paixes, porque foram sempre por aquelas coisas que so as mais belas da vida. Amor e poesia, e a paternidade, 
e a amizade, e a beleza, e a natureza. E estou contente por teres ensinado s crianas estas coisas, porque sei que as vidas delas sero melhores por causa disso. 
Elas dizem-me como tu s especial para elas, e sempre que o fazem, levam-me a sentir a mulher mais afortunada do mundo.

Tambm me ensinaste a mim, e inspiraste e apoiaste-me na minha pintura, e nunca sabers quanto tudo significou para mim. Agora as minhas obras esto penduradas em 
museus e coleces privadas, e embora houvesse momentos em que ficava esgotada e perturbada por causa das exposies e dos crticos, estavas sempre l com palavras 
bondosas, a encorajar-me. Entendeste a minha necessidade de ter um estdio s para mim, de ter o meu espao prprio, e viste para alm da tinta nas minhas roupas 
e no cabelo, e s vezes na moblia. Sei que no era fcil. Era preciso um homem para fazer isto, Noah, para viver com uma coisa destas. E tu viveste. Durante quarenta 
e cinco anos, faz agora. Anos maravilhosos.
s o meu melhor amigo bem como meu amante, e no sei de que lado de ti gosto mais. Acarinho ambos os lados, como acarinhei a nossa vida juntos. Tens algo dentro 
de ti, Noah, algo de belo e forte. Bondade,  o que vejo quando olho para ti agora, isso  o que toda a gente v. Bondade. s o homem mais cheio de perdo e paz 
que conheo. Deus est contigo, tem que estar, porque s a coisa mais prxima de um anjo que alguma vez encontrei.
Sei que pensaste que eu era doida por nos obrigar a escrever a nossa histria antes de por fim deixarmos a nossa casa, mas tenho as minhas razes e agradeo-te pela 
tua pacincia. E embora perguntasses, nunca te expliquei porqu, mas agora acho que  tempo que saibas.
Vivemos uma vida que a maioria dos casais nunca conheceram, e porm, quando olho para ti, fico assustada pelo conhecimento de que tudo isto venha a acabar em breve. 
Porque ambos sabemos os prognsticos e o que isso significa para ns. Vejo as tuas lgrimas e preocupo-me mais contigo do que comigo, porque receio a dor que irs 
sofrer. No h palavras para exprimir como lamento tudo isto, e no tenho meios para o dizer.
Por isso te amo to profundamente, to incrivelmente tanto, que descobrirei uma maneira de regressar para ti independentemente da minha doena, prometo-te, E  aqui 
que entra a histria. Quando eu estiver s e perdida, l esta histria - tal como a contaste s crianas - e sabe que de alguma maneira eu me aperceberei que  sobre 
ns. E talvez, apenas talvez, descubramos um caminho para ficarmos juntos outra vez.
Por favor no fiques zangado comigo nos dias em que no me lembrar de ti, e ambos sabemos que viro. Sabe que te amo, que sempre te amarei, e que o que quer que 
acontea, sabe que eu vivi a melhor vida possvel. A minha vida contigo.
E se guardares esta carta para a leres outra vez, acredita ento no que agora estou a escrever para ti. Noah, onde quer que estejas e quando quer que isto seja, 
amo-te. Amo-te agora enquanto escrevo isto, e amo-te agora enquanto ls isto. E lamentarei muito se no for capaz de to dizer. Amo-te profundamente meu marido. s, 
e foste sempre, o meu sonho.

Allie


Quando acabo a carta, ponho-a de lado. Levanto-me da secretria e descubro os chinelos. Esto junto  cama, e tenho que me sentar para os calar. Depois, de p, 
atravesso o quarto e abro a porta. Espreito para o fundo do corredor e vejo Janice sentada na secretria principal. Pelo menos penso que  Janice. Tenho que passar 
por aquela secretria para chegar ao quarto de Allie, mas a esta hora no me  permitido deixar o quarto, e Janice nunca foi das que esquece as regras. O marido 
dela  advogado.
Espero para ver se se levanta, mas no parece querer mover-se, e comeo a ficar impaciente. Por fim saio do quarto de qualquer maneira, arrasta-devagar, escorrega 
da direita, arrasta-devagar. Demora uma eternidade para encurtar a distncia, mas por um motivo qualquer ela no me v aproximar. Sou como a pantera silenciosa a 
rastejar na selva, sou to invisvel como pombos bebs.
Por fim sou descoberto, mas no fico surpreendido. Endireito-me diante dela.
- Noah - diz -, o que anda a fazer?
- Estou a dar um passeio - digo. - No consigo dormir.
- Sabe que no est autorizado a fazer isso.
- Sei.         
No me mexo, porm. Estou determinado.
- No est a pensar dar um passeio, pois no? Vai ver Allie, no ?
- Sim - respondo.
- Noah, sabe o que aconteceu da ltima vez que a foi ver de noite, no sabe?
- Eu recordo-me.
- Ento sabe que no devia fazer isto.         
No respondo directamente. Em vez disso digo:
- Tenho saudades dela.
- Sei que tem, mas no posso deix-lo ir v-la.
-  o nosso aniversrio - digo. E  verdade. Falta um ano para as bodas de ouro. Faz hoje quarenta e nove anos.
- Estou a ver.
- Ento posso ir?         
Vira a cara por um momento, e a voz muda-lhe. Tornou-se mais doce agora, e fico surpreendido. Nunca me pareceu ser do tipo sentimental.
- Noah, h cinco anos que trabalho aqui e trabalhei noutro lar antes deste. J vi centenas de casais em luta com o sofrimento e a tristeza, mas nunca vi ningum 
suport-los como voc faz. Ningum por aqui, nem os mdicos nem as enfermeiras, alguma vez viram algo de parecido. - Faz uma pausa por um breve momento e, estranhamente, 
os olhos comeam a encher-se-lhe de lgrimas. Limpa-as com o dedo e continua: - Tento calcular como deve ser para si, como voc continua a aguentar dia aps dia, 
mas nem sequer consigo imaginar. No sei como o consegue. Voc s vezes at  capaz de vencer a doena dela. Mas mesmo se os mdicos no o compreenderem, ns as 
enfermeiras compreendemos. E o amor,  to simples como isso.  a coisa mais incrvel que alguma vez vi.
Um n cresceu-me na garganta, e fico sem saber o que dizer.         
- Mas Noah, no lhe  permitido fazer isto, e eu no posso deix-lo. Por isso, regresse ao seu quarto. - Depois, sorrindo docemente e fungando e remexendo em alguns 
papis que tinha sobre a secretria, diz: - Por mim, vou at l abaixo tomar caf. Por um bocado no estarei de volta para verificar o que se passa consigo, por 
isso no faa nenhum disparate.

Levanta-se rapidamente, toca-me no brao, e vai em direco s escadas. No se vira para trs, e de repente estou s. No sei o que pensar. Olho para onde ela esteve 
sentada e vejo o caf, uma chvena cheia, ainda a fumegar, e mais uma vez aprendo que ainda h pessoas boas no mundo.
Sinto-me quente pela primeira vez em anos quando comeo a minha jornada at ao quarto de Allie. Dou passos do tamanho de palhinhas de gnomos, e mesmo estas passadas 
so perigosas, porque as minhas pernas j esto cansadas. Descubro que tenho que me encostar  parede para no cair. As luzes zumbem-me por cima da cabea, o seu 
brilho fluorescente faz-me doer os olhos, e pisco um bocado. Passo por uma dzia de quartos s escuras, quartos onde j antes fui ler, e apercebo-me de que tenho 
saudades das pessoas que esto l dentro. So os meus amigos, cujas caras conheo to bem, e amanh v-los-ei a todos. Mas no esta noite, porque no h tempo para 
parar nesta jornada. Apresso-me para diante, e o movimento fora o sangue adentro de artrias esquecidas. Sinto-me a tornar-me mais forte com cada passo. Oio uma 
porta a abrir-se atrs de mim, mas no oio passos, e continuo. Agora sou um estrangeiro. No posso ser interceptado. Um telefone toca na seco das enfermeiras, 
e empurro-me para a frente para no ser apanhado. Sou um bandido da meia-noite, mascarado e voando a cavalo atravs de adormecidas cidades do deserto, carregando 
luas amarelas com poeira de ouro nos alforges da minha sela. Sou jovem e forte com paixo na alma, e irei quebrar a porta e pegar nela com os meus braos e transport-la 
para o paraso.
A quem estou a enganar?
Agora levo uma vida simples. Sou idiota, um velho apaixonado, um sonhador que aspira a nada mais do que ler para Allie e abra-la quando  possvel. Sou um pecador 
com muitas faltas e um homem que acredita em magia, mas sou demasiado velho para mudar e demasiado velho para me preocupar com isso.
Quando, por fim, chego ao quarto dela o corpo est fraco. As pernas tremem-me, tenho os olhos desfocados, e o corao bate de uma maneira estranha dentro do peito. 
Luto com a maaneta da porta, e no fim exige-me duas mos e trs camies de esforo. A porta abre-se e a luz do corredor derrama-se para dentro do quarto, iluminando 
a cama onde ela dorme. Penso, assim que a vejo, que no sou mais que um passante numa rua atarefada da cidade, esquecido para sempre.
O quarto dela est em silncio, e ela est deitada com as cobertas at metade. Aps um momento vejo-a voltar-se para um lado, e os rudos que faz trazem memrias 
de tempos mais felizes. Ela parece pequena naquela cama, e enquanto a observo sei que est tudo acabado entre ns. O ar est bafiento e tenho um arrepio. Este lugar 
tornou-se no nosso tmulo.
No me mexo, neste nosso aniversrio, durante quase um minuto, e anseio por lhe dizer a ela como me sinto, mas fico quieto para no a acordar. Alm disso, est escrito 
no pedao de papel que lhe vou enfiar debaixo da almofada. Diz:

O amor, nestas ltimas e ternas horas         
 muito sensitivo e muito puro         
Vem, aurora, com o poder da luz nova
acordar um amor ainda mais seguro


Acho que oio algum a chegar, por isso entro no quarto dela e fecho a porta atrs de mim. A escurido desce e atravesso o cho de cor e chego  janela. Abro as 
cortinas, e a lua devolve o olhar, grande e cheia, a guardi da noite. Viro-me para Allie e sonho mil sonhos, e embora saiba que no o devia fazer, sento-me na cama 
dela enquanto lhe enfio a nota por baixo da almofada. Depois estico-me e toco-lhe suavemente na cara, macia como p. Fao-lhe uma festa no cabelo, e fico sem respirao. 
Sinto a maravilha, sinto o terror, como um compositor a descobrir pela primeira vez as obras de Mozart. Ela mexe-se e abre os olhos, encolhendo-se docemente, e de 
sbito lamento a minha loucura, porque sei que ir comear a chorar e a gritar, porque  isso que sempre faz. Sou impulsivo e fraco, eu sei, mas sinto um forte impulso 
para tentar o impossvel e inclino-me para ela, as nossas faces ficando mais prximas.
E quando os lbios dela encontram os meus, sinto um formigueiro estranho como nunca antes senti, em todos os nossos anos juntos, mas no me afasto. E subitamente, 
um milagre, porque sinto a boca dela aberta e descubro um paraso esquecido, imutvel durante todo este tempo, sem idade como as estrelas. Sinto o calor do corpo 
dela, quando as nossas lnguas se encontram, e permito deixar-me escorregar, como o fazia h tantos anos. Fecho os olhos e torno-me num poderoso navio em guas agitadas, 
forte e destemido, e ela  a minha vela. Suavemente desenho-lhe o contorno da face, depois pego a mo dela na minha. Beijo-lhe os lbios, as faces, e fico a ouvir 
enquanto ela murmura docemente, "Oh, Noah... Senti a tua falta." Outro milagre - o maior de todos! - e no h maneira de suster as lgrimas quando comeamos a escorregar 
para o prprio cu. Porque, nesse momento, o mundo est cheio de maravilha enquanto sinto os dedos dela procurarem os botes da minha camisa e devagar, to devagar, 
ela comea a desaboto-los um a um.

        FIM
####################################################################################################################################################################################
####################################################################################################################################################################################
##########*###n#######'T###################################################################################################################################################
####################################################################################################################################################################################
####################################################$#h"#Q##h#p#CJ##OJ##QJ##aJ##mH
#sH
##$#h"#Q##h#p#CJ##OJ##QJ##aJ##mH        #sH        ####h"#Q##h#p#CJ##OJ##QJ##aJ###############*###H###n#1/4#######        $        G        k                (c)        ##        
##        ##        ##        ##        ##        ##
##
##
##
## 
#####s#########8####################################################################################################################################################
#######################################################################################################################################################################
#######################################################'T#######################################################################################################################
####################################################################################################################################################################################
####################################################################################################################################################################################
##########################8###9###########-####k!## "?$@$g&(tm)&##&##&##&##?(##)##+##-.###/##U0###2###2##2##>5##6##8##N;##<##=#######################################
#######################################################################################################################################################################
###############################################################################################################################################################=## 
=##=##=###>##$>##%>3/4?###A##^B##|C##,D##E##aH##I##I##K##tN##R##-S##U##W##W##X##Y##7[##V]##W]##_##ka##############################################################
######################################################################################################################################################################
#########################################################################################################################################ka##)c##d##d##9g##vi##k##%n##D
o##p##p##fs##t##v##jw##x##.z##|{##"}###}###~##-##.##f##`##~####"##'1/2#######################################################################################
#######################################################################################################################################################################
############################################################################################################1/23/4##d##
##S##i##M###'##'##g"##ϕ##Е##a-_q(tm),s(c) ܡݡ(c)#####֨##ڪ##M####"###################################################################################
######################################################################################################################################################################
####################################################################################################################"####'##"W4u*...##>"##?"G1/4u1/2##%####f##
e##"####y##z########n##J##^####V##&####################################################################################################################
######################################################################################################################################################################
###################################################################################&##############N#######B##d######c##
#######5##H##e##f####C##f####-######,##t############################################################################################################
######################################################################################################################################################################
###########################################################################################)ja3/4(tm)############### ####a######O######-
#p3/4############################################################################################################################################################
######################################################################################################################################################################
########################################3/4####
 VN(34#tFy#r3/4#####-##r############################################################################################################
######################################################################################################################################################################
########################################################################################r1/4##"####`########H####J##r##{##|######        ##{####
#####(##D##t######"###7########################################################################################################################################
######################################################################################################################################################################
########################################################################3/4##########9###]###z##(tm)######1##3/4###)###o###{######V###l#####(tm)######### 
#1/4 ## ############        ###        ##############################################################################################################################
######################################################################################################################################################################
##########################################################################        ##        ##        ###
###
##J
##n
##X
##<
##N
#(r)
##
##F
##\
##'
##
#########################a#############n###-######################################################################################################################
######################################################################################################################################################################
##############################################################################################-##-#####'##!##!##"##-$##%##X&##h&##"&##'##'###(##-(##(##(##(##(##
-*##\*##j*##*###+##W+##e+##############################################################################################################################################
######################################################################################################################################################################
#########################################################e+##+##E,##,##-##.##.##.##w/##1##2##'3##3##3##:5##6##7##
8##U8##8##9##9##8:##c:##:##t;##;##;##Z=##'=#########################################################################################################################
######################################################################################################################################################################
##############################################################################'=##=##
>##j>##>##>##>##
?###?##!?##M@##_@###A##tA##'A##PD##D## E##=E##)F##F##F##G##G##G###H##EH##kH##|H##H####################################################################################
######################################################################################################################################################################
###################################################################################################################H###I## I##I##K##*L##4L##sL##L##L##+M##M###N##oN##
N##N##O##8Q##Q##Q##pR##R##:S##;S##yS##S##"S##S##T##V##############################################################################################################
######################################################################################################################################################################
#########################################################################################V###X##X##dY##Y##4Z##]Z##Z##Z##Z##Z##1[##[##[##*\##?\##\\##\##\##\##\###
]##&]##P]##"]##]#...^##"^#1/4^##^######################################################################################################################################
######################################################################################################################################################################
#################################################################^##_##
`##2`##F`##~`##`##0a##Oe##te##e###f##?f##}f##kg##h##'h##i###k##k##n###o##+o##Uo##p##q##r##r###s##-s#################################################################
######################################################################################################################################################################
######################################################################################################################################-s##s##
t##ot##pt##t##t##&u##<u##u##u##!v##0v##v##v##*w##lw##x##x##By##y##z##1{##S{#(tm){##{##z}#1/4}##}###~##############################################################
#######################################################################################################################################################################
#########################################################################################################################################~##/~##G~##q~##~##~##"~##~##@
##U##k####8##"##C##"#0...##########~####-##.####L###3/4##ˌ##1######################################################################################
#######################################################################################################################################################################
################################################################################################################1##ٍ##C##\##-##K##8'##"'##""##""##o-###(tm)##E####-
#####^##H##Q######: ##j ##A##B##d#######################################################################################################################
######################################################################################################################################################################
################################################################################$#a$#########?##^###(tm)#### ####,##N##q####ը######(c)##(c)##<(c)#####
#-#O(r)##h##°##############################################################################################################################################
######################################################################################################################################################################
###############################################################$#a$#####"########
##6##v####'####ո####-##S##,##U##s#####D1/4##|##I##1##@##g##'####
##:#################################################################################################################################################################
######################################################################################################################################################################
###############################$#a$###:##H########(##H####H##I#####:##?##Y#########t##1######"######        ########################
#######################################################################################################################################################################
######################################################################################################################################################################
###########$#a$#######v##w#################'##(##:##Q##\##j####################H##f##C####"########################################
######################################################################################################################################################################
########################################################################################################################################################$#a$###"####
##R############M##a##i########5##########&############{###K###W####### ##Q #... ## ##F##################################################################
######################################################################################################################################################################
###############################################################################################################################$#a$###F###G        ##        ##R
##
##
##
##
##i
##>
##
##@###z##(r)######E###q######-#######
###i###-############h###'###########################################################################################################################################
######################################################################################################################################################################
############################################################$#a$#########;#######c######"#########
###H############
############?###        ##########H######### ##X!##""#(c)"#########################################################################################################
######################################################################################################################################################################
#######################################################################################$#a$##(c)"##"######d####$##1$##|$##'$##$##$##$###%##.)##)##*##*##*##+##6-##7/#
#0##X2##3##5##7##7##;##B=##=##=##################################################################################################################################
######################################################################################################################################################################
##############################################################$#a$###=##=##_>#1/4>##z?##?##?##?##?#3/4@##A##B##BD##D##nE##E###F##IG##ZG##G##I##I##I##I##J##J##
K##L##M##O##########################################################################################################################################################
######################################################################################################################################################################
######################################$#a$###O##P##S###U##V##V##'V##
W##-W##W##&X##>X##UX##BY##Y##[##6^##^##'_###`##6a##7a##b##4c##hc##c###d##*d##hd###e####################################################################################
######################################################################################################################################################################
############################################################################################################$#a$####e##ke#(c)e##e##e##e##Ef##"g##h##Ti##j###k##9k##fk##
k##6l##l##l##l##Dm##Nn##n##!o##ko##o#(c)p##qq##~q## q##q############################################################################################################
######################################################################################################################################################################
####################################################################################$#a$###q##r##r##/s##Vs##rs##s##s##t##'u##}u###v##v##v##w##w##6x##`x##x##
y##+y##5y##y##y##wz##z##z###}##D}##i}################################################################################################################################
######################################################################################################################################################################
################################################################$#a$###i}##%~##Z~##y####"##?##@######҃##L"##x"##'"#...##A####ۇ######.##}##"##Ɗ##ۊ####
A##B####"#########################################################################################################################################################
######################################################################################################################################################################
#######################################$#a$###"#####q'##'##'##4"##""######|-##;-##ژ##ۘ##h#### ##
##^######h####v###*(r)#(r)####x##y#####################################################################################################################
######################################################################################################################################################################
#############################################################################$#a$#####"##;######### ##e##-#(c)##/##'#####N####Y####Ķ######-####q
##:"#1/4#1/2###3/4#&3/4##>3/4##Y3/4####################################################################################################################################
######################################################################################################################################################################
############################################################$#a$##Y3/4#r3/4#3/4#3/4#3/4##;##V##x####Ϳ##%##r####[##|##}########_#######"##q######
###V####"#########################################################################################################################################################
######################################################################################################################################################################
#######################################$#a$###"##Y####0#######(c)####i######
##*#####L############9##############l########################################################################################################
######################################################################################################################################################################
##########################################################################################$#a$#####\######P##g####|####&##c##"######
##
##B#(tm)####W######
##"####"####################################################################################################################################################
######################################################################################################################################################################
#####################################################$#a$############"######@##x#########3###########V######f#######x## ##x#########V
#####################################################################################################################################################################
######################################################################################################################################################################
###########################$#a$###V#######'##(##y####K#####'##:##P####"##X#1/2####<######J####-#(c)########"##k##R#######################
######################################################################################################################################################################
#######################################################################################################################################################################
##$#a$###R##$####"############e###z######### ##        ###
######        ###
##'
##,
##-
##<
##
##^
##_
##`
##r
##s
#####9###e############################################################################################################################################################
######################################################################################################################################################################
#####################################$#a$###e### ##1/2#########%###|###-##"-##-##-##$##I##J##"!##I%##J%##u%#(c)%##/&##0&##C&##D&##s&##t&##&##&##*'##X'##Y'###############
#######################################################################################################################################################################
######################################################################################################################################################################
##########$#a$###Y'##)##)##+##,##,##"-##-###.##/.##"/##B/##/##/##/##/##90##0##P1#3/41##1##1##-2##22##:2##}2##-3##3#1/25##f6#######################################
#######################################################################################################################################################################
########################################################################################################################################################$#a$###f6##6##
6##6##I7##7###8##j8##8##8##":##":##;##N>##@##LC##F##F##F##F##RG##G##lH###I##1I##-I###J##K##K##1L#################################################################
######################################################################################################################################################################
###############################################################################################################################$#a$###1L##2L##L##L##NM##OM##M##
N##&N##.N##IO##xO##jP##8Q##aQ##bQ##cQ##^S##T##DV##X## [##-]##]##]##f^##^##F_##-`##"a####################################################################################
######################################################################################################################################################################
############################################################################################################$#a$###"a###a##Ia##pa##qa##a##&c##pc##d##d##d##d###f###h###
h##j##'m##6m##7m##"n###n##'n##"n##o##o##*p##+p##:q##;q##Sr##############################################################################################################
######################################################################################################################################################################
##################################################################################$#a$###Sr###s##-s##s##s##s## u##u##"u##-u##>w#(r)y##*|##M~##N~#####(##...##ˆ#3/4##
#################e##ɍ#####################################################################################################################################
######################################################################################################################################################################
###########################################################$#a$###ɍ########1/4##Ώ########
####'##'##'##.'##H'##&"##"###"###"##C"##K"##{###-##-##-##--##-##
####################################################################################################################################################################
######################################################################################################################################################################
###############################$#a$######)##^#(tm)#1/2##ǘ#C(tm)#####t######x##Q ##R ##>####8##9##d####Ĩ##"(c)#(c)##!##"##ê######
"###"#################################################################################################################################################################
######################################################################################################################################################################
###############################$#a$####"###"##2"##J"##V"##j"##t"##"##"##"##ӭ##ڭ####
(r)###(r)#m(r)#|(r)#}(r)#(r)#(r)##
##/##0##J##w##x####ɯ#### ####################################################################################################################################
######################################################################################################################################################################
############################################################$#a$### ##!##H##
##F##o##Ĳ##r####
##&##i############3/4##########:##V###(tm)####3############################################################################################
######################################################################################################################################################################
########################################################################################################$#a$########        #####%##7##E##^#(c)##k######
##s########*####G##################4##5####C######################################################################################################
######################################################################################################################################################################
##########################################################################################$#a$###C#3/4######o##x##y##########C##K##w#############j##
w##?###3/4####
##?######!####################################################################################################################################################
#######################################################################################################################################################################
#############################################$#a$#####)##5##6##>##@####f###########)####S##c#############C##r####Y######2##=##D######
######################################################################################################################################################################
######################################################################################################################################################################
####################$#a$###D##\######'#######@##A##Q##G##H##I##        ###
###"##############" ##        ###################Y###s#####1/2#######################################################################################################
######################################################################################################################################################################
##########################################################################################$#a$##1/2##3/4############w##{!##G###-%##c(## *##!*##,##'.##/##E1##2##3##15##
25##85##95##:5##17#(r)8##8##9##V9##9##9###############################################################################################################################
######################################################################################################################################################################
#################################################################$#a$###9##9##9##        :##V:##g:##:#3/4:##:###;##u;##";##;## <###?##U?##"@#1/4@##A###G##-G##HH###J##zK#
#bL##cL##L##L##L##L#################################################################################################################################################
######################################################################################################################################################################
###############################################$#a$###L##L##L##P##T##T##'T###########################################################################################
####################################################################################################################################################################################
####################################################################################################################################################################################
######################$#a$###2#1h#:p"#Q#/ =!#"####$#%######
##################################################################################################################################################################################
####################################################################################################################################################################################
##################################################################################################################################################################################
####################################################################################################################################################################################
####################################################################################################################################################################################
####################################################################################################################################################################################
###############################@##@##@#
###########N#o#r#m#a#l#########CJ##_H##aJ##mH##sH##tH####################>#A##>#
###########F#o#n#t#e# #p#a#r##g#.# #p#a#d#r##o#####X#i@#X#
#########
#T#a#b#e#l#a# #n#o#r#m#a#l### #:V
#####4#######4###
#l#a#####
###,#k@#,###########        #S#e#m# #l#i#s#t#a#####
#########'L###############*Hn1/4##########$###G###k####(c)################################# ### ##s
##
##
##8###9#################k### ###?###@###g-(tm)-##-##-##-##? ##!#####-&###'##U(###*###*##*##>-##.##0##N3##4##5 555#6$6%63/47###9##^:##|;##,<##=##a@##A##A##C##tF##J
##-K##M##O##O##P##Q##7S##VU##WU##W##kY##)[##\##\##9_##va##c##%f##Dg##h##h##fk##l##n##jo##p##.r##|s##"u###u###v##-w##.w##fx##`y##~z##{##|##'~1/23/4##d##
...##S##i##M#######g##ύ##Ѝ##a##_##q'##'##"##,-##s-(c)(tm)(tm)(c)##### ##ڢ##M####"####'(c)##"(c)W4u...##>##?##G##u##%####f"e1/2##"####y#
#z########n##J##^####V##&##############N#######B##d######c##
#######5##H##e##f####C##f####-؈إ,t#)jۏܝa3/4݁(tm)############### ####a######O######-#p3/4####
 VN(34#tFy#r3/4###-r1/4"`HJr{|        {#(Dt"73/4#######9##]z(tm)13/4)o{Vl(tm
)1/4###################################J###n###X###<###N##(r)######F###\###'###### ######        ###        ##
##
#####a#############n###-######################'############-######X-##h-##"-####### ##- ## ## ## ## ##-"##\"##j"##"######W###e######E$##$##%##&##&##&##w'##
)##*##'+##+##+##:-##.##/##
0##U0##0##1##1##82##c2##2##t3##3##3##Z5##'5##5##
6##j6##6##6##6##
7###7##!7##M8##_8###9##t9##'9##P<##<## =##==##)>##>##>##?##?##?###@##E@##k@##|@##@###A## A##A##C##*D##4D##sD##D##D##+E##E###F##oF##F##F##G##8I##I##I##pJ##J##:K##;
K##yK##K##"K##K##L##N###P##P##dQ##Q##4R##]R##R##R##R##R##1S##S##S##*T##?T##\T##T##T##T##T###U##&U##PU##"U##U#...V##"V#1/4V##V##W##
X##2X##FX##~X##X##0Y##O]##t]##]###^##?^##}^##k_##`##'`##a###c##c##f###g##+g##Ug##h##i##j##j###k##-k##k##
l##ol##pl##l##l##&m##<m##m##m##!n##0n##n##n##*o##lo##p##p##Bq##q##r##1s##Ss#(tm)s##s##zu#1/4u##u###v##/v##Gv##qv##v##v##"v##v##@w##Uw##kw##w##8x##"x##C{##|##0}###~
###~####~####-##.####L###3/4##"#1...#...##C##\##-##K##8##"##"##"##o###'##E'##"##-"#####^##H-##Q-##-##-##:##j#A(tm)#B(tm)##d########?##^###
(tm)#### ####, ##N ##q ## ## ## ## #######<######-##O##h##¨##########(c)#(c)##"(c)####"####
##6##v####'####հ####-##S##,##U##s######D##|##I##1##@##g##'####
"##:"##H"##"#1/4#1/4#(1/2#H1/2#1/2##H##I#####:##?##Y#########t##1######"######        ##############v##w#################'##(
##:##Q##\##j####################H##f##C####"######R############M##a##i########5#######&########{##K##W#######Q#...##
##F###G######R###############i###>######@ ##z #(r) ## ##E###q######-####        ##
        ##i        ##-        ##        ##        ##        ##h
##'
##
##
##
##;
###
##c
##
##"
##
##
##

##H
##
##
##
##
############?###        ##########H###############X###"##(c)##########d#######1###|###'################.!##!##"##"##"#####6%##7'##(##X*##+##-##/##/##3##B5##
5##5##5##_6#1/46##z7##7##7##7##7#3/48##9##:##B<##<##n=##=###>##I?##Z?##?##A##A##A##A##B##B##C##D##E##G##H##K###M##N##N##'N##
O##-O##O##&P##>P##UP##BQ##Q##S##6V##V##'W###X##6Y##7Y##Z##4[##h[##[###\##*\##h\###]##k]#(c)]##]##]##]##E^##"_##`##Ta##b###c##9c##fc##c##6d##d##d##d##De##Nf##f##!g##
kg##g#(c)h##qi##~i## i##i##j##j##/k##Vk##rk##k##k##l##'m##}m###n##n##n##o##o##6p##`p##p##
q##+q##5q##q##q##wr##r##r###u##Du##iu##%v##Zv##yx##y##"z##?{##@{##{##{##{##L|##x|##'|##}##A~##~########.##}##"##Ƃ##ۂ####A"##B"####"#####q######4##"
######|##;##ڐ##ې##h'######
##^######h ####v##########x##y####"#;(c)######### "##e"##-"#(c)"##/##'#####N###Y(r)#(r)#(r)######-####q##:#########&##>##Y##r##
####Ķ##;##V##x####ͷ##%##r####[##|##}##ź##Һ####_"##"###1/4#"1/4#q1/4#1/4#1/4##1/2#V1/2#1/2#"3/4#Y3/4#3/4##0#######(c)####i######
##*#####L############9##############l####\######P##g####|####&##c##"######
##
##B#(tm)####W######
##"####"##################"######@##x#########3###########V######f#######x## ##x#########V#######'##(##y####K#####'
##:##P####"##X#1/2####<######J####-#(c)########"##k##R##$####"########e##z########        ###
#############'###,###-###<######^###_###`###r###s### ##9
##e
## 
#1/2
########%###|######"#########$###I###J###"###I###J###u##(c)###/-##0-##C-##D-##s-##t-##-##-##*##X##Y##!##!#####$##$##"%##%###&##/&##"'##B'##'##'##'##'##9(##(##P)#3
/4)##)##)##-*##2*##:*##}*##-+##+#1/2-##f.##.##.##.##I/##/###0##j0##0##0##"2##"2##3##N6##8##L;##>##>##>##>##R?##?##l@###A##1A##-A###B##C##C##1D##2D##D##D##NE##OE
##E##
F##&F##.F##IG##xG##jH##8I##aI##bI##cI##^K##L##DN##P## S##-U##U##U##fV##V##FW##-X##"Y###Y##IY##pY##qY##Y##&[##p[##\##\##\##\###^###`###`##b##'e##6e##7e##"f###f##'f##"f##
g##g##*h##+h##:i##;i##Sj###k##-k##k##k##k## m##m##"m##-m##>o#(r)q##*t##Mv##Nv###z##({###}##~#3/4##################e...#...########1/4##·########

##########.##H##&##########C##K##{#####ߎ####-####
#####)##^#(tm)#1/2##ǐ##C'###"##t"##"####x-##Q##R##>####8##9##d## ## ##"####!##"##â######
########2##J##V##j##t######"##ӥ##ڥ####
#####m##|##}######
##/##0##J##w##x####ɧ#### ##!##H##
(c)##F##o##Ī##r"##"##
##&##i###################޸##߸##:##V###(tm)##"#31/4#1/4#1/4###1/2#        1/2##1/2#%1/2#71/2#E1/2#^1/2#(c)1/2##k######
##s########*####G##################4##5####C#3/4######o##x##y##########C##K##w#############j##w##?###3/4####
##?######!####)##5##6##>##@####f###########)####S##c#############C##r####Y######2##=##D##\######'#######@##A##Q##G##H
##I##        ##
##"##########"##### ## ###
###
##
##Y###s#####1/2##3/4############w###{###G###-###c ## "##!"##$##'&##'##E)##*##+##1-##2-##8-##9-##:-##1/#(r)0##0##1##V1##1##1##1##1##        2##V2##g2##2#3/42##2###3##
u3##"3##3## 4###7##U7##"8#1/48##9###?##-?##H@###B##zC##bD##cD##D##D##D##D##D##D##H##L##L##"L##I#0########################I#0#######################I#0###############
########I#0#######################I#0#######################I#0#######################I#0#######################I#0#######################I#0#######################I#
0#######################I#0#######################I#0#######################I#0#######################I#0#######################I#0#######################I#0###########
############I#0#######################I#0#######################I#0#######################I#0#######################I#0#######################I#0######################
#I#0#######################I#0#######################I#0#######################I#0#######################I#0#######################I#0#######################I#0#######
################I#0#######################I#0#######################I#0#######################I#0#######################I#0###########################0###############
#########0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#
#######################0########################0########################0########################0########################0########################0###########
#############0########################0########################0########################0########################0########################0######################
##0########################0########################0########################0########################0########################0########################0########
################0########################0########################0########################0########################0########################0###################
#####0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#####
###################0########################0########################0########################0########################0########################0###############
#########0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#
#######################0########################0########################0########################0########################0########################0###########
#############0########################0########################0########################0########################0########################0######################
##0########################0########################0########################0########################0########################0########################0########
################0########################0########################0########################0########################0########################0###################
#####0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#####
###################0########################0########################0########################0########################0########################0###############
#########0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#
#######################0########################0########################0########################0########################0########################0###########
#############0########################0########################0########################0########################0########################0######################
##0########################0########################0########################0########################0########################0########################0########
################0########################0########################0########################0########################0########################0###################
#####0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#####
###################0########################0########################0########################0########################0########################0###############
#########0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#
#######################0########################0########################0########################0########################0########################0###########
#############0########################0########################0########################0########################0########################0######################
##0########################0########################0########################0########################0########################0########################0########
################0########################0########################0########################0########################0########################0###################
#####0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#####
###################0########################0########################0########################0########################0########################0###############
#########0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#
#######################0########################0########################0########################0########################0########################0###########
#############0########################0########################0########################0########################0########################0######################
##0########################0########################0########################0########################0########################0########################0########
################0########################0########################0########################0########################0########################0###################
#####0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#####
###################0########################0########################0########################0########################0########################0###############
#########0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#
#######################0########################0########################0########################0########################0########################0###########
#############0########################0########################0########################0########################0########################0######################
##0########################0########################0########################0########################0########################0########################0########
################0########################0########################0########################0########################0########################0###################
#####0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#####
###################0########################0########################0########################0########################0########################0###############
#########0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#
#######################0########################0########################0########################0########################0########################0###########
#############0########################0########################0########################0########################0########################0######################
##0########################0########################0########################0########################0########################0########################0########
################0########################0########################0########################0########################0########################0###################
#####0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#####
###################0########################0########################0########################0########################0########################0###############
#########0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#
#######################0########################0########################0########################0########################0########################0###########
#############0########################0########################0########################0########################0########################0######################
##0########################0########################0########################0########################0########################0########################0########
################0########################0########################0########################0########################0########################0###################
#####0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#####
###################0########################0########################0########################0########################0########################0###############
#########0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#
#######################0########################0########################0########################0########################0########################0###########
#############0########################0########################0########################0########################0########################0######################
##0########################0########################0########################0########################0########################0########################0########
################0########################0########################0########################0########################0########################0###################
#####0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#####
###################0########################0########################0########################0########################0########################0###############
#########0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#
#######################0########################0########################0########################0########################0########################0###########
#############0########################0########################0########################0########################0########################0######################
##0########################0########################0########################0########################0########################0########################0########
################0########################0########################0########################0########################0########################0###################
#####0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#####
###################0########################0########################0########################0########################0########################0###############
#########0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#
#######################0########################0########################0########################0########################0########################0###########
#############0########################0########################0########################0########################0########################0######################
##0########################0########################0########################0########################0########################0########################0########
################0########################0########################0########################0########################0########################0###################
#####0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#####
###################0########################0########################0########################0########################0########################0###############
#########0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#
#######################0########################0########################0########################0########################0########################0###########
#############0########################0########################0########################0########################0########################0######################
##0########################0########################0########################0########################0########################0########################0########
################0########################0########################0########################0########################0########################0###################
#####0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#####
###################0########################0########################0########################0########################0########################0###############
#########0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#
#######################0########################0########################0########################0########################0########################0###########
#############0########################0########################0########################0########################0########################0######################
##0########################0########################0########################0########################0########################0########################0########
################0########################0########################0########################0########################0########################0###################
#####0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#####
###################0########################0########################0########################0########################0########################0###############
#########0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#
#######################0########################0########################0########################0########################0########################0###########
#############0########################0########################0########################0########################0########################0######################
##0########################0########################0########################0########################0########################0########################0########
################0########################0########################0########################0########################0########################0###################
#####0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#####
###################0########################0########################0########################0########################0########################0###############
#########0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#
#######################0########################0########################0########################0########################0########################0###########
#############0########################0########################0########################0########################0########################0######################
##0########################0########################0########################0########################0########################0########################0########
################0########################0########################0########################0########################0########################0###################
#####0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#####
###################0########################0########################0########################0########################0########################0###############
#########0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#
#######################0########################0########################0########################0########################0########################0###########
#############0########################0########################0########################0########################0########################0######################
##0########################0########################0########################0########################0########################0########################0########
################0########################0########################0########################0########################0########################0###################
#####0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#####
###################0########################0########################0########################0########################0########################0###############
#########0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#
#######################0########################0########################0########################0########################0########################0###########
#############0########################0########################0########################0########################0########################0######################
##0########################0########################0########################0########################0########################0########################0########
################0########################0########################0########################0########################0########################0###################
#####0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#####
###################0########################0########################0########################0########################0########################0###############
#########0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#
#######################0########################0########################0########################0########################0########################0###########
#############0########################0########################0########################0########################0########################0######################
##0########################0########################0########################0########################0########################0########################0########
################0########################0########################0########################0########################0########################0###################
#####0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#####
###################0########################0########################0########################0########################0########################0###############
#########0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#
#######################0########################0########################0########################0########################0########################0###########
#############0########################0########################0########################0########################0########################0######################
##0########################0########################0########################0########################0########################0########################0########
################0########################0########################0########################0########################0########################0###################
#####0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#####
###################0########################0########################0########################0########################0########################0###############
#########0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#
#######################0########################0########################0########################0########################0########################0###########
#############0########################0########################0########################0########################0########################0######################
##0########################0########################0########################0########################0########################0########################0########
################0########################0########################0########################0########################0########################0###################
#####0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#####
###################0########################0########################0########################0########################0########################0###############
#########0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#
#######################0########################0########################0########################0########################0########################0###########
#############0########################0########################0########################0########################0########################0######################
##0########################0########################0########################0########################0########################0########################0########
################0########################0########################0########################0########################0########################0###################
#####0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#####
###################0########################0########################0########################0########################0########################0###############
#########0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#
#######################0########################0########################0########################0########################0########################0###########
#############0########################0########################0########################0########################0########################0######################
##0########################0########################0########################0########################0########################0########################0########
################0########################0########################0########################0########################0########################0###################
#####0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#####
###################0########################0########################0########################0########################0########################0###############
#########0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#
#######################0########################0########################0########################0########################0########################0###########
#############0########################0########################0########################0########################0########################0######################
##0########################0########################0########################0########################0########################0########################0########
################0########################0########################0########################0########################0########################0###################
#####0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#####
###################0########################0########################0########################0########################0########################0###############
#########0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#
#######################0########################0########################0########################0########################0########################0###########
#############0########################0########################0########################0########################0########################0######################
##0########################0########################0########################0########################0########################0########################0########
################0########################0########################0########################0########################0########################0###################
#####0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#####
###################0########################0########################0########################0########################0########################0###############
#########0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#
#######################0########################0########################0########################0########################0########################0###########
#############0########################0########################0########################0########################0########################0######################
##0########################0########################0########################0########################0########################0########################0########
################0########################0########################0########################0########################0########################0###################
#####0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#####
###################0########################0########################0########################0########################0########################0###############
#########0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#
#######################0########################0########################0########################0########################0########################0###########
#############0########################0########################0########################0########################0########################0######################
##0########################0########################0########################0########################0########################0########################0########
################0########################0########################0########################0########################0########################0###################
#####0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#####
###################0########################0########################0########################0########################0########################0###############
#########0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#
#######################0########################0########################0########################0########################0########################0###########
#############0########################0########################0########################0########################0########################0######################
##0########################0########################0########################0########################0########################0########################0########
################0########################0########################0########################0########################0########################0###################
#####0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#####
###################0########################0########################0########################0########################0########################0###############
#########0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#
#######################0########################0########################0########################0########################0########################0###########
#############0########################0########################0########################0########################0########################0######################
##0########################0########################0########################0########################0########################0########################0########
################0########################0########################0########################0########################0########################0###################
#####0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#####
###################0########################0########################0########################0########################0########################0###############
#########0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#
#######################0########################0########################0########################0########################0########################0###########
#############0########################0########################0########################0########################0########################0######################
##0########################0########################0########################0########################0########################0########################0########
################0########################0########################0########################0########################0########################0###################
#####0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#####
###################0########################0########################0########################0########################0########################0###############
#########0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#
#######################0########################0########################0########################0########################0########################0###########
#############0########################0########################0########################0########################0########################0######################
##0########################0########################0########################0########################0########################0########################0########
################0########################0########################0########################0########################0########################0###################
#####0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#####
###################0########################0########################0########################0########################0########################0###############
#########0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#
#######################0########################0########################0########################0########################0########################0###########
#############0########################0########################0########################0########################0########################0######################
##0########################0########################0########################0########################0########################0########################0########
################0########################0########################0########################0########################0########################0###################
#####0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#####
###################0########################0########################0########################0########################0########################0###############
#########0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#
#######################0########################0########################0########################0########################0########################0###########
#############0########################0########################0########################0########################0########################0######################
##0########################0########################0########################0########################0########################0########################0########
################0########################0########################0########################0########################0########################0###################
#####0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#####
###################0########################0########################0########################0########################0########################0###############
#########0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#
#######################0########################0########################0########################0########################0########################0###########
#############0########################0########################0########################0########################0########################0######################
##0########################0########################0########################0########################0########################0########################0########
################0########################0########################0########################0########################0########################0###################
#####0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#####
###################0########################0########################0########################0########################0########################0###############
#########0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#
#######################0########################0########################0########################0########################0########################0###########
#############0########################0########################0########################0########################0########################0######################
##0########################0########################0########################0########################0########################0########################0########
################0########################0########################0########################0########################0########################0###################
#####0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#####
###################0########################0########################0########################0########################0########################0###############
#########0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#
#######################0########################0########################0########################0########################0########################0###########
#############0########################0########################0########################0########################0########################0######################
##0########################0########################0########################0########################0########################0########################0########
################0########################0########################0########################0########################0########################0###################
#####0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#####
###################0########################0########################0########################0########################0########################0###############
#########0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#
#######################0########################0########################0########################0########################0########################0###########
#############0########################0########################0########################0########################0########################0######################
##0########################0########################0########################0########################0########################0########################0########
################0########################0########################0########################0########################0########################0###################
#####0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#####
###################0########################0########################0########################0########################0########################0###############
#########0########################0########################0########################0########################0########################0########################0#
#######################0########################0########################0########################0########################0########################0###########
#############0########################0########################0########################0########################0########################0######################
##0########################0########################0########################0########################0########################0########################0########
################0########################0########################0########################0########################0########################0###################
#####'T##+#######8###=ka1/2##"&3/4##r######        #####e+##'=##H##V##^##-s###~##1######:####"##F#####(c)"##=##O###e##q##i}##"###Y3/4##"######V##R
##e###Y'##f6##1L##"a##Sr##ɍ######"## ####C####D#1/2###9##L##'T##,###.###/###0###1###2###3###4###5###6###7###8###9###:###;###<###=###>###?###@###A###B###C###D###E###F###
G###H###I###J###K###L###M###N###O###P###Q###R###S###T###U###V###W###X###Y###Z###[###\###]###^###_###`###a###b###c###d###e###f###g#######'T##-##########b#####"
(r)####b#####\s# ###b#####,r# ## b#####,g# ###b#####|{# ##        b#####lz# ##
b#####y# ##
b#####$~# ##
b#####|# ##
b####1/4####
b#####|u# ###b#####<# ###b######I ###b#####I ###b#####\I ###b#####LI ###b#####lI ###b#####ԁI ###b#####"zI ###b#####yI ###b######~S  ##MB##P##ɛ#####y##"##d
##5
###)##z##"'##N##N#####-########M#1/4##:(##"L############################################ ###########        #####
#####
#####
#####
#####
######################################### ##ZB##P##כ####8y##"##s##E
##&)##z##'##[##Z#####F########M##ƴ##J(##"L############################## #######        ###
###
###
###
###
###############################>#######*urn:schemas-microsoft-com:office:smarttags
PersonName#
####1/4#####
em amor. E
em brasa. Sem#em breve. Porque#em entender Noah. A#em especial. De#Em garrafas. Pequenos
em mim. Em
em Nova Berna
em Nova Iorque
em Nova Jersey#em Nova Jersey. Falou#em Nova Jersey. Suspendeu
em paga. Era#em pensamentos. Um#em pleno Outono
em que Allie
em volta. As#em volta. Quando        ProductID##########
############# ############# #############        #############        #############
#############
#######################################################
########################### #########################################
#############################################################################*###0###########################F###K###L###P###l###v### ############-###2####        ##
        ##9
##>
##
##
###
###
##########R###[###########################i###u#########1/2###-##-##-##-##-##-##N!##R!##S!##Z!##"##"##T###]###$$##*$##%##%##%##%##U(##Y(##'*##-*##*##*##>-B-
--#1#11(r)1##A5##D5##7##7##W8##[8##s8##v8##        9##
9##9##9##9##9##9##9##u:##x:##:##:##o<##w<###=##-=##
>###>##_>##e>##>##>##?##?##?##?##<@##B@##B##"B##B##B###C###C##ED##MD##D##D##D##D##E###F##F##F##8I##>I#JJJ(c)J##>K##AK##EK##IK##K##"K##K##K##uL##xL##M##M##M#
#M##wN##}N###P## P###P###P##Q##Q##Q##Q##7S##;S##S##S##T##T###V###V##V##V##W##W##8Y##@Y##Y##Y##Y##Y##c[##f[###\##"\##i^##l^##^##^##a##a##9b##<b##`d##fd##f##"f#
#f##f#hh9j@jjj.k1koorr.w2www0z5z1/4|##|##|###}###}###}##b##f##N##R#####ق##do*1SX`e(tm)####݇####M##Q##҈##ۈ######{(c)##### 
####"##O##U##i##r#####
######"'##('##'##''##%'##*'##'##'##"##"## "##%"1/2##l-##q-################Q##W######[ ##f 1/4 ## ######R##V########## 
##
##
#######.1jmبި4(c)9(c)N(c)W(c)##@##J##
##
######.##6##?##E#########ǵ#######U##`######v##########"##"Z1/4a1/4###3/4#3/4##U##\##d##o##&##-##########H##L##
#####H##O######R##]##"############
#####        ##
chu(tm)####6##:##{########N##V##"##################_##d##P##T##c##k############'##################{##~######
######"##-##"######B##F#####in3/4##
########-##(##5################R##Y##]##a##1##5######X##]##################################P###V###T###Z###"###########...######        
##        ##T
##Z
##
##
##
##
##
##"
##
##
##a
##i
##(###,###6###A###"#########'############### ###,###1#########R###V#########N###S###e###r### #######-#######/###6#########,##1########$##$###%##        %##%##%##p&##{
&##'##'##B(##J(##s(##w(##x(#...(##)##)##*##*##+##"+##.##.##0##0##1##'1##j2##n2##4###4##6###7##T7##Z7##8##8##:##:##<##<##=#1/2=##?##?##A##A##"B##&B##6E##:E##
E##-E##E##E###F##-F##F##F## G##
G##G##G##I#1/4I##J##J## K###K##PL##TL##L##L##M##M##M##M##SN##XN##'N##-N##N##N##8O##<O##4Q##<Q##dQ##hQ##vQ##|Q##R##R##W##W###Y##        Y##"^#(tm)^##d_##i_##`##`#
(tm)b##b##+c##2c##Mc##Sc##c##c##        d##
d###d###d##Cd##Kd##{e##e##f##f##+g##/g##sg##vg##h##h##h##
i##vi##zi##k##k##
l###l##6l##=l##Nm##Qm##bm##jm##nm##qm##/p##4p##p##p##p##p##q##q###s###s##Us##Xs##t##-t##t##t##"v##v##x##x##Hy##Ny##y##y##z##z##J{##O{##{{##~{##d~##h~## 
##
############-####Ƃ##˂#####3/4####        ###########_##f##"##-####-##i##m###########'###'##/'##8'##^##c##Е##ە#X(tm)#\(tm)#### 
########"######" ## #####%##0##4#(c)####0##4################ɧ##ѧ##ԧ##ا##########"##"##y########x#...##########'###
#m##r##########1##9##g##n##r##z##~############J"##O"#1/4#(c)1/4#1/4#1/4#1/4#1/4#H1/2#M1/2#1/2#1/21/2#3/4###3/4#k3/4#p3/4##-3/4#3/4#3/4#3/4##A##
F######:##=######Y##\##########%##)#(c)############ ##&##T##\##################c##o##d##g###########1/2#####
######w##|####-#####"##2##8##########|###1/2##############C##J##########E##M####'##*##0##@##C##-####m##t#1/4#########
O##S#(tm)############6##;##>##I##2##=##########+##0##t##y##V##Z##n##u##x####################
############################H###M######'########1/2##############1/4###>###C###s###x###        ##        ##$
##)
##
##
##x
##}
##O###S###k###q#####3/4###?###D###7###<######"#######
###########(tm)#########;###?###k###s###"################# ### ##S ##Z ## ## ##.!##3!##!###"################X$##d$###%###%##6%##;%##s'##w'##(##(##)###)##)##)##)
##)##s*##z*##+##$+###-##
-##-##-##_.##h.##.##.##.##.##;/##>/##E0##H0##0##0##0##0##0##0##^3##a3##3#1/23##3##3##Y5##]5##q5##y5##5##5##6##6##18##78##8##8##9##9##9##"9##8:##<:###;##
;##;##;##B<##F<##{<##<##/=##4=##n=##r=##=##=##L>##W>##?##?##?##?##8@##D@##/A##:A##]A##aA##
B###B##B##B##C##C##E###F##mF##rF##F##F##G##G##G##G###I###I##7K##<K##K##-K##K##K##K##K##L##L##5N##9N##:N##@N##AN##HN##kO##rO##UP##YP##Q##Q###S##-S##S##S##S##
S##eT##iT##U##U##V##V##V###W###X###X##sY##}Y##Y##"Y##*\##.\##]##]##]##]##]###^##n^##u^##w^##|^##U`##Y`##ua##ya##a##a##a###b##c##c##f##f##g###h## 
i##i##Nn##Zn#1/4o##o##o##o##p##p##p##p###u###u##%v##)v##x##x##y##y##-{##"{##.|##9|##q|##v|##|##|##[~##b~##~##~##\##`################1/4#########
#######"##""##"##"########'##ŏ##Ϗ##ӏ##׏##-'##'##'##'##"##"#(tm)#(tm)(tm)####Ɯ##}#...##r ##| #########"##############+##.#3/4##ƪ
##"##"###1/2##-###1/2(r)#(r)##### ##R##Z#######1/4##
#####ݰ####|########۱##߱##################"##׵##ܵ############7##;#####
##;##?##\##`##x##|##8##=##############"##"#\1/4#a1/4#1/4#1/4##1/2##1/2#1/2#1/2#c3/4#h3/4#3/4#3/4############.##2####'############
#############...######9##>##############b##f#(r)####################
#####P##U##U##Z######G##L#### ##
#####K##O#########(tm)#####3/4##j##o##}#####################-##p##s##h##l##.##1#####!##O##T################9##=##"##&###
#####1/2## ##
##+##0##~####
#####(##,##M##X##4##8######\##a##_##c##3##8##P##T##########R##V#########
#########
##>##F######### ##5##:######I##L##"########        #######-######9##<###########?##D#####
##3##>##########8###?###K###S###-#######'###+###"###%###G###J###+###0###G###M#######
############        ###############8###A###"############!##!##"##"########+##+##z,##,##0##0###1###1##1##1##1###2##_3##i3##4##'4##;:##H:##;##;##>##>##
>##>###?###?##?##?##=A##AA##
B###B##C## C##C##C##ED##JD##D##-D##oF##{F## G###G##xK##K##>Q##CQ##-Q##Q##S##S##UU##]U##V##V##V##V##'W#(tm)W##
Z###Z##f[##n[##-[## [##]#1/2]##f^##k^##
_###_##x`##}`##lb##qb###f##(f##g##g##i##i##Wk##\k##'m##-m##`n##kn##n##n##o#(c)o##q##q##us##xs##s#1/4s##Wu##Zu##iv##pv##w##w##Vz##Zz##~##~#####
######%##*##-##%##M##S#...####%"##*"##"##"###...##
...##U##]############$'##+'##"##"##-"## "##-"## "#####
##g##m#####-#(tm)##"(tm)#####(########"##V##b##{####& ##+ #####
#####$##Z##a##­##ǭ#a(r)#f(r)#(r)#(r)## ##########۲##########v##}##"##"#1/4#1/4##1/2##1/2##ѿ##ֿ##=##E##d##l##U##Z##p##u##########'##-##
#########################6##A###############1/4## #####v##~######W##\##A##G#(c)########################3/4##n
##u##@##H##{#################c##f#########
####&##S##W#######1/2######3##8########0##6##"##########'##>##H## ####<##A##"##'##########r##w########i##q########'##
##'##]###v##############################3/4###}######R###W###' ##- ##t
##y
##d
##i
###
###
##3###8###`###k#######################?###F###6###>### ######
#######-######"##"##k$##o$#...%##%###'###'##7,##;,##2-##7-#(r).##.##D/##F/##/##/##/##/##0##0##0###1##1##1##
2###2##2#(c)2##"4##&4##5##5##[7##_7##8##8##1:##6:##<###=##/=##3=##q>##y>##?##"?##@##@##sL##"L## ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### 
### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### 
### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### 
### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### 
### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### 
### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### 
### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### 
### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### 
### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### 
### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### 
### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### 
### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### 
### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### 
### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### 
### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### 
### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### 
### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### 
### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### 
### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### 
### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### 
### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### 
### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### 
### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### 
### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### 
### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### 
##### #########################B###F###f###j#################################j###r###7###D####(r)#...
##
##?###C### #######'###)###h###j###D###I############)#### ### ##.*##7*##*##*##4##4##'5##(5###6##"6##8##8##6:##8:##T=##]=##>##>##_@##`@##
C###C##D##D##F##
G##G##'GMM(r)N##N##
R###R##R##R##S##S##
T##
T##
U##)U##cX##nX##[##[##"\##*\##]##]##_##_##<c##Ec##"g##+g##sg##wg##i##i##
l###l##q##q##*u##4u##kv##tv##+w##,w##y##y##~z##z##@{##F{##}##}##~##~##"1/4###### #######[########x##########
#####I##Z######q##y###"##
"###"###"^(tm)m(tm)##'##)##˞##͞##H##M##I##S##########-@G!(**vi1/2v1/2##'3/4##^##f##
#####u##v######-####"####H##I##f##g##############V##[###### ##+##X##^##-##3####"##<##Q##############}##########
##        ##
##E##F##q##w##-############
##
##:
##d
##D###E###J###X###!###"###########################(######################)##+### ##
 ##!##!##"##"###%###%##%##%##&##&##j*##p*##5+##;+##-##-##0##0##51##@1##1##1##3##3##65##>5##5##5###6##6##6##6##-8##8##9##9##n:##r:##:##:##|<##<##C=##L=##B
##B##C##C##1E##5E##-E##E## F##$F#(tm)I##I##I##I## K###K###L##!L##cR##jR###W###W#(c)X#(r)X##[###\##6]##9]##^##'^##U_##W_##?a##Ia##
b###b##b##b##sg##vg##i##i##&k##0k##k##k##"m##m##m##m##'n##-n##"p##p##r##r##s##s## u##        u##Ux##\x###~##"~###1/4#H...#Q...#3/4##ƈ##_##f########G##S##
##'##R####'##
"##;-##F-##-##-#(tm)#(tm)####ʚ########B##Z#####
######f##g##ɧ##ѧ#,(c)#.(c)##
####(c)"##"#J(r)#T(r)#(r)#(r)##4##5##ް####0##8##B##E##B##N##0##B########4##8##r##z##~####%"##+"##"##"#61/2#91/2##]1/2#_1/2#b1/2#d1/2#g1/2#o1/2#######
####
##H##M##Q##R################F##M########################### ######X##_##u##~######g##|##?##@##K##j##Q##u####'######
####-####m##t######|####0##;########'####0##-############J##P##9##?#########
######g##q##n##u############# ##% ## ## ##-######z#############        ##
        ##[###_###
###############(tm)########################-#####$##$##)##)##S,##U,###-##
-##B.##M.##/##/##3##3###4##-4##8##8##u9##v9##:##:##4=##8=##>##>## >##>##@##@##@##@##A##A##A###B###B###B##5B##:B##iB##jB##D##D##G##G##}H##~H##-K##K##:N##@N##
N##N##kO##rO##uP##{P##BR##OR##BT##DT##hV##vV##RX##\X##v\##x\###c##
c##g##g##j##j##j##"j##k##k##n##n##p##p##-r##9r##u###v###v###v##v##v##{##{##h|##p|##z|##||##}##}##}###~##############(tm)########}##"## 
##### ##        ##
#####'##%'##{'##"'##'##'##### #(tm)##"(tm)###1/2##### ## ## ###(c)##q##u#### ##C##E#####"##0##2#####"##o"##u"#####(r)#(r)######<##E##y##
################d##m####
#####"##7##<## #######1/2#1/2##############
#####3##;########"########K##P##?##G##C##H##R##V######E##L#####!##6##m## ##
##"##-######z####:##>######,##4###########3##>#####"#### #1/2####~#...####-########_###d##(tm)######}
##
##
###
##7
##@
##x
##}
##
##
##k
##s
#3/4
##
################G###M###%###'####################1/2######?###K###_###a#########--##.-##0-##9-##--##-##-##-##(##)##"##########J$##S$##%%##-%##-&##&##&##&##*##
*##,##,##M.##U.##.##.##/##/##0##0##5##5##_8##`8##":##B:##:##:##;##;##`B##bB##C## C##)D##/D##aD##iD##D##D##JE##ME## G###G##G##G##I##I##J##J##VK##\K##"L##L##
O##O##-Q##Q#1/4R##R##cV##eV##V##V##'W#(tm)W##IY##KY##[##[###\###\##\##\##]#1/2]##
_###_##8a##Aa##2f##5f##g##g##h##"h##n##n##n##n##o##o##p## q##cs##s##'v##1v##vv##v##w##w##z##z##~##~#####
############v##{##ڇ####U##]###(c)###### ##.##"##"##"####K-##N-##.##/##############, ##/ ##s ##w ##l##r##Ӥ##ۤ##ܥ############

#####@##H#########...###(c)#(c)######Z##a###(c)######(r)#(r)##ñ##б##X##h############ٵ##ݵ##K##L##v##}###1/4##
#########E##F##############'######Q##T######!##$############O##X##1##8######'##-######N##R##;##=################j##q
######n##u##m##o##c##f##a##e####'#####%##)##0##>##H##3##;##E##F##########
#####"####e##g##z###{###Y###\#########

##2
##-
#(tm)
####################e###m###M###S###v##############"##"##$##$##?%##W%##%##"%##%##%##U&##W&###'###'##p'##v'##'##'##3*##F*##*##*##V+##Z+###-###-##-##-##.##.##8
##8##%<##.<##=#1/2=##
?###?#1/4A##A##_C##kC##D##D##D##D##D##D##D##D##xF##F##"L## ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### 
### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### 
### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### 
### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### 
### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### 
### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### 
### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### 
### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### 
### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### 
### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### 
### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### 
### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### 
### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### 
### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### 
### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### ### 
### ### ### ### ### ### ### ### ### #####-####FK##ZK##L##'L##"L## ### ### ### #####"L## ########################"#Q#lV##p#@###"###"###(G'###"#######"################'L##
P####@###### #U#n#k#n#o#w#n#########################################G##############z# ##################T#i#m#e#s# #N#e#w# #R#o#m#a#n###5######### 
### #######################S#y#m#b#o#l###3&####
########z# ##################A#r#i#a#l###9####################################G#a#r#a#m#o#n#d###"###1####(c)#####E&f##########"## ####2#######1/2 
##"## ####2#1/2 ######!##########################################################################################################################################################
######################################################################################################################################################################24######
d#######`J##`J#########################################################################2#################################HX####(####?#####"#Q#####
2###########################N#I#C#H#O#L#A#S# #S#P#A#R#K#S#########m#o#n#i#c#a###W#i#n#d#o#w#s# #X#p# #P#r#o#f#e#s#s#i#o#n#a#l#####################################################
####################################################################################################################################################################################
####################################################################################################################################################################################
#####################################################################################################################################...Oh#"'##+'0###"####################
#########1/4################# #############        ########### ###
###@###
###L###
###X###
###d#######l#######t#######|##########-#######NICHOLAS SPARKS#-###########-#######monica##-###########-###########-#######Normal##-#######Windows Xp Professional#-#######3###-####
###Microsoft Office Word###@####^в####@####
49 #@####n۳#############"###### ############################################################################################################################################
####################################################################################################################################################################################
####################################################################################################################################################################################
####################################################################################################################################################################################
####################################################################################################################################################################################
####################################################################################################################################################################################
####################################################################################################################################################################################
####################################################################################################################################################################################
####################################################################################################################################################################################
####################################################################################################################################################################################
####################################################################################################################################################################################
####################################################################################################################################################################################
####################################################################################################################################################################################
####################################################################################################################################################################################
####################################################################################################################################################################################
####################################################################################################################################################################################
####################################################################################################################################################################################
####################################################################################################################################################################################
####################################################################################################################################################################################
####################################################################################################################################################################################
#########################################################################################################################################՜.##"-#+,(r)0######
#######h#######p#######|#######"##############"###
###########################
1/4###
#############-############1/2 ######2#######`J#######
#
#######
#######
#######
#######-###########NICHOLAS SPARKS#
#######-### ###Ttulo###############################################################################################################################################################
####################################################################################################################################################################################
####################################################################################################################################################################################
####################################################################################################################################################################################
####################################################################################################################################################################################
####################################################################################################################################################################################
####################################################################################################################################################################################
####################################################################################################################################################################################
####################################################################################################################################################################################
####################################################################################################################################################################################
####################################################################################################################################################################################
####################################################################################################################################################################################
####################################################################################################################################################################################
####################################################################################################################################################################################
####################################################################################################################################################################################
####################################################################################################################################################################################
####################################################################################################################################################################################
####################################################################################################################################################################################
####################################################################################################################################################################################
####################################################################################################################################################################################
####################################################################################################################################################################################
########################################################################### #######        ###
###
###
###
###
###############################################################-###### ###!###"#######$###%###&###'###(###)###*###+###,###-###.###/###0###1###2###3###4###5###6###7###8###9###:###;#
##<###=###>###?###@###A###B###C###D###E###F###G###H###I###J###K###L###M###N###O###P###Q###R###S###T###U###V###W###X###Y###Z###[###\###]###^###_###`###a###b###c###d###e###f###g###h#
##i###j###k###l###m###n###o###p###q###r###s###t###u###v###w###x###y###z###{###|###}###~##################"...####################################'###'###"###"#####
#-###-(tm)##################### (c)######"(r)#######################################"1/41/23/4##########################################
#######################################################################################################################################
################################################# #######        ###
###
###
###
###
###############################################################-###### ###!###"#######$###%###&###'###(###)###*###+###,###-###.###/###0###1###2###3###4###5###6###7###8###9###:###;#
##<###=###>###?###@###A###B###C###D###E###F###G###H###I###J###K###L###M###N###O###P###Q###R###S###T###U###V###W###X###Y###Z###[###\###]###^###_###`###a###b###c###d###e###f###g###h#
##i###j###k###l###m###n###o###p###q###r###s###t###u###v###w###x###y###z###{###|###}###~##################"#...####################################'###'###"###"####
##-###-####(tm)##################### #########################(c)######"#######(r)#######################################"#1/4#1/2#3/4############
#######################################################################################################################################
############################################################################### #######        ###
###
###
###
###
###############################################################-###### ###!###"#######$###%###&###'###(###)###*###+###,###-###.###/###0###1###2###3###4###5###6###7###8###9###:###;#
##<###=###>###?###@###A###B###C###D###E###F###G###H###I###J###K###L###M###N###O###P###Q###R###S###T###U###V###W###X###Y###Z###[###\###]###^###_###`###a###b###c###d###e###f###g###h#
##j###k###l###m###n###o###p###q###r###s###t###u###v###w###x###y###z###{###|###}###~##################"#...####################################'###'###"###"####
##-###-####(tm)##################### #########################(c)######"#######(r)#######################################"#1/4#1/2#3/4############
#######################################################################################################################################
########################################################################### #######
###
###
###
###
###############

R#o#o#t# #E#n#t#r#y######################################################
        ############F############p`############1#T#a#b#l#e#####################################################
###########################################i###
.######W#o#r#d#D#o#c#u#m#e#n#t#########################################################################################4########S#u#m#m#a#r#y#I#n#f#o#r#m#a#t#i#o#n########
###################(#############################################################D#o#c#u#m#e#n#t#S#u#m#m#a#r#y#I#n#f#o#r#m#a#t#i#o#n###########8####################
###################        #############C#o#m#p#O#b#j#############################################################################################u#####################
########################################################################################################################################################################
######################################################


###
###        ############F####Documento do Microsoft Office Word#
###MSWordDoc#####Word.Document.8#9q###############################################################################################################################################
####################################################################################################################################################################################
####################################################################################
